Libertem a empregada, a verdadeira culpada é minha madrasta!6 min de lectura

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**Diário de um Homem**

As portas duplas do tribunal abriram-se de repente com um estrondo que ecoou por toda a sala. Uma menina de quatro anos, com um vestido rosa manchado de lama e os sapatos perdidos pelo caminho, entrou correndo pelo corredor central. *”Ana não fez nada!”* gritava com toda a força que seus pulmões permitiam.

O juiz ergueu o martelo, mas ficou paralisado. Os murmúrios cessaram imediatamente. Todos os olhos se viraram para aquela pequena figura que tremia no centro da sala, com os cabelos desgrenhados e as bochechas vermelhas de tanto correr.

Ana, sentada no banco dos réus, sentiu o coração parar. As lágrimas que segurava há semanas começaram a escorrer. Não conseguia acreditar no que via. *”Maria…”* sussurrou. A menina virou-se para ela e, por um instante, seus olhos se encontraram. Depois, com uma determinação improvável para alguém tão pequena, Maria levantou o dedo trêmulo e apontou para a primeira fila.

*”Foi ela”*, disse com uma voz fraca, mas clara. *”Foi minha madrastra.”*

Inês Mota permaneceu imóvel no assento, vestida de preto, com as mãos perfeitamente apoiadas no colo. Seu rosto mantinha a expressão de dor contida que usara durante todo o processo, mas algo havia mudado em seus olhos. O pânico escorria como água por uma rachadura.

O juiz bateu o martelo três vezes. *”Ordem! Ordem na sala!”* Sua voz cortou o caos que havia se instalado. Declarou um recesso de trinta minutos, mas, antes que alguém reagisse, Maria correu para Ana. Os seguranças moveram-se para detê-la, mas o advogado de defesa ergueu a mão. *”Ela é a filha da vítima”*, murmurou ao juiz.

Ana inclinou-se o quanto as algemas permitiam. Maria agarrou suas mãos algemadas e sussurrou algo que só ela ouviu:

*”Eu vi tudo, Ana. Eu vi o que ela fez.”*

Seis meses antes, a casa dos Silva era muito diferente. O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, iluminando os móveis de mogno e os tapetes orientais que Antônio trouxera de uma de suas viagens de negócios. Maria sentava-se no chão, cercada de bonecas, mas não brincava. Observava os adultos conversando no sofá como se fossem atores de uma peça que não entendia.

*”Maria, meu amor, vem cá”*, disse Antônio com aquele tom especial que usava quando queria sua atenção. *”Quero que conheças alguém muito especial.”*

A mulher ao lado dele era bonita. Tinha cabelo castanho e brilhante como as princesas dos contos, e vestia um vestido azul que parecia caro. Quando sorria, seus dentes eram branquíssimos.

*”Olá, pequenina”*, disse ela, inclinando-se. *”Eu sou Inês. Teu pai e eu vamos casar em breve.”*

Maria olhou para o pai, confusa. *”Isso significa que não vais viajar tanto?”*

Antônio riu e pegou-a no colo. *”Significa que a Inês vai ser tua nova mãe. Não é maravilhoso?”*

Maria não tinha certeza do que deveria sentir. Lembrava-se vagamente da mãe verdadeira, que morrera quando ela tinha dois anos. Mas Ana sempre estivera lá—cuidando dela, contando histórias antes de dormir, consolando-a nos pesadelos.

Inês estendeu os braços. *”Vem comigo, filhinha. Vamos ser felizes juntas.”*

Quando Maria se aproximou, Inês abraçou-a, mas algo naquele abraço parecia errado. Era como abraçar uma boneca grande e fria. O perfume de Inês era sofisticado, mas, por baixo dele, havia um cheiro que Maria não reconhecia—algo que a fazia querer se afastar.

Da porta da cozinha, Ana assistia à cena. Trabalhava naquela casa há três anos, desde a morte da senhora Sofia. Vira Maria dar os primeiros passos. Estivera lá quando ela pronunciou as primeiras palavras depois do acidente. Aquela menina era mais que seu trabalho. Era a filha que nunca tivera.

Algo no modo como Inês olhava para Maria a perturbava. Quando Antônio se virava para pegar documentos ou atender o telefone, o sorriso de Inês desaparecia. Seus olhos estudavam a menina como se fosse um problema a ser resolvido.

*”Ana, podes trazer café? Eu e a Inês temos muito para planejar.”*

*”Claro, senhor Antônio.”*

Enquanto preparava o café, Ana ouvia as vozes da sala. Antônio falava do casamento, das mudanças que viriam, de como estava feliz por ter uma família completa novamente. Inês respondia com palavras perfeitas, mas sua voz soava ensaiada.

*”Que fofa, minha amorzinho!”* Ana a ouviu dizer quando Antônio mencionou algo sobre Maria. *”Vamos ser melhores amigas.”*

Mas, quando Ana voltou com a bandeja, viu que Inês apertava o ombro de Maria com força demais. A menina estava rígida, olhando para a janela como se quisesse fugir.

*”O café, senhor Antônio.”*

*”Obrigado, Ana”*, ele respondeu, sem tirar os olhos dos papéis. *”Aliás, preciso viajar para o Porto na semana que vem. Ficarei dez dias fora.”*

Ana viu os olhos de Inês brilharem—mas não era tristeza.

*”Tão cedo?”* disse Inês. *”Mal nos conhecemos, eu e a Maria.”*

*”É inevitável, meu amor. Mas assim terão tempo para se adaptar. A Ana vai ajudar em tudo.”*

Inês murmurou um *”claro”*, mas seu olhar para Ana não era amigável.

Aquela noite, após Inês ir embora e Antônio trancar-se no escritório, Ana ajudou Maria a tomar banho e vestir o pijama. Era sua rotina favorita.

*”Gostas da Inês?”* perguntou enquanto penteava seus cabelos.

Maria encolheu os ombros. *”Não sei. Ela cheira estranho.”*

*”Estranho como?”*

*”Como… quando o pai esquece as flores no vaso por muito tempo.”*

Ana franziu a testa. Era uma descrição estranha, mas crianças às vezes percebiam coisas que adultos ignoravam.

*”Como te sentes com ela vivendo aqui? Tu vais embora?”* perguntou Maria, virando-se rapidamente, com os olhos arregalados.

*”Não, minha menina. Eu não vou a lugar nenhum.”*

Maria abraçou-a com força. *”Promete?”*

*”Prometo.”*

Mas, enquanto a cobria, Ana não conseguia se livrar da sensação de que algo estava prestes a mudar para sempre.

Os dias seguintes confirmaram seus temores. Inês passou a frequentar a casa mais vezes—*”aprendendo as rotinas”*, dizia. Mas Ana percebia como ela observava tudo: horários dos empregados, onde ficavam as chaves, os remédios de Antônio.

*”Para que serve isto?”* perguntou Inês, apontando para um frasco no armário de medicamentos.

*”Para o coração do senhor Antônio. O médico disse que ele deve tomar todas as noites.”*

Inês assentiu, pensativa, como se memorizasse detalhes importantes.

Uma semana depois, Antônio partiu. Inês chegou cedo com duas malas. *”Pensei que seria bom eu e a Maria passarmos tempo juntas”*, explicou.

Antônio achou a ideia encantadora. *”A Ana estará aqui para te ajudar.”*

Assim que ele saiu, o clima mudou. Inês perambulava pela casa como se já fosse dona, reorganizando objetos**Final sentence:**

No fim, enquanto Maria segurava a mão de Ana ao saírem do tribunal, ambas sabiam que, embora a dor jamais desaparecesse por completo, a verdade as havia libertado.

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