“Consegues imaginar estas palavras?”
Foram as últimas sílabas que o meu pai desperdiçou antes de me empurrar para os dentes de uma ventania de outubro e trancar a porta.
“Vai-te embora da minha casa. Não preciso de uma filha doente.”
Tinha quinze anos. Não tinha casaco, telemóvel, nem dinheiro. Apenas uma mochila da Salsa com uma folha de matemática pela metade e o papel de uma barra de cereais. A chuva já encharcava os meus ténis da Kappa, transformando os dedos em blocos de gelo.
Três horas depois, a polícia ligou-lhe. Quando ouviu o que a Agente Sofia Martins tinha para dizer, o sangue desapareceu-lhe do rosto, deixando-o cor de pergaminho velho. Mas, para então, o mal já estava gravado na nossa história. Era tarde demais para arrependimentos.
Chamo-me Leonor Matias. Tenho agora vinte e oito anos, sentada num apartamento em Lisboa, a observar uma tempestade a bater contra o vidro duplo da janela. Há uma carta em cima da bancada da cozinha. A letra é trémula, como teias de aranha num papel barato de lar de idosos.
Após treze anos de silêncio, o meu pai quer ver-me. Diz que está a morrer. Diz que sente muito.
O curioso da chuva é que funciona como uma máquina do tempo. O cheiro do asfalto molhado e do ozono arrasta-me sempre para aquela noite: 14 de outubro de 2011.
Lembro-me de chegar a casa da escola naquela terça-feira com um passo leve que hoje me parece estranho. Tinha tirado a melhor nota no teste de matemática. A minha cabeça estava cheia de trivialidades da adolescência—o jantar, os trabalhos de casa, o poster de uma banda antiga que queria comprar com a minha mesada. Não fazia ideia de que, em menos de uma hora, estaria a lutar pela vida na berma de uma estrada.
Assim que entrei, o ar em casa parecia pesado, como a cabine de um avião prestes a cair.
O meu pai estava no meio da sala. Parecia um vulcão prestes a entrar em erupção—trémulo, silencioso, perigoso. O rosto estava vermelho como carne crua. As mãos tremiam; numa, segurava um maço de notas, na outra, dois frascos vazios de comprimidos.
A minha irmã, Margarida, estava atrás dele. Tinha dezanove anos, quatro a mais do que eu, e exibia uma expressão de tristeza perfeitamente ensaiada. A testa franzida, os lábios entreabertos—o retrato da irmã mais velha dedicada que acabara de descobrir algo terrível sobre a irmã mais nova.
Mas eu vi-lhe os olhos. Apanhei o micro-expression que não conseguiu esconder. Um lampejo de pura satisfação.
A minha madrasta, Cláudia, observava à porta da cozinha, os braços cruzados, os lábios apertados. Era o seu especialidade: assistir a atrocidades e não dizer nada.
O meu pai nem me deixou largar a mochila. Começou a gritar antes de a porta fechar.
“Estás a roubar-me há meses!”
Atirou-me o dinheiro aos pés. “A comprar comprimidos? A escondê-los no quarto como uma viciada?”
“Pai, eu não—”
“A Margarida encontrou as provas, Leonor! Dinheiro na tua gaveta. Frascos no armário. Mensagens num telemóvel descartável a falar com traficantes!”
Tentei explicar. Disse-lhe que nunca lhe toquei na carteira, nunca vi os comprimidos, nem sabia o que era um telemóvel descartável. Mas as palavras morreram na minha garganta quando percebi algo horrível:
Ele não queria ouvir. Não queria a verdade—queria um alvo.
A Margarida passou o dia a prepará-lo, alimentando-o com mentiras como veneno envolto em açúcar. Ficou ali, a fingir-se devastada, dizendo que “tentou ajudar-me”, que “não aguentava ver a irmã mais nova a destruir-se”.
Foi uma atuação digna de um Óscar. E o meu pai engoliu cada palavra como se fosse o evangelho.
Agarrou-me o braço—com força suficiente para deixar nódoas negras que mais tarde seriam fotografadas pela polícia—e arrastou-me para a porta. A minha mochila estava no chão. Ele apanhou-a e atirou-ma ao peito.
Depois, abriu a porta.
A temperatura tinha caído quinze graus desde a manhã. A chuva caía em lençóis, cortante. Trovejava ao longe como tiros de artilharia.
O meu pai olhou-me nos olhos. Não havia amor ali. Só nojo.
“Vai-te embora da minha casa. Não preciso de uma filha doente.”
Empurrou-me para o alpendre. A porta bateu. O trinco fechou-se.
E, assim, fiquei sem casa.
Fiquei ali parada, gelada, não pelo frio—embora esse também chegasse—mas pelo choque da violência. Olhei para a porta, à espera que se abrisse. À espera que alguém dissesse que era um mal-entendido. À espera que o meu pai se lembrasse que me amava.
Ninguém veio. A luz do alpendre apagou-se.
O meu telemóvel estava na secretária. Não me deixaram levar nada. A mochila tinha livros, uma calculadora, e o resto de uma barra de cereais. Nada útil para sobreviver uma noite na rua.
Era 2011. Ainda existiam cabines telefónicas, mas quem é que tinha moedas? Certamente não uma miúda de quinze anos que gastava o dinheiro em posters. Boa aluna, nula em sobrevivência.
Então, comecei a andar.
Não decidi conscientemente para onde ir. O meu corpo moveu-se sozinho em direção ao único porto seguro que conhecia: a casa da minha avó, a Dona Isaura.
Ficava a onze quilómetros de distância.
Onze quilómetros são nada de carro—quinze minutos com a rádio ligada. Mas andar onze quilómetros sob chuva gelada, sem casaco e com ténis encharcados? Podiam ser mil.
A estrada nacional estendia-se à minha frente, escura e escorregadia como o dorso de um monstro. Os carros passavam, cegando-me com os faróis, atirando-me lama gelada para as calças. Eu era apenas uma sombra na berma, uma figura que ninguém queria ver de perto.
Após o primeiro quilómetro, a roupa colava-se à pele. As calças pesavam como chumbo.
Após o terceiro, já não sentia os dedos. Enfiei-os nas axilas, mas os tremores já tinham começado—violentApós anos de dor, encontrei a paz no abraço da minha avó e na certeza de que, por mais forte que seja a tempestade, o sol sempre acaba por brilhar.





