Meu marido jurou que a filha era incapaz e muda. Quando saíram, ela me entregou as chaves e disse: ‘Hora de descobrir o que escondem de nós.’4 min de lectura

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Acabámos numa bomba de gasolina degradada a uma hora da cidade. A Inês ia a conduzir. Em alta velocidade. Como se fizesse aquilo desde sempre. Eu estava no lugar do passageiro, em choque, ainda a tentar processar o que tinha acabado de presenciar.

Ela atirou-me uma garrafa de água do banco de trás. “Pareces que vais desmaiar.”

“Estiveste a fingir este tempo todo?”, perguntei finalmente.

Ela bufou. “Não. Fui obrigada a fingir.”

Arqueei uma sobrancelha.

“Aos quinze anos tive mononucleose. Fiquei de cama dois meses—fraca, exausta, não aguentava comida. Eles enlouqueceram. Levaram-me a todos os médicos que podiam pagar. Um deles sugeriu a hipótese de uma doença muscular degenerativa. O meu pai—o David—agarrou-se a isso como se fosse um troféu.”

“Mas porque continuar depois de teres melhorado?”

Ela estacionou o carro atrás do edifício, longe das câmaras de segurança. O rosto dela ficou gelado.

“Porque, quando voltei a andar, eles não quiseram acreditar. Disseram que eu estava ’em negação’. Que só queria atenção.”

Os dedos dela apertaram o volante.

“Adoravam a ideia de ter uma filha doente. A simpatia. As doações. Os amigos a chamá-los inspiradores.”

Olhei para ela, incrédulo. “Então obrigaram-te a ficar na cadeira de rodas?”

A Inês fitou-me com uma raiva que nunca tinha visto numa adolescente. “Precisavam que eu continuasse ‘partida’. Sabes quantos arrastares de voz tive de treinar para manter as aparências? Há dois anos que não uso a minha voz verdadeira.”

Recostei-me, atordoado.

“Eu tentava. Implorava para voltar à escola. Para andar na frente de um médico. Mas ameaçavam-me. Diziam que me iam internar por ‘regressão psicológica’. Espalhavam que eu estava a ‘alucinar’. Até que… desisti de lutar.”

“E agora?”, perguntei.

Ela olhou para mim, com um brilho nos olhos. “Agora eles não estão cá. E tenho sete dias. Tenho um plano.”

As horas seguintes foram surreais. A Inês mudou-se para roupa que não reconheci—jeans rasgados, botas militares, um casaco com capuz. Tinha dinheiro escondido numa caixa de cereais no armário. Tinha tudo planeado. Lugares para visitar. Pessoas que precisava de ver. Não estava a fugir.

Estava a recuperar uma vida que tinha sido pausada.

Mais tarde, parámos num beco sossegado. Ela olhou para uma casa com as mãos a tremer.

“A minha mãe mora aqui. A mãe biológica”, acrescentou. “Aquela com quem o David não me deixa falar.”

“Ela sabe que vens?”

“Nem sabe que posso vir.”

Fiquei calado ao lado dela.

Depois, a Inês disse: “Não te peço para seres meu amigo. Mas preciso que alguém me veja—porque passaram anos a apagar-me.”

E, de alguma forma, naquele momento, entendi-a melhor do que jamais entenderia o David.

A mulher que abriu a porta parecia não dormir há anos. Trinta e tal, olhos fundos, tatuagens mal escondidas por um casaco gasto. Pestanejou ao ver a Inês.

Depois, soltou um grito.

“Inês?”, a voz dela falhou.

“Olá, Mãe”, a Inês disse, suave.

“Meu Deus.” A mãe dela deixou cair o que tinha nas mãos e agarrou-a, abraçando-a com tanta força que a Inês fez uma careta. “Tu… estás a andar.”

A Inês não disse nada. Lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.

Fiquei na varanda, sem saber se devia estar a ver aquilo. Mas a Inês fez-me sinal para entrar.

Dentro, era o caos—roupa amontoada, uma TV velha, dois cães a ladrar aos meus pés. Mas estava vivo. Cru.

Entre café e muito silêncio, a Inês contou-lhe tudo.

A mãe dela, a Raquel, parecia despedaçar-se a cada palavra.

“Tentei lutar por ti”, sussurrou a Raquel. “O tribunal disse que o David tinha recursos. Estabilidade. Ele disse-lhes que precisavas de cuidados que eu não podia pagar.”

“Ele disse-te que eu não andava.”

A Raquel engasgou-se num soluço. “Disse-me que me odiavas.”

A Inês apenas anuiu.

Naquela noite, a Inês ficou no quarto de hóspedes da mãe. Eu dormi no sofá.

No dia seguinte, ela pediu-me para a levar a outro sítio.

“À estação de televisão local. Pequena. Mas vão ouvir-me se eu falar.”

“Tens a certeza?”

“Que tentem calar-me agora.”

Sentou-se frente a uma jovem repórter e contou a sua história. Tinha diários. Gravações. Mensagens do David a avisá-la para “se portar bem” com visitas. Fotos de hematomas de “sessões de terapia” para a “fazer aceitar a condição”.

E, quando foi para o ar, o mundo viu-a—não como uma miúda partida, mas como uma sobrevivente.

O David e os pais dele voltaram de viagem e encontraram a CPCJ e investigadores à espera. As férias transformaram-se num pesadelo.

Eu não fiquei casado muito mais tempo. Divorciei-me nesse mês.

A Inês? Voltou ao secundário. Arranjou um part-time numa livraria. Ria-se sem hesitar.

Seis meses depois, enviou-me uma foto: a sua primeira carta de condução. No canto, escrevera: “Obrigada por me veres.”

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