A idosa de 87 anos demitiu a enfermeira de cuidados domiciliares e contratou um motociclista tatuado em seu lugar, e a família dela ameaçou declará-la incapaz.
Eu sou sua vizinha, e vi tudo acontecer da janela do meu apartamento, do outro lado do corredor. O que os filhos dela não sabiam, o que ninguém sabia exceto eu, era o motivo daquela decisão.
O nome dela é Amélia Rodrigues. Amélia vive no apartamento 4B há quarenta e três anos. O marido morreu em 2003. Os três filhos moram em diferentes regiões do país e a visitam talvez duas vezes por ano.
Ela tem Parkinson avançado, osteoporose e uma solidão que dói nos ossos.
Mudei-me para o prédio há dois anos. Sou jornalista, trabalho em casa, e comecei a reparar em certas coisas. A agência de enfermagem enviava profissionais diferentes a cada semana.
Amélia tentava conversar, tentava fazer amizade, mas elas só cumpriam o trabalho e iam embora. Alimentavam-na. Banhavam-na. Davam-lhe os remédios. Depois desapareciam.
Ela começou a deixar a porta entreaberta durante o dia. Só um pouco. O suficiente para ouvir alguém no corredor. O suficiente para não se sentir completamente sozinha. Eu acenava quando passava.
Às vezes parava para conversar. Ela me contava sobre o falecido marido, Álvaro, veterano da Guerra Colonial. Sobre os filhos, que estavam “muito ocupados”. Sobre como viajava o mundo e agora não conseguia chegar sozinha à caixa de correio.
O motociclista apareceu numa terça-feira de janeiro. Ouvi a porta de Amélia abrir e espreitei pelo olho mágico. Lá estava ele. Quase dois metros de altura, coberto de tatuagens, barba até o peito, usando um colete de couro com patches. Trazia sacos de compras.
Minha primeira reação foi pensar que Amélia estava sendo assaltada. Abri a porta. “Com licença, posso ajudar?” Ele virou-se e sorriu. Um sorriso que transformou completamente o seu rosto. “Só estou ajudando a Dona Amélia com as compras. Foi ela que me chamou.”
A voz de Amélia ecoou de dentro. “Miguel, és tu? Entra, entra. E traz a vizinha bisbilhoteira também.”
Segui-o para dentro, desconfiada. Amélia estava na sua poltrona, radiante. Realmente radiante. Não a via sorrir assim há meses.
“Este é o Miguel,” disse orgulhosa. “É o meu novo ajudante. Despedi a agência ontem.” Miguel pousou as compras e começou a guardá-las. Sabia exatamente onde tudo ficava.
“A Dona Amélia gosta das bolachas na segunda prateleira,” explicou. “E os saquinhos de chá na lata ao lado do fogão.”
Olhei para Amélia. “Despediste a agência? A tua família sabe?” O sorriso dela desvaneceu um pouco. “A minha família não precisa saber tudo o que eu faço. Ainda não morri, apesar dos melhores esforços deles para planejar o meu funeral.”
Miguel terminou de arrumar as compras e sentou-se no sofá. Aquele homem enorme e intimidador sentou-se com uma delicadeza tocante. “Dona Amélia, está na hora dos remédios do meio-dia. Quer que eu os traga?”
“Por favor, querido.” Ele foi à cozinha. Voltou com um organizador de comprimidos e um copo de água. Entregou-lhos com uma gentileza que me comoveu. Ela tomou os remédios e acariciou-lhe a mão. “Obrigada, meu bem.”
Eu precisava saber. “Como é que se conheceram?” Os olhos de Amélia brilharam. “Ele tentou roubar-me a carteira.” Fiquei boquiaberta. Miguel riu. “Não foi bem assim, Dona Amélia.”
“Foi perto o suficiente,” ela respondeu. “Conta-lhe a história.” E então Miguel contou. Há três semanas, andava de mota pelo nosso bairro. Viu Amélia sentada no banco em frente ao prédio. Ela conseguira descer sozinha, mas não tinha forças para voltar. O elevador estava avariado.
“Ela estava ali, sozinha,” disse Miguel. “Com quinze graus. Sem casaco. Parei e perguntei se precisava de ajuda. Ela disse que sim, mas que não tinha dinheiro para me pagar.” Sorriu. “Então carreguei-a por quatro andares de escadas.”
Amélia interrompeu. “E quando chegámos ao meu apartamento, tentei dar-lhe a minha carteira. Pensei que era o que ele queria. O homem que me carregou pelas escadas. Assumi que o fazia por dinheiro.” A voz dela baixou. “É o que aprendi. Todos querem alguma coisa.”
Miguel continuou. “Disse-lhe que não queria dinheiro. Ela perguntou por que a ajudei, então. Respondi que era porque ela precisava e eu estava lá.” Fez uma pausa. “Ela começou a chorar. Disse que ninguém lhe fazia um favor sem esperar pagamento ou reconhecimento há dez anos.”
“Convidei-o para tomar chá,” disse Amélia. “E ele aceitou. Ficou duas horas. Falamos de tudo. Do seu clube de motociclistas. Do trabalho como carpinteiro. Da filha dele. Do meu marido. Da minha vida. Conversa de verdade. A que eu não tinha desde que o Álvaro morreu.”
“Quando saí, ela perguntou se eu voltaria,” disse Miguel. “E voltei. No dia seguinte. E no outro. Passada uma semana, ela despediu a enfermeira e perguntou se eu podia ajudá-la.”
Fiquei impressionada. “Mas a agência, são profissionais. Têm formação.” A expressão de Amélia endureceu. “São estranhos que entram na minha casa, tratam-me como uma tarefa na lista deles e vão-se embora. O Miguel trata-me como uma pessoa.”
“Não faço isto por dinheiro,” acrescentou Miguel rapidamente. “A Dona Amélia insiste em pagar-me, mas não é por isso que venho. Venho porque ela me lembra a minha avó. Morreu sozinha num lar enquanto eu estava em missão no Kosovo. Nunca pude dizer adeus.” A voz falhou-lhe. “Jurei nunca mais deixar uma avó sozinha, se pudesse evitá-lo.”
Nas semanas seguintes, vi a rotina deles florescer. Miguel chegava todas as manhãs às nove. Ajudava Amélia a tomar banho e vestir-se. Preparava-lhe o pequeno-almoço. Passavam horas a conversar. Sobre a vida. Sobre a perda. Sobre tudo e nada.
Levava-a a passear quando o tempo permitia. Literalmente levava-a. Colocava-a numa cadeira de rodas que comprou com o próprio dinheiro e empurrava-a pelo bairro. Ao jardim. À biblioteca. Ao café onde ela e Álvaro costumavam ir.
As pessoas olhavam. Aquele motociclista enorme e tatuado a empurrar uma idosa frágil. Alguns pareciam assustados. Outros, repugnados. Amélia adorava. “Deixa-os olhar,” dizia. “Tenho o cuidador mais interessante da cidade.”
Miguel começou a levá-la a eventos do clube de motociclistas. Não a passeios, claro, mas a encontros. Churrascos. Eventos de caridade. Amélia tornou-se a avó do clube. Trinta motociclistas a chamarem-lhe Dona Amélia e a competirem para lhe trazer as melhores sobremesas.
Ela confessou-me uma vez, com lágrimas nos olhos: “Não me sentia tão viva há vinte anos.”
Depois, os filhos descobriram. A filha, Catarina, ligou-me. Exigiu saber o que se passava. Por que um “criminoso”E, no fim, quando Amélia fechou os olhos pela última vez, foi com a mão de Miguel segurando a sua, rodeada por aqueles que a tinham escolhido como família, enquanto os filhos, que nunca entenderam, receberam apenas o silêncio de uma herança vazia.





