Mulher Paralisada Abandonada em Encontro — Até Que um Estranho e sua Filha ApareceramA partir desse momento, ela percebeu que a gentileza de desconhecidos pode transformar até os dias mais sombrios em esperança.6 min de lectura

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Isabel Mendes observou o vapor subindo da sua chávena de chá, fingindo estar fascinada pelo modo como o pires capturava a luz. O café na Rua das Flores era daqueles lugares com influência parisiense, cheio de cadeiras de vime e vasos de alfazema; escolhera-o porque parecia corajoso ocupar uma beleza pequena e comum numa tarde de terça-feira. Aos trinta e dois anos, aprendera que a coragem tinha outro aspeto agora—gestos mais simples, pontos de confiança que cosia numa vida que já não correspondia ao mapa que planeara.

Chegara quinze minutos mais cedo, ridiculamente cedo: vestira o seu vestido bege favorito (aquele que a fazia sentir-se como a mulher que era antes do acidente), batom num vermelho suave que a lembrava de que ainda possuía rostos para usar, o cabelo preso num carrapito solto que exigira mais coragem do que devia. Sentara-se na cadeira de rodas, na mesa mais próxima da rua, as mãos pousadas no colo, à espera do homem cujo perfil lhe parecera plausível e gentil nas mensagens—Rafael, que lhe perguntara sobre os seus desenhos e a exposição que mencionara, que não fizera alarido sobre a cadeira de rodas quando trocaram mensagens.

Viu-o do outro lado da rua, exatamente na hora marcada. Ele parou, olhou em volta, e o seu rosto—quando caiu sobre a cadeira—fechou-se como uma porta. Por um momento, ela observou, como se estivesse a ver outra pessoa. O homem digitou algo rapidamente, e o telemóvel dela vibrou: *”Desculpa, surgiu um imprevisto. Não posso ir. Boa sorte.”*

A boca ficou-lhe seca. Permaneceu imóvel, como se o corpo que a trouxera até ali pudesse aguentar mais uma deceção sem se desfazer. Sentiu a velha e conhecida lasca da redução: já não era Isabel, a pessoa com manias de café terríveis e um riso suave, mas sim *uma cadeira de rodas*, uma história que fazia os outros afastarem-se.

Pensou em ir-se embora, por dignidade. *Acaba o chá primeiro*, disse a si mesma, como se um gole pela metade pudesse remendar o orgulho. Conteve as lágrimas e puxou um caderno de esboços da mala, fingindo desenhar. As mãos tremiam tanto que as linhas se confundiam num mapa de aguarela.

Foi então que uma voz pequena irrompeu na cena como alguém a derramar um frasco de estrelas sobre o pavimento.

“Olá,” disse uma menina, séria como se estivesse a ponderar cada palavra. Tinha tranças loiras atadas com fitas vermelhas e um unicórnio de peluche apertado contra o peito, um sapato desapertado. Os seus olhos azuis estavam enormes de curiosidade. “Porque estás triste?”

Isabel limpou as palmas das mãos às costas de uma delas e sorriu com a generosidade treinada que reservava para crianças e cães. “Está tudo bem, querida,” disse. “Estás perdida? Onde está a tua—”

“O papá está ali,” a menina respondeu, apontando com um dedo pegajoso. Um homem aproximou-se, o casaco a esvoaçar como se tivesse sido atrasado pela gravidade do mundo. Estava nos seus trinta e poucos anos—bem-parecido, sim, mas não do tipo que gritava; mais do tipo que preenchia a sala com uma presença calma. Tinha o ar de quem estava habituado a ser ouvido, a compostura de CEO que vem de ser responsável por mais do que o seu próprio almoço.

“Inês,” disse ele, baixinho, mas os olhos suavizaram-se quando pousaram em Isabel. Reparou nos vestígios de lágrimas no seu rosto, na cadeira vazia à sua frente, e algo na sua expressão severa aliviou.

“Desculpa se ela te assustou. Tem o hábito de escapar quando não estou a ver.” Olhou para o unicórnio. “É o Brilhante? Andou a obrigar-me a dar nomes terminados em ‘-nte’ a todos os brinquedos na semana passada.”

“Brilhante,” confirmou Inês e depois, com a solenidade de um juiz, perguntou aquilo que as crianças perguntam e os adultos temem responder: “Porque tens rodas?”

O rosto do pai gelou num reprimande educado. “Inês, isso é rude—”

Isabel interrompeu. “Não faz mal, a sério. Pode perguntar.” Envolveu os dedos à volta do bicho de peluche que a filha lhe oferecera como uma oferenda. O brinquedo estava gasto nas pontas e cheirava ligeiramente a protetor solar com cheiro a banana. Sorriu para a menina; o sorriso chegou como um pequeno sol.

“Tive um acidente,” explicou. “As minhas pernas não funcionam como as tuas, por isso uso esta cadeira para me deslocar. Ajuda-me, como o teu pai conduz um carro em vez de andar a pé para todo o lado.”

Inês anuiu, como se a lógica tivesse sido restaurada no universo. “Posso sentar-me contigo? Pareces sozinha. A senhora provavelmente quer ficar sozinha.”

Isabel riu-se, suave e honesta. “Na verdade, adoraria companhia—se o teu pai deixar.”

O homem hesitou um instante, a medir. “Está bem,” disse, sentando-se sem deixar de a observar. “Vou buscar os cafés enquanto me contas tudo sobre o Brilhante,” disse a Inês, que saltou para a cadeira que a ausência de Rafael deixara vazia, pousando o unicórnio com cuidado na mesa entre elas, como a estabelecer fronteiras.

“O papá é o Gonçalo,” disse ele ao voltar com duas chávenas e um pacote de sumo para Inês, que ela aceitou como um tesouro. “Gonçalo Tavares.”

“Isabel Mendes,” respondeu ela, envergonhada pela humidade residual em volta dos olhos. Nunca gostara de pena; a palavra sabia-lhe a areia na boca.

Falaram porque—às vezes é assim—as palavras fluem mais facilmente entre estranhos do que entre quem já tem tudo esperado deles. Gonçalo fez perguntas gentis sobre o seu trabalho de design, sobre como trabalhava em casa e que tipo de clientes preferia. Não perguntou nada invasivo sobre o acidente; deixou que ela contasse essa história quando quisesse, e quando ela falou do carro, da ambulância e dos meses de reaprendizagem, ele ouviu da maneira como as pessoas ouvem quando não estão a inventar um problema para resolver.

Quando a mão pequena de Inês desenhou um rabisco sincero num guardanapo, ela anunciou com ênfase: “O Brilhante faz as pessoas felizes quando estão tristes. Queres segurar nele?” Pousou o unicórnio no colo de Isabel como quem entrega um sacerdócio.

Isabel envolveu os dedos no bicho de peluche. As costuras ao longo do chifre estavam remendadas, pontos desajeitados em fio fluorescente. Tornavam o brinquedo mais humano, como as cicatrizes fazem. Respirou o cheiro ligeiro de lápis de cera esmagados e tardes de parque esquecidas, e sentiu algo no peito encaixar-se numa forma que se assemelhava à possibilidade.

Gonçalo sentou-se no banco em frente a ela. “Lamento pelo homem,” disse, passado um bocado, a voz baixa para não interromper o cochilo de Inês, a cabeça da menina a repousar no ombro dele com o ritmo familiar de pai. “Estava na loja ali em frente—o Gelados do Manuel—e vi-o a olhar para ti. Ele digitou algo e foi-se embora sem se dar ao trabalho de te olhar nos olhos. Fiquei furioso, honestamente. Queria—” Parou, engEle estendeu a mão e segurou a dela, os dedos entrelaçando-se como promessas que já não precisavam de ser ditas em voz alta, e naquele instante, entre o silêncio e o perfume do chá que já arrefecia, Isabel percebeu que a vida, afinal, tinha uma maneira peculiar de consertar os seus próprios contratempos com bocados inesperados de felicidade.

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