A noite mais fria do ano desceu sobre Lisboa como um julgamento final.
O vento cortava as ruas estreitas, batia contra as paredes de pedra e uivava entre os edifícios, como se a cidade estivesse ferida. Era dia 14 de fevereiro. Nas montras do centro, ainda brilhavam corações vermelhos e luzes douradas, prometendo amor, calor e jantares românticos à luz das velas.
Mas para João Almeida — doze anos, magro demais, os dedos gretados e a sangrar — não havia Dia dos Namorados.
Havia apenas o frio.
Apenas fome.
Apenas a mesma pergunta que o atormentava todas as noites:
Onde me escondo para não morrer hoje?
Apertou o casaco azul desbotado contra o peito. Nem sequer era um bom casaco. O fecho estava partido, as mangas eram curtas e cheirava a rua. Mas era a última coisa que a mãe lhe tinha comprado.
Isabel Almeida lutara contra o cancro durante dois longos anos. Mesmo quando o corpo já não a obedecia, ainda segurou a mão do filho.
“A vida vai tirar-te coisas, João,” sussurrou da cama do hospital, a voz a fraquejar. “Mas não deixes que te roube o coração. A bondade é a única coisa que ninguém pode roubar.”
Aos doze anos, João não compreendia bem a morte.
Mas sabia como agarrar-se a palavras quando tudo o resto lhe escapava.
Depois do funeral, o sistema colocou-o numa família de acolhimento. Os Cardosos sorriam quando os assistentes sociais apareciam — e tornavam-se frios assim que a porta fechava. Não queriam uma criança. Queriam o cheque do governo.
João aprendeu a comer as sobras depois de todos terminarem.
Aprendeu a ficar em silêncio.
Aprendeu o que um cinto significava por “mau comportamento”.
Aprendeu como uma cave podia ser húmida e escura quando alguém trancava a porta.
Uma noite, com as costas a arder e o orgulho em pedaços, João decidiu que as ruas eram mais seguras do que aquela casa.
Nas ruas, aprendeu lições que a escola nunca ensinaria:
Quais os restaurantes que deitavam fora pão ainda macio.
Quais as estações de metro que ficavam quentes por mais uma hora.
Como desaparecer quando a polícia passava.
Como dormir com um olho aberto.
Mas aquela noite era diferente.
O dia inteiro, os alertas meteorológicos repetiam o mesmo aviso:
Doze graus abaixo de zero. Sensação térmica perto de menos vinte.
Os abrigos estavam cheios. As calçadas, vazias. Lisboa recolhera-se em casa, como se o frio fosse um inimigo vivo.
João caminhava com um cobertor velho debaixo do braço. Estava húmido e cheirava a mofo, mas era melhor que nada. Os dedos mal se mexiam. As pernas pesadas, dormentes.
Precisava de abrigo.
Precisava de calor.
Precisava de sobreviver.
Foi então que virou para uma rua que normalmente evitava.
Tudo mudou num instante.
Mansões enormes. Grades de ferro. Câmaras de segurança. Jardins perfeitos, mesmo no inverno. Avenida da Liberdade — onde as pessoas nunca contavam trocos antes de comprar um café.
João soube logo que não pertencia ali. Um miúdo sem-abrigo perto daquelas casas era problema. Polícia. Seguranças. Acusações.
Baixou a cabeça e apressou o passo —
Até que a ouviu.
Não um grito.
Não uma birra.
Um choro baixo, partido — frágil, quase engolido pelo vento.
João parou.
Seguiu o som e viu-a atrás de uma grade preta com quase três metros de altura.
Uma menina estava sentada nos degraus da frente de uma mansão enorme.
Vestia um pijama cor-de-rosa com uma princesa de desenho animado. Descalça. O cabelo comprido estava coberto de neve. O corpo tremia tanto que os dentes batiam.
Todos os instintos gritavam para ele se afastar.
Não é problema teu.
Não te metas.
É assim que vais parar à esquadra.
Mas então a menina ergueu a cabeça.
As bochechas estavam vermelhas. Os lábios, azuis. Lágrimas congeladas marcavam o rosto. E nos olhos —
João reconheceu aquele olhar.
Vira-o nas ruas. Em adultos que já não pediam ajuda.
O olhar de quem estava a desistir.
“Olá… estás bem?” perguntou João, aproximando-se da grade.
A menina assustou-se.
“Quem és tu?”
“Chamo-me João. Porque estás cá fora? Onde está a tua mãe?”
Ela engoliu em seco, a voz quase impercetível.
“Sou a Leonor… Leonor Monteiro. Só queria ver a neve. A porta fechou-se atrás de mim. Não sei o código.”
Fungou.
“O meu pai está numa viagem de negócios. Só volta de manhã.”
João observou a mansão.
Todas as janelas estavam escuras. Sem luzes. Sem movimento.
Olhou para o relógio partido — algo que encontrara no lixo e que, por milagre, ainda funcionava.
22h30.
O amanhecer estava longe.
E a Leonor não tinha horas.
João podia ir-se embora. Podia correr para o metro, enrolar-se no cobertor e proteger a única coisa que lhe restava — a vida. Ninguém o culparia. Ninguém saberia.
Mas as palavras da mãe bateram-lhe no peito:
Não deixes que o mundo te roube o coração.
Apoiou as mãos na grade gelada.
“Aguenta, Leonor,” disse, a voz a tremer. “Vou aí.”
A grade era alta e terminava em pontas afiadas. João não era forte, mas a fome deixara-o leve. As ruas ensinaram-no a escalar.
O metal cortou-lhe os dedos. Escorregou. Arranhou os joelhos. Sentiu sangue quente misturar-se com o frio. Continuou.
No topo, equilibrou-se com cuidado e saltou para o outro lado, aterrando com um baque e quase torcendo o tornozelo.
Não lhe importou.
Correu até à Leonor.
De perto, ela parecia pior. Já não tremia tanto — e João sabia que isso era perigoso.
Sem pensar, tirou o casaco azul. O frio espetou-o como facas, mas envolveu-a com ele.
“Mas vais ficar com frio,” sussurrou ela.
“Estou habituado,” disse, com os dentes cerrados. “Tu não.”
Envolveu-a também no cobertor, levou-a para um canto da varanda onde a parede abrigava do vento e sentou-se com as costas contra o tijolo. Puxou-a para o colo, pressionando-a contra o peito para partilhar o pouco calor que lhe restava.
“Ouve-me, Leonor,” disse, os dentes a bater. “Não podes adormecer. Se adormeceres, não vais acordar. Tens de falar comigo, está bem?”
Ela anuiu, débil.
“Estou cansada…”
“Eu sei. Mas luta. Diz-me… qual é a tua coisa favorita?”
“A Disney,” sussurrou. “Fomos uma vez… os foguetes.”
João manteve-a a falar. Cores. Personagens. Músicas. Cada pergunta era uma âncora.
“Qual é a tua cor preferida?”
“Roxo… porque a minha mãe adorava.”
Os olhos arderam-lhe.
“A minha mãe também morreu,” disse baixinho. “Cancro.”
Leonor olhou para ele, estudando-lhe o rosto.”Mais agora temos uma família,” murmurou João, olhando para o pai e para a irmã ao seu lado, sentindo pela primeira vez que o inverno já não lhe doía.





