Minha Madrasta Me Bateu por Ajudar um Necessitado – e Então Algo Inesperado Aconteceu6 min de lectura

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Capítulo 1: O Navio a Afundar

O aquecedor do Café da Sofia rangia como um motor a morrer, soprando ar morno que pouco fazia contra o frio cortante do inverno lá fora. Eu ficava atrás do balcão, as mãos vermelhas e gretadas da água com lixívia, a olhar para o monte de envelopes vermelhos ao lado da caixa registadora.

*Aviso Final. Contas Por Pagar. Urgente.*

“Para de olhar para isso, Inês. Eles não se pagam sozinhos.”

Eu estremeci, virando-me para ver a Margarida a empurrar a porta da cozinha. Ela não usava avental. Nunca usava. Em vez disso, vestia um vestido justo de pele de leopardo e um casaco de pele falsa que parecia ridículo às duas da tarde de uma terça-feira. O cheiro do seu perfume — algo pesado e floral — abafava o aroma do bacon a fritar.

“Só estava a organizar o correio,” disse baixinho, afastando um fio de cabelo solto. “O fornecedor ligou outra vez. Não há mais entregas até pagarmos o que devemos dos ovos e do leite.”

A Margarida revirou os olhos, verificando o seu reflexo no dispensador de guardanapos. “Não importa, Inês. Nada disto importa depois de amanhã.”

Senti um nó frio apertar-me no estômago. “O que acontece amanhã?”

“O promotor imobiliário,” disse, passando batom. “A firma do Sr. Almeida. Vão mandar um representante. Estou a vender o café.”

“Não podes,” sussurrei, as palavras a arranharem-me a garganta. “O pai fez-te prometer. No leito de morte, Margarida. Prometeste que guardavas o café para mim até eu fazer vinte e um anos.”

A Margarida fechou o compacto com força. Os poucos clientes no café — maioritariamente habituais como o Sr. Costa no canto — levantaram os olhos dos seus cafés.

“O teu pai vivia num mundo de fantasia,” sibilou ela, inclinando-se sobre o balcão para que só eu sentisse o vinho rançoso no seu hálito. “Deixou-me com uma montanha de dívidas médicas e um restaurante que mal dá lucro. Eu sou a tutora legal. Eu sou a executora. E estou farta de limpar gordura das minhas unhas.”

Bateu com a unha polida no balcão. “Assinamos os papéis amanhã. Recebemos o dinheiro. Eu mudo-me para o Algarve. Tu? Tu resolves-te. És nova.”

Agarrei a borda do balcão para impedir as mãos de tremer. Aquele café era tudo. Era o banco onde fazia os trabalhos de casa enquanto o pai cozinhava. Era a jukebox onde dançávamos ao som de Amália quando o café estava vazio. Era o único lugar onde ele ainda me parecia vivo.

“Não vou assinar,” disse, a voz trémula mas firme. “O meu nome também está na escritura, Margarida. O pai pôs no testamento. Precisas da minha assinatura.”

Os olhos da Margarida estreitaram-se. “Não me desafies, rapariguinha. Achas que tens poder? Não tens nada. És uma empregada de mesa de dezanove anos com três euros na conta.”

Antes que pudesse responder, o sino da porta tilintou violentamente. Uma rajada de vento, trazendo flocos de neve e o cheiro do escape, varreu a sala.

Todos se viraram.

Na entrada estava uma figura que parecia uma tragédia. Um homem idoso, curvado, a tremer tanto que os ossos pareciam chocalhar. Vestia um casaco preso com fita-cinza e botas abertas nos dedos, revelando meias de lã molhadas. A barba estava emaranhada de gelo, e o rosto cinzento de exaustão.

O silêncio no café ficou pesado.

“Ótimo,” a Margarida gemeu alto, erguendo as mãos. “Exatamente o que precisamos para impressionar os compradores. Um vagabundo. Tira-o daqui, Inês.”

Olhei para o homem. Ele não era agressivo. Estava assustado. Olhava para os bancos quentes com uma saudade que me partia o coração.

“Ele está a congelar, Margarida,” disse.

“Não quero saber se é uma estátua de gelo,” respondeu ela, seca. “Isto não é um abrigo. Só clientes que pagam. Põe-no na rua.”

Olhei outra vez para o homem. Ele deu um passo hesitante, e as pernas falharam. Agarrou-se à ombreira da porta, a respirar com dificuldade.

Tomei uma decisão.

“Não,” disse.

A Margarida parou. “Como é?”

“Disse que não.” Saí de trás do balcão, ignorando o choque dela. Fui direita ao idoso. “Senhor? Entre. Por favor.”

Capítulo 2: O Preço da Bondade

O velho olhou para mim com olhos azuis, cheios de água, que pareciam brilhar demasiado para alguém tão derrotado.

“Eu… não tenho dinheiro, menina,” sussurrou, a voz rouca mas surpreendentemente clara. “Só precisava… de um momento fora do vento.”

“Vai ter mais do que isso,” disse suavemente, pegando no seu braço gelado. Através das camadas de trapos, senti a magreza dele. “Venha sentar-se na mesa ao fundo. É a mais perto do aquecedor.”

Gui-o pelos outros clientes. O Sr. Costa acenou-me com simpatia, mas a maioria desviou o olhar, incomodada com a intrusão da pobreza no seu almoço.

Sentei-o e vi-o a derreter-se no calor. As mãos, cobertas de sujidade e cicatrizes velhas, tremiam quando as pousou na mesa.

“Inês!” A voz da Margarida era um grito agora. Marchou até nós, os saltos a baterem com força no chão de tijoleira. “Estás surda? Disse para tirares este lixo do meu estabelecimento!”

“É o meu turno, Margarida,” disse, a voz mais firme do que julgava possível. “Estou a servir um cliente.”

“Não é cliente! É um sem-abrigo!” Virou-se para o velho, enrolando o lábio em nojo. “Ei! Você! Saia antes que chame a polícia. Cheira a esgoto.”

O idoso não reagiu aos insultos. Apenas a olhou, estudando-lhe o rosto com uma intensidade estranha. “Só estou com fome, senhora. Uma sopa é pedir muito?”

“Sim, é!” gritou a Margarida.

“Eu pago,” interrompi. Virei-me para o homem. “Não lhe ligue. Já volto.”

Corri para a cozinha, o coração a bater contra as costelas. Peguei numa tigela limpa e enchi-a com uma porção generosa da famosa caldeirada do pai — espessa, cremosa e fumegante. Levei também uma cesta de pão de milho e uma caneca de café preto.

Quando regressei, a tensão na sala era tão densa que dava para sufocar. A Margarida estava de pé junto à mesa, os braços cruzados, o pé a bater. O velho olhava em frente, digno apesar dos insultos que ela lhe atirava.

Coloquei a comida à sua frente. “Aqui está. Coma. À vontade.”

O homem ergueu os olhos para mim. Por um instante, a fachada do mendigo cansado desapareceu. Havia um brilho de algo afiado — inteligência, poder, julgamento — no seu olhar.

“Tens um espírito bondoso, Inês,” disse baixinho. “O teu pai criou-te bem.”

Eu congelei. “Como sabe do meu pai?”

“Inês!” A MargarE quando o velho sorriu, devolvendo-me aquele mesmo olhar que o meu pai costumava ter, percebi que algumas histórias nunca acabam, apenas se transformam.

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