Humilharam Minha Enteada por Likes e Não Sabiam Com Quem Estavam Metendo — Até Eu Intervir6 min de lectura

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**Capítulo 1: O Óleo e o Toque**

O elevador hidráulico rang quando baixei o Mustang ’67 de volta ao chão de cimento. A oficina cheirava como eu gostava—a mistura de café velho, borracha queimada e desengraxante. Era o cheiro do trabalho honesto. Minhas mãos estavam cobertas de graxa preta, a sujeira tão entranhada nos meus nós que uma escova não a tiraria em dias. Não me importava. Mantinha as pessoas longe, e isso me servia bem.

Sou o Ricardo. A maioria aqui nesta cidade esquecida do Alentejo chama-me de “Ceifador” ou “Sargento”. Sou o Sargento-de-Armas do Capítulo local dos Lobos de Ferro, o clube de motociclistas onde cavalgo. É um título com peso. Significa que sou o homem que mantém a ordem. O homem que resolve os problemas que as palavras não conseguem. Tenho um rosto que parece um mapa de estradas—cicatrizes, rugas do sol e uma barba que esconde um maxilar quebrado duas vezes.

O telemóvel vibrou na bancada de metal, batendo numa chave inglesa, criando um som metálico que cortou o rock clássico a tocar no rádio.

Ignorei. Normalmente, era só o presidente do clube ou um fornecedor de peças. Nada que não pudesse esperar até limpar as mãos.

Depois, o toque começou.

Não era o toque padrão. Era “Sweet Child O’ Mine”. Aquele riff de guitarra.

Congelei. O coração martelou contra as costelas. Só tinha esse toque para uma pessoa.

A Leonor.

Leonor é a filha da minha mulher. Minha enteada. Casei com a Joana há três anos, e a Leonor veio no pacote. Um pacote que eu queria proteger, mas que parecia determinado a não se abrir. Agora tinha dezasseis anos. Frágil. Artista. Pintava aguarelas de árvores tristes e ouvia música que parecia sussurros de fantasmas.

Tinha medo de mim.

Tentei. Deus sabe que tentei. Comprei-lhe materiais de arte caros. Arranjei-lhe o velho Renault Clio para que funcionasse como novo. Afastava-me quando os meus irmãos do clube vinham a casa. Mas para ela, eu era apenas o motard assustador que substituíra o pai. O pai dela era um contabilista que fugiu para o Algarve com a dentista. Ele era seguro. Eu era perigoso.

Nunca me ligava. Troçávamos mensagens duas vezes por ano, coisas como “A mãe está a trabalhar até tarde” ou “Precisamos de leite”.

Por isso, ouvir Slash a ecoar na oficina foi como uma sirene.

Agarrei no telemóvel, manchando o ecrã de graxa. O polegar escorregou duas vezes antes de atender.

“Leonor?” gritei, mais alto do que pretendia.

Silêncio.

“Leonor? Estás aí?”

Então ouvi. Um som que faz qualquer pai—biológico ou não—sentir um frio na espinha.

Estava a hiperventilar. Aquele gemido rouco de quem tenta não chorar enquanto o mundo desaba.

“Ricardo…” A voz dela era tão pequena. Parecia estar escondida dentro de uma caixa. “Ricardo… estás aí?”

“Estou, miúda. O que se passa? Magoaram-te?”

Já me mexia. Limpei as mãos nas calças, estragando-as, mas não importava. Sinalizei ao Miguel, o mecânico novato, apontando para o Mustang e fazendo um gesto de cortar. Acabei. Continua tu.

“Não… não posso ligar à mãe,” soluçou. “Ela está numa reunião… não atende.”

“Esquece a mãe. Tens-me a mim. Fala.”

“Estou na escola,” sussurrou. O ruído de fundo era estranho. Não era o barulho da cantina. Era silêncio, mas com um murmúrio baixo e ameaçador, risadas reprimidas. “Sala 204. Aula de História do Sr. Mendes.”

“Certo, sala 204. O que se passa, Leonor?”

“Roubaram-me a mochila,” chorou baixinho. “O Guilherme e os amigos. Atiraram o meu caderno de esboços para o lixo… e depois…”

Parou. Ouvi um ruído, como se se mexesse.

“Depois o quê, Leonor?”

“Fizeram-me ajoelhar, Ricardo. No fundo da sala. O professor… o Sr. Mendes saiu para fotocópias. Trancaram a porta. Tenho de ficar de joelhos… e estão a filmar. Ao vivo. No Instagram.”

A visão turvou-se. Um tom vermelho, como um filme antigo, cobriu a oficina. O sangue parecia gasolina, e alguém atirara um fósforo.

“Disseram que se me levantasse… publicam os desenhos do caderno. Os privados. Os sobre… sobre o pai a ir-se embora.”

“Não desligues,” rosnou.

“Não posso… estão a voltar… Ricardo, tenho medo.”

“Estou a caminho. Não te mexes. Não deixes que te toquem. Estou a chegar.”

A chamada caiu.

**Capítulo 2: A Viagem e o Arrependimento**

Não caminhei até à mota. Marchei.

O Miguel gritou qualquer coisa quando passei por ele, perguntando para onde ia ou quando voltava. Não ouvi. O único som que existia era a voz da Leonor a dizer: “Tenho medo.”

A minha mota estava estacionada à frente. Uma Harley-Davidson Fat Boy personalizada. Preta fosca. Guidão alto. Um motor que eu mesmo ajustei para ter força suficiente para arrancar uma árvore. Era uma fera. Uma arma.

Montei. Não fiz a verificação de segurança. Liguei o motor, e os 114 centímetros cúbicos rugiram à vida. Não ronronou—rosnou. Um som profundo que fazia tremer o alcatrão.

Engrenei a primeira e arranquei, o pneu traseiro a fumegar quando atingi a estrada principal.

A Escola Secundária de Montemor ficava do outro lado da cidade. No trânsito normal, respeitando os limites, eram vinte minutos.

Hoje, não planeava respeitar nada.

Cortei o trânsito como um míssil. Sinal vermelho? Não vi. Stop? Opcional. Dividi a faixa entre um camião e um monovolume, os retrovisores a centímetros do guidão. O vento chicoteou o rosto—não tinha apertado o capacete, e a correia bateu-me no queixo, mas a dor mantinha-me presente.

Enquanto o mundo passava a borrão, a mente recapitulou os últimos três anos.

Lembrei-me da primeira vez que vi a Leonor. A Joana apresentou-nos num café. Ela tinha treze anos. Olhou para as minhas tatuagens—a caveira no braço, o ceifador no pescoço—e encolheu-se na cadeira. Não tocou nas batatas.

Lembrei-me das noites em que a ouvia chorar no quarto, com saudades do pai. Queria entrar, dizer-lhe que o pai era um tolo por a ter deixado, que eu não ia a lado nenhum. Mas nunca o fiz. Ficava no corredor, um fantasma silencioso, porque sabia que a minha presença só pioraria as coisas.

Ela achava-me um bruto. Um criminoso.

E talvez fosse. Magoei pessoas. Cobrei dívidas pelo clube. Participei em brigas que deixaram o chão escorregadio de sangue. Era a vida que escolhi.

Mas mantive essa vida longe dela. Quando entrava em casa, tirava o colete. As botas ficavam à porta. Era só o Ricardo. Consertava a torradeira. Cortava a relva. Tentava ser… normal.

Mas hoje? Hoje, normal não chegavaE, enquanto atravessávamos a estrada poeirenta debaixo do sol quente do Alentejo, o rugido da mota misturando-se com o riso dela, percebi que finalmente—finalmente—tinha encontrado o meu lugar.

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