Ah, deixa-me contar-te esta história incrível que aconteceu aqui mesmo, em Portugal.
Segundo as notícias, 47 motards “raptaram” 22 crianças de um lar de acolhimento e levaram-nas para outra região antes das autoridades conseguirem intervir. Foi o que a agente da PSP disse quando mandou seis viaturas atrás deles. Foi o que a diretora do lar gritou ao telefone quando percebeu que as crianças tinham desaparecido.
Mas não foi bem assim que aconteceu.
O meu nome é Rodrigo Mendes. Sou assistente social em Braga e trabalho no sistema de acolhimento familiar há dezanove anos. Já vi de tudo—dores de coração sem fim. Mas nada me preparou para o que encontrei no Lar Futuro Brilhante naquele outono.
Vinte e duas crianças, dos seis aos dezassete anos. Todas no sistema. Todas esquecidas. E todas prestes a passar mais um Natal num sítio com ratazanas na cozinha e bolor nas paredes. O Estado devia ter fechado aquele lugar. Há três anos que “devia”.
Eu tentava há oito meses arranjar-lhes um lar melhor. Ninguém as queria. Muitos problemas de comportamento. Muitas necessidades médicas. Traumas demais. Custo elevado. O sistema desistiu delas.
Foi então que o meu amigo Martim, do Motoclube Veteranos do Ultramar, me ligou uma quinta-feira à noite. Cinquenta homens. Todos ex-militares. Todos condecorados. Todos à procura de um propósito depois de voltarem para casa.
“Meu, ouvi falar da situação das crianças. O clube quer ajudar.” A voz dele era séria. “O que achas de as levares uma semana à Serra da Estrela?”
Ri-me, um riso amargo. “Martim, essas crianças nem autorização para ir ao cinema têm. O Estado nunca aprovaria uma viagem destas.”
“Então não pedimos autorização,” disse ele. “Pedimos perdão depois.”
Foi assim que começou. A coisa mais linda, ilegal e louca em que já me meti. O Martim e o clube planearam tudo. Rentaram um parque de campismo vazio no inverno. Contactaram médicos, terapeutas e psicólogos que se ofereceram para ajudar. Reuniram doações—brinquedos, roupa, comida.
E depois, foram buscar as crianças.
Dia 18 de novembro, sábado de manhã, às 6h. Quarenta e sete motards chegaram ao lar, o ronco dos motores a ecoar como um trovão. As crianças acordaram e correram para as janelas. Umas gritaram, outras choraram. Nunca tinham visto nada assim.
Encontrei-me à porta com o presidente do clube, o senhor Guilherme. Setenta anos, barba branca, peito cheio de condecorações. Ele entregou-me uma pasta. “Termos de responsabilidade, autorizações médicas, contactos de emergência. Fizemos tudo o mais legal possível.”
A diretora do lar, a Dona Patrícia, desceu as escadas de roupão. “O que se passa aqui? Quem são estes homens?” Respirei fundo. “Estes senhores vão levar as crianças em viagem. Uma semana, tudo pago, com supervisão total.”
Ela ficou roxa. “Absolutamente não! Não podem levar crianças do Estado para outra região! Vou chamar a polícia!”
“Chame,” disse o Guilherme, calmo. “Mas enquanto faz isso, vamos perguntar às crianças se querem conhecer a Serra da Estrela. Se disserem que sim, levamo-las. A papelada resolve-se depois.”
Reunimos as vinte e duas crianças na sala comum. Desde a pequena Leonor, de seis anos, com o seu coelho de peluche, até o João, de dezassete, que já passara por catorze lares.
O Martim avançou. “Chamo-me Martim. Estes são os meus irmãos. Somos veteranos, andamos de mota e queremos levar-vos numa aventura.”
A Leonor levantou a mão. “Vão magoar-nos?” O meu coração partiu-se. Era o que elas tinham aprendido—adultos estranhos significam perigo.
O Guilherme agachou-se à altura dela. “Não, querida. Vamos proteger-vos. Vamos acampar, mostrar-vos a neve, ensinar-vos a pescar. Dar-vos a melhor semana das vossas vidas. Mas só se quiserem.”
“E se dissermos não?” perguntou o João, desconfiado. Tinha sido magoado demasiadas vezes.
“Então saímos agora e nunca mais nos vês,” respondeu o Guilherme. “A escolha é vossa. Não nossa, nem do Estado.”
As crianças olharam umas para as outras. Foi a Mariana, de doze anos, quem se levantou primeiro. “Eu quero ir. Nunca saí da cidade.”
E uma a uma, todos concordaram. Até o João.
A Dona Patrícia berrava ao telefone: “Estão a raptar crianças do Estado! Mandem a polícia já!” Mas já estávamos em movimento. Cada motard ficou responsável por uma criança. Algumas foram em carrinhas que o clube trouxera. Todas com capacetes, todas protegidas.
Em vinte minutos, estávamos na estrada.
Quarenta e sete motas. Oito carrinhas. Três furgões. Vinte e duas crianças. E eu, na garupa do Martim, a rezar para não ter acabado de destruir a minha carreira.
A polícia apanhou-nos a quinze quilómetros da cidade. Seis viaturas, luzes a piscar. Pararam-nos na autoestrada. O agente-chefe aproximou-se do Guilherme.
“Senhor, temos relatos de rapto de menores. Exijo que devolva as crianças imediatamente.”
O Guilherme entregou-lhe a pasta. “Agente, aqui tem autorizações assinadas pelo seu tutor legal.” Apontou para mim. “O senhor Mendes é assistente social com autoridade legal. Temos informações médicas, contactos, itinerário completo. Isto é uma visita de estudo.”
O agente revirou os papéis, olhou para as crianças—sorridentes, animadas, mais vivas do que estavam há meses.
“Isto é altamente irregular,” resmungou. “Tenho de confirmar.”
Enquanto ele ligava, o Miguel, de dez anos, aproximou-se. “Por favor, não nos mandem voltar. Aquele sítio é mau. A comida tem bichos, os chuveiros não funcionam. Nunca saímos de lá.” Os olhos encheram-se de lágrimas. “Só queremos uma semana boa.”
O agente olhou para ele, para os motards, para mim. “Quanto tempo?” perguntou ao Guilherme.
“Uma semana. Voltamos no sábado. Todos sãos e salvos, com memórias para a vida.”
O agente fechou a pasta. “Nunca vos vi. Mas se acontecer algo a estas crianças, procuro-vos pessoalmente. Entendido?”
O Guilherme fez continência. “Sim, senhor agente. Palavra de militar.”
Os sete dias seguintes foram magia. Chegámos ao parque ao cair da noite. O clube decorou tudo—luzinhas de Natal, cartazes de boas-vindas. Cada criança teve a sua cabana com lençóis limpos. O refeitório estava cheio de comida.
Na primeira noite, a Leonor encostou-se ao Guilherme. “Isto é o céu?”, sussurrou.
Os olhos dele encheram-se de lágrimas. “Não, minha pequena. Mas é quase.”
A semana foi recheada—passeios a cavalo, pesca, caminhadas na serra, histórias à volta da fogueira. Os motards ensinaram-nas a andar de bicicleta, a fazer fogo, mas acima de tudo, ensinaram-nas que importavam.
Cada criança teve um motard só para si. O João abriu-se ao Martim sobre a mãe, que morrera de overdose. A Mariana contou ao Guilherme sobre o tio que a maltratara. O Miguel desenhou o pai, já falE no final, dez anos depois, na inauguração do Lar Nova Esperança—fundado pelos próprios ex-motards e algumas daquelas crianças, agora adultas—o João ergueu o seu capacete e disse, com os olhos cheios de orgulho: “A família não é aquela em que nascemos, mas aquela que escolhemos construir.”.





