**Diário Pessoal**
O pálido lustre de cristal lançava sombras dançantes sobre o chão de mármore do Restaurante Ouro e Mar. Enquanto Leonor Veloso ajustava o uniforme preto pelo terceiro turno, as mãos tremiam ligeiramente—não pelo nervosismo de servir a elite de Lisboa, mas pelo peso familiar de esconder quem realmente era. Aos 24 anos, aperfeiçoara a arte da invisibilidade, movendo-se pelo restaurante como um fantasma com sorriso.
Lá fora, a Avenida da Liberdade pulsava com táxis amarelos e o vento fresco do outono; dentro, o maitre de fraque organizava a disposição das mesas como só veteranos da Baixa sabem fazer. As etiquetas do guarda-roupas tilintavam, o primeiro serviço começava pontualmente às 19h30, e além das portas da cozinha, uma rádio sussurrava sobre o Benfica na época baixa. O vapor subia das grelhas das ruas, uma sirene dos bombeiros desaparecia na Rua Garrett, e o som do passe do Metro ainda ecoava nos ouvidos de Leonor, vindo da linha verde.
“A mesa 7 precisa de mais vinho,” disse Maria, a chefe de mesa, sem levantar os olhos da caderneta. “E tenta não derramar nada no Sr. Albuquerque desta vez. Ele já reclamou duas vezes da temperatura.”
Leonor anuiu, pegando a garrafa de vinho do Douro que custava mais que seu salário mensal. Guilherme Albuquerque. Até o nome soava a dinheiro—dinheiro antigo, novo dinheiro, o tipo que fazia as pessoas baixarem a cabeça. Servia sua mesa há três meses, e ele nunca a olhara como mais que um móvel.
A sala de jantar murmurava com conversas de quem nunca se preocupara com rendas, contas médicas ou se sobraria dinheiro para os livros dos filhos depois do supermercado. Leonor conhecia aquele mundo intimamente. Vivera nele, em outra vida.
“Com licença, menina.” A voz era cortante, com uma ponta de impaciência que a fez endireitar a postura. Virou-se e encontrou Guilherme mais perto do que esperava, os olhos cinza fixos nela com uma intensidade que lhe fez o estômago embrulhar. Alto, ela precisou levantar o queixo para encará-lo. Cabelo escuro, cortado por alguém que cobrava mais por hora do que ela ganhava em uma semana. O traje era impecável, provavelmente italiano, certamente caro.
“O seu vinho, senhor,” disse Leonor, erguendo levemente a garrafa.
“Não para mim.” Guilherme apontou para a mulher elegante atrás dele. “Minha mãe. Tenta chamar sua atenção há dez minutos.”
O olhar de Leonor caiu sobre a senhora, e o coração apertou. Dona Margarida devia ter uns sessenta anos, cabelos prateados presos num coque clássico, olhos bondosos que guardavam histórias. Fazia gestos sutis, sorrindo com esperança.
Sem pensar, Leonor deixou a garrafa na mesa mais próxima e aproximou-se. *Boa noite*, sinalizou, as mãos movendo-se com graça. *Como posso ajudá-la?*
O rosto da mulher iluminou-se, as mãos dançando em resposta. *Que maravilha! Queria elogiar o bacalhau ao chef. Lembra-me de um prato que comi em Paris.*
*Vou transmitir suas palavras*, respondeu Leonor, sorrindo de verdade pela primeira vez na noite. *Quer que pergunte sobre a receita? Acredito que use uma mistura especial de ervas.*
Atrás dela, percebeu que o restaurante ficara mais silencioso, mas concentrava-se em Dona Margarida, que sinalizava animada sobre suas viagens.
*É muito gentil*, sinalizou a senhora. *A maioria só sorri quando percebe que sou surda. Sinaliza tão bem. Onde aprendeu?*
*Estudei linguística na faculdade*, respondeu Leonor automaticamente—e então congelou ao perceber o que revelara.
“Linguística?” A voz de Guilherme cortou o momento como uma faca. Ele fitava-a com uma expressão indecifrável. “Em que universidade?”
O pânico subiu-lhe ao peito. Fora tão cuidadosa, e agora um momento de conexão humana rachara sua fachada. “Foram só algumas aulas, senhor. Nada importante.”
“Nada importante?” Ele aproximou-se, a voz baixa e perigosa. “Sinaliza fluentemente. Mencionou linguística—e aposto que não é a única língua que sabe. O mais que esconde?”
A pergunta pairou no ar como um desafio. Leonor sentia os olhos dos outros clientes, Maria observando nervosa, calculando os problemas.
“Preciso voltar ao trabalho,” murmurou, alcançando a garrafa.
“Espere.” Guilherme segurou-lhe o pulso—não com força, mas firme. O contacto fez-lhe um choque inesperado, e algo brilhou nos olhos dele, como se também o sentisse. “Desculpe. Fui duro desnecessariamente.”
Leonor olhou para a mão dele no seu pulso—o relógio caro, as unhas cuidadas, a ausência de calos. Quando levantou os olhos, a expressão dele era quase vulnerável.
“Sua mãe é encantadora,” disse baixinho. “Falava-me de sua viagem a Paris.”
“Ela gosta de si.” Ele soltou-lhe o pulso, mas não recuou.
“Ela não gosta de muita gente. Talvez porque poucos a ouvem de verdade.” As palavras saíram sem filtro, carregando um tom mais forte do que pretendia.
Guilherme ergueu as sobrancelhas, quase sorrindo. “E acha que eu não ouço?”
“Acho que está acostumado a ouvir o que quer.”
Desta vez, o sorriso foi real, transformando-lhe o rosto. “Tem razão. Mas não respondeu sobre a universidade.”
Leonor sentiu-se encurralada entre a verdade que destruiria sua vida reconstruída e a curiosidade nos olhos dele. Dona Margarida observava com interesse, o sorriso sugerindo que entendia mais do que eles percebiam.
“Universidade de Lisboa,” confessou, como se revelasse um segredo.
A expressão dele mudou—surpresa, confusão, algo parecido com respeito. “Tem um excelente curso de linguística. Por que mudou?”
A pergunta inocente atingiu-a como um golpe. Como explicar que não decidira nada? Que sua carreira, sua vida, seu futuro fora roubado por quem mais confiara. Que servia mesas não por escolha, mas porque era o único emprego que conseguira depois de ter sua reputação destruída.
“Às vezes a vida não segue o plano,” disse, orgulhosa pela voz firme.
“Não,” ele concordou, os olhos cinza a estudá-la. “Supondo que não.”
Dona Margarida gesticulou, quebrando a tensão. “Vocês deviam conversar mais,” sinalizou, sorridente. “Meu filho trabalha demais e não conhece gente interessante.”
“O que ela disse?” Guilherme perguntou, desconfiado.
Leonor corou. “Disse que trabalha muito.”
“Não foi só isso.”
“E que devia comer mais legumes.”
Guilherme riu—um som genuíno que fez outros clientes virarem-se. “Minha mãe não falou de legumes.”
“Como sabe? Não sinaliza.”
“Não, mas conheço o humor dela. E pelo seu rubor, disse algo para nos envergonhar.”
Leonor abriu a boca para negar, mas percebeu que não adiantava. “Ela acha que devia conhecer gente interessante.”
“Ah, é?” Ele olhou para a mãe, que fingia inocência. “E o que acha? Estou conhecendo gente interessante?”
A pergunta carregava um peso que Leonor não queria explorar. PE, sob o luar de Lisboa, enquanto as luzes do Tejo cintilavam como promessas, Leonor percebeu que, pela primeira vez em anos, o futuro não parecia um lugar para onde fugir, mas um porto para finalmente chegar.





