**Os Nomes que me Deram**
A minha família sempre menosprezou a minha vida militar, chamando-me “funcionária de secretária” que estava a “brincar aos soldados”. Quando voei para casa para estar com o meu avô nas suas últimas horas, tentaram impedir-me de entrar no quarto do hospital, dizendo que eu não era “família a sério”.
O meu nome é Mariana Almeida. Tenho quarenta e dois anos, e os últimos três anos ensinaram-me que a lealdade numa família nem sempre é recíproca—especialmente quando acham que não passas de uma guarda enfeitada.
**A Chamada às 4:30 da Manhã**
Às 4:30 de uma terça-feira, o telefone tocou. O meu avô—o homem que me criou depois dos meus pais falecerem num acidente de carro quando eu tinha oito anos—tinha sofrido um AVC grave. Os médicos do Hospital de São José, em Lisboa, deram-lhe, no máximo, quarenta e oito horas. Eu estava no Afeganistão, a supervisionar uma operação secreta que levara dezoito meses a preparar. Mas família é família. Em seis horas, estava num voo de regresso, com o estômago em nós por causa do trabalho inacabado em dois continentes. Não esperava cair no meio de uma “reunião de família” que mais parecia um interrogatório.
**A “Favorecida”**
Os Almeidas sempre foram complicados. O meu avô, António Almeida, fora veterano da Guerra Colonial e construíra uma pequena empresa de construção do zero. Quando me acolheu, os seus três filhos adultos—os meus tios Miguel e João, e a minha tia Filipa—deixaram claro que eu era a “favorecida”, a sobrinha órfã que nunca seria ninguém. Toleravam-me porque o meu avô insistia, mas lembravam-me constantemente que eu não pertencia ali.
As festas eram uma sucessão de humilhações. Os meus primos gabavam-se das conquistas—o Miguel Jr. com o seu curso de direito, a filha da Filipa em medicina, o filho do João a entrar no negócio da família—enquanto eu era “a rapariga que foi brincar aos soldados”. Era assim que falavam quando me alistei aos dezoito.
“A Mariana é uma sonhadora,” dizia a tia Filipa a quem quisesse ouvir. “Acha que o exército vai transformá-la em alguém. Coitadinha, vai acabar a guardar um portão.” O tio Miguel, advogado de causas cíveis com complexo de deus, era pior. “O exército aproveita-se de miúdas como ela,” discursava entre o peru e a sobremesa. “Promete-lhes o mundo, esgota-as, e depois descarta-as. Daqui a quatro anos, volta sem nada além de dores nas costas e pesadelos.”
Nunca perguntaram sobre as missões, o treino, a Academia Militar, ou o facto de ter terminado em segundo lugar na minha turma. Na cabeça deles, eu continuava a ser a miúda assustada de oito anos agarrada a um ursinho na mesa do avô. O único que realmente acreditou em mim foi o meu avô. Ele fora sargento na Guerra Colonial. Sabia o que era servir. Mas nem ele conhecia a realidade completa. O meu trabalho não permitia.
**O Trabalho que Nunca Viram**
Comecei como alferes nos serviços de informação militar. O meu jeito para línguas e padrões chamou a atenção de pessoas importantes. Aos vinte e cinco, chefiava operações de inteligência humana na Europa de Leste. Aos trinta, coordenava esforços anti-terrorismo em três fusos horários. Aos trinta e cinco, recebi a minha primeira estrela—a mulher mais jovem da história do Exército Português a consegui-lo.
A minha família não sabia nada disto. A história de fachada—por razões de segurança—era que eu era uma coordenadora logística destacada pelo mundo. Soava aborrecido, exactamente o que esperariam da “favorecida”. O tratamento condescendente deles só ajudava a manter a farsa. Quem desconfiaria que a calada, insignificante Mariana Almeida dava briefings aos Chefes de Estado-Maior e carregava códigos que abriam portas sobre as quais ninguém fala?
**O Quarto Bege**
Quando entrei na sala de espera do hospital depois de três anos fora, a hostilidade bateu-me como um murro. “Olha quem finalmente decidiu aparecer,” disse o tio João, sem levantar os olhos do telemóvel—mais gordo, mais grisalho, mas com o mesmo sorriso arrogante.
“João,” disse suavemente, pousando a mala no chão. A sala era típica de hospital—cadeiras duras, cheiro a desinfectante. A minha família ocupava um canto perto das janelas—Miguel e a mulher, Ana, João e a esposa, Sofia, Filipa e o marido, Ricardo, além de primos que mal reconheci.
“Três anos, Mariana,” lamentou a tia Filipa, dramática como sempre. “Três anos sem uma única chamada, e agora apareces quando ele está nas últimas.”
“Estava no estrangeiro,” respondi. “Sabiam disso.”
O tio Miguel—o porta-voz da família—inclinou-se para a frente, cabelo prateado impecável, fato de três peças mesmo de madrugada. “No estrangeiro a fazer o quê, exactamente? Nunca dizes. Para nós, podias estar a carimbar papéis num escritório com ar condicionado na Alemanha.”
“O meu trabalho é confidencial,” respondi—a mesma resposta de há vinte anos.
João soltou uma risada. “Confidencial. É o que dizem aos que carregam dossiês para se sentirem importantes.”
“Acho que tinhas vergonha,” insistiu Filipa, com aquele tom que usava antes de atirar o que achava ser uma verdade dura. “Vergonha de nunca teres feito nada de jeito, por isso afastaste-te. E agora voltas porque pode haver dinheiro envolvido.”
A acusação pairou no ar. Alguns primos remexeram-se, mas ninguém a contradisse. Viam uma mulher de jeans e camisola preta, sem maquilhagem, que rejeitara o sucesso deles para “brincar aos soldados” durante anos. Não faziam ideia que o meu telemóvel tinha uma linha directa para o Estado-Maior, que o meu relógio era um dispositivo de comunicação seguro, ou que passara dezoito meses a perseguir criminosos de guerra por três continentes.
“Como está ele?” perguntei, em vez de discutir.
“Como se importasses,” resmungou João.
Ana—a mais bondosa do grupo—falou baixinho. “Está estável, mas os danos são graves. Os médicos disseram… devemos preparar-nos.”
Acenei, sentindo o peso familiar a assentar. Já perdera pessoas sob o meu comando—boas pessoas que confiaram em mim para as trazer de volta. Mas esta era o homem que me ensinou a conduzir na sua velha carrinha, que assistiu a todas as peças da escola, e nunca me fez sentir um estorvo.
“Posso vê-lo?” perguntei.
“Só família,” disse Filipa rapidamente. “Os médicos foram claros.”
A crueldade casual tirou-me o ar. Depois de tudo—perder os meus pais, vinte e quatro anos de farda, voar do outro lado do mundo—iam impedir-me de me despedir.
“Ela é família,” disse Ana, ganhando um olhar cortante do marido.
“Ela mal é família,” retorquiu Filipa. “Aparece de anos a anos quando lhe convém. Nunca liga, nunca escreve.”
“Família a sério mantém contacto. Família a sério aparece.”
“Família a sério,” acrescentou Miguel, “não vai brincar aos comandos para o outro lado do mundo.”
Algo mudou em mim. Passei décadas a proteger pessoas que nunca me agradeceriam, a perseguir quem ameaçava o que jurei defender, aAssim, peguei no telemóvel e liguei para o gabinete do Estado-Maior, anunciando a minha patente pela primeira vez na frente deles, e vi os rostos deles desfeitos em choque quando um destacamento militar chegou ao hospital para me escoltar até ao avô, enquanto eu, finalmente, deixava-os a enfrentar o peso da sua própria insignificância.





