Miguel Almeida, de dezassete anos, tinha crescido a deslizar pelos corredores brilhantes do Hotel Almeida Plaza com aquela autoridade tranquila de quem é filho único de António Almeida. Os hóspedes admiravam-no. A equipa afastava-se quando ele passava. Fora criado para navegar entre mármores e corredores luxuosos como se todo o edifício fosse uma extensão da sua casa. Mas, naquela tarde fria na Avenida da Liberdade, tudo o que pensava saber sobre si mesmo parou abruptamente. Parou quando viu o rapaz encostado a um sinal de trânsito torto.
O rapaz usava três camisas que não combinavam, uma por cima da outra, debaixo de um casaco azul-marinho desgastado. O cabelo escuro caía em caracóis desalinhados sobre a testa, castigado pelo tempo e pelo abandono. Mas não foi isso que fez Miguel parar no meio do passeio. O rosto do rapaz era como um reflexo que ele não se lembrava de ter visto antes. O mesmo queixo angular, o mesmo nariz direito, os mesmos olhos verdes-claros. Até a expressão de surpresa era idêntica à sua.
O rapaz pestanejou enquanto Miguel ficava petrificado. O barulho de Lisboa agitava-se à volta deles: buzinas, vendedores a gritar, motores de autocarros. Mas a cidade pareceu desfocar-se num silêncio que se esticou, estranhamente.
—És parecido comigo —disse o rapaz, com voz rouca, a aspereza de quem dorme ao relento.
O coração de Miguel martelou contra as costelas. —Como te chamas? —Rafael. Rafael Mendes.
Mendes. Uma pontada no peito. Esse fora o apelido da sua mãe antes de casar com António Almeida. Ela morrera sete anos antes, deixando para trás uma vida de segredos não contados. Raramente falava do passado. Miguel lembrava-se dela a rir, a cozinhar, a cantarolar de manhã. Nunca a ouvira falar da família.
—Quantos anos tens? —perguntou Miguel. —Dezassete —respondeu Rafael, os olhos a percorrerem o casaco bem cortado de Miguel antes de regressarem ao seu rosto, como se temesse ser julgado. —Não tou a tentar enganar-te. Não é golpe. Ando sozinho há algum tempo. Não tem sido fácil.
Miguel engoliu em seco. Quanto mais olhava para Rafael, mais o parecido se tornava inquietante. —Sabes alguma coisa dos teus pais?
Rafael mexeu-se, ajustando o cobertor em que estava sentado. —A minha mãe chamava-se Leonor Mendes. Morreu quando eu era pequeno. O homem com quem ela vivia não era meu pai. Quando ele me expulsou no inverno passado, encontrei uma caixa velha com os papéis dela. Havia a minha certidão de nascimento. Não tinha nome do pai. —Hesitou, olhando para cima. —Mas havia fotografias dela com dois bebés. Sempre pensei que um fosse eu. Agora acho que éramos eu e mais alguém.
Um arrepio percorreu a espinha de Miguel. Ele também se lembrava das fotos da mãe, guardadas num álbum de flores que ninguém tocava. Dois bebés. Um ao colo. Outro num berço ao lado. António dissera que um dos bebés morrera pouco depois de nascer. Era tudo o que Miguel sabia.
Rafael continuou, baixinho: —Procurei gente que trabalhou com ela, num café perto do Marquês. Disseram que ela estivera grávida de gémeos antes de desaparecer. Não sabiam do resto.
O estômago de Miguel revirou-se. O pai nunca falara num gémeo abandonado. Nunca insinuara dúvidas. Só mencionara uma tragédia que acontecera tão cedo que Miguel não se lembrava.
—Conheces o António Almeida? —perguntou Rafael. A respiração de Miguel cortou-se. —É o meu pai.
O misto de medo e esperança no rosto de Rafael fez-lhe fraquejar as pernas. O mundo pareceu inclinar-se, como se Lisboa tivesse mudado de posição sem aviso.
Ficaram ali, parados, durante segundos que pareceram eternos. Dois rapazes de vidas opostas, a olharem um para o outro como se estivessem a descobrir um capítulo perdido das suas histórias.
Finalmente, Miguel disse: —Vem comigo.
Levou Rafael pelas portas giratórias do Almeida Plaza. Os seguranças não disseram nada, mas os olhares não disfarçavam a surpresa. Miguel levou-o para um salão reservado, com cadeiras de veludo e luz suave. Rafael sentou-se na ponta de uma cadeira, esfregando as mãos para as aquecer. Miguel pediu sopa, pão, chá e um cobertor limpo ao serviço de quarto. Rafael aceitou, hesitante mas grato.
Miguel observou-o a comer, com um nó no peito. —Acho que temos de falar com o meu pai.
Rafael sacudiu a cabeça. —Se não me quis há anos, porque é que haveria de me querer agora? Miguel olhou para as mãos. —Não sei. Mas ele tem de enfrentar isto.
Trinta minutos depois, António Almeida entrou na sala com a energia de quem está habituado a controlar tudo. Parou a seco ao ver Rafael. A expressão dele tinha algo que Miguel nunca vira: não era raiva nem irritação. Era algo mais frágil. Quase medo.
—Miguel —disse António, devagar. —Explica-me. Miguel apontou para Rafael. —Ele diz que a mãe dele era Leonor Mendes.
O rosto de António alterou-se, ainda que tentasse esconder. —O que queres de mim? —perguntou a Rafael.
Rafael endireitou-se. —A verdade.
António suspirou. As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
—A tua mãe e eu estivemos juntos pouco tempo. Ela disse-me que estava à espera de um filho. Depois desapareceu. Anos depois, contactou-me a pedir ajuda. Tinha dois bebés. Disse que ambos eram meus. Marcámos um teste. Antes de acontecer, ela desapareceu outra vez. Quando ela morreu, tentei encontrar as crianças. Só havia registo de uma adoção. A do Miguel. A agência jurou que não sabia de outro bebé. Pensei que ela inventara a história.
Rafael acenou, rígido. —Ela não mentiu. Eu fiquei de fora.
Cada palavra doía. A vida de Miguel, sempre tão estável, de repente parecia frágil.
—Isto tem solução —disse Miguel, suavemente.
António olhou para ambos com uma expressão indecifrável. —Se és meu filho, assumo a responsabilidade.
—Palavras não chegam —respondeu Rafael.
—Então fazemos o teste —disse António.
Cinco dias depois, chegaram os resultados. Miguel rasgou o envelope no escritório do pai. A cidade estendia-se lá fora, envolta em neblina. Rafael ficou imóvel junto à janela. António sentado, tenso.
Miguel leu devagar: —Probabilidade de paternidade: noventa e nove vírgula noventa e sete por cento.
Rafael fechou os olhos, respirando fundo. António afundou-se na cadeira.
—Peço desculpa —sussurrou António. —Falhei-vos aos dois.
Rafael não respondeu logo. O rosto dele alternava entre dor, alívio e cansaço. —E agora?
António juntou as mãos. —Se quiseres, quero ajudar-te. Casa, escola, o que precisares. E quero que faças parte desta família.
A voz de Rafael falhou. —Não quero caridade. Quero a vida que devia ter tido.
Miguel aproximou-se. —EntE, enquanto as luzes de Lisboa cintilavam lá fora, os três perceberam que, por mais que o passado os tivesse separado, o futuro era um caminho que agora percorriam juntos.





