**Diário de um Homem**
Há muito tempo, Inês Monteiro aprendera a mover-se pela casa sem deixar rastos. Os seus passos eram leves, a voz baixa, a presença quase invisível—a menos que se precisasse de algo feito. E então, já estava feito antes mesmo de se pedir.
Há quase oito anos que trabalhava para a família Sousa, um daqueles nomes de dinheiro antigo que carregavam peso em salas discretas e influência atrás de portas fechadas. A sua mansão ficava numa colina fora da cidade, cheia de portões de ferro, sebes aparadas e um silêncio polido. O poder vivia ali, não de forma barulhenta, mas firme—como algo esculpido em pedra.
João Sousa era o dono da casa. Alto, reservado, sempre impecavelmente vestido. Falava com educação, raramente levantava a voz e parecia eternamente cansado, como se a vida fosse algo que suportava, não vivia. Desde a morte da sua mulher, três anos antes, um silêncio pairara sobre ele, um que nenhuma fortuna ou rotina conseguia dissipar.
E depois havia Margarida Sousa.
A mãe de João.
Ela governava a casa como alguns governam países—com precisão, autoridade e a certeza absoluta de que a sua maneira era a única correta. A postura sempre direita, as palavras afiadas, o olhar calculista. Margarida acreditava profundamente na hierarquia. Na ordem. Em saber o seu lugar.
Inês sempre soubera o seu.
Ou pelo menos achava que sabia.
Depois que a mulher de João morreu, algo mudou dentro daquela casa. A dor escavara-a, deixando espaços que ninguém sabia como preencher. A equipa de serviço cumpria os seus deveres com cuidado, como se o barulho pudesse partir o que restava. João refugiara-se ainda mais no trabalho. Margarida apertara o seu controlo sobre tudo.
E o Diogo—pequeno Diogo—ficara à deriva.
Tinha apenas quatro anos quando a mãe morreu. Jovem demais para entender a morte, mas bastante velho para sentir a sua ausência. Parou de dormir a noite toda. Parou de rir como antes. Começou a agarrar-se a qualquer um que estivesse por perto.
Inês ficou.
Acompanhava-o nas tempestades, cantava baixinho quando os pesadelos o acordavam, ajudava-o com os trabalhos da escola, curava os joelhos esfolados, lembrava-se de como ele gostava que a torrada fosse cortada em triângulos. Nunca tentou substituir ninguém. Nunca cruzou a linha. Apenas cuidou.
E o Diogo percebeu.
Seguia-a pelos corredores, puxava o seu avental, esperava por ela à cozinha com desenhos para mostrar. Quando ria, o som era mais livre perto dela. Quando chorava, pedia-a pelo nome.
João viu isso.
Não comentou. Mas, por vezes, parava na porta e observava Inês ajoelhada ao lado do seu filho, a escutá-lo como se nada mais no mundo importasse.
Havia respeito nos olhos de João então. Gratidão. Talvez até alívio.
Margarida também viu.
E odiou.
Nunca confrontou Inês diretamente—pelo menos, não no início. Margarida era demasiado controlada para isso. Em vez disso, observava. Media. Notava cada sorriso partilhado, cada momento de proximidade. Na sua mente, Inês atravessava uma fronteira invisível: uma criada a entrar num espaço que não lhe pertencia.
Afeição não tinha lugar na casa dos Sousa, a menos que Margarida a permitisse.
O ponto de rutura chegou numa tarde calma.
O tesouro de família—um broche de safira passado por gerações—desapareceu do quarto de Margarida. Estava guardado numa caixa forrada a veludo dentro do seu armário de joias, raramente usado, mas inestimável em valor e orgulho.
Margarida percebeu em minutos.
A casa foi revirada de pernas para o ar. GE, no final, foi o amor sincero de Diogo que trouxe a verdade à luz, provando que até os mais poderosos podem cair quando a justiça e o coração de uma criança se unem.





