Ele se disfarçou e ficou chocado ao ver a empregada proteger seu filho da nova esposa; o que fez depois mudou tudo.5 min de lectura

Compartir:

O céu de Lisboa naquela manhã tinha uma melancolia azul desbotada, como se a cidade soubesse que algo na vida de Ricardo Mendes se havia quebrado para sempre.

Fazia apenas três meses desde que o milionário, fundador de uma das maiores empresas tecnológicas do país, se mudara para a sua nova mansão em Cascais com a sua recém-casada esposa, Joana Neves, após um divórcio longo, público e doloroso. A imprensa cobrira tudo: as disputas judiciais, as fotos roubadas, as teorias sobre infidelidades. Quando enfim se anunciou que Ricardo tinha uma nova esposa, a narrativa mudou: *O magnata volta a encontrar o amor.*

Por fora, Joana era perfeita.

Sorriso impecável, roupas elegantes sem ostentação vulgar, presença encantadora em eventos beneficentes, palavras doces sempre que uma câmara se aproximava dela e das crianças: Maria, de seis anos, sempre com as tranças bem feitas, e Tiago, de dois, agarrado ao seu ursinho de pelúcia.

*—São a minha prioridade —* dissera Joana numa entrevista à porta da mansão, abraçando Maria enquanto Tiago escondia o rosto no seu pescoço. *— Amo-os como se fossem meus.*

A cidade aplaudiu.

Ricardo quis acreditar.

Precisava de acreditar.

Depois de um casamento que se tornara uma guerra fria, a ideia de uma mulher que trouxesse estabilidade e calor à sua casa era um alívio. Joana aparecera num congresso internacional sobre inovação e responsabilidade social, brilhante, articulada, com opiniões firmes sobre educação e família. Ele caiu quase sem perceber.

Mas as fachadas não duram para sempre quando se fecha a porta.

Foi Maria quem deixou cair a primeira fissura.

*—Pai, vais sair outra vez? —* perguntou uma noite, com voz muito baixinha, segurando a ponta do seu casaco.

Ricardo, já com a pasta na mão e o motorista à espera para o levar ao aeroporto, ajoelhou-se diante dela.

*—São só dois dias, florzinha. Tenho reuniões no Norte. A Joana vai ficar com vocês. Vão ficar bem.*

Maria hesitou. Os seus grandes olhos castanhos pareciam procurar algo no rosto do pai. Depois, como se tivesse decidido algo, anuiu, mas não sorriu. Tiago, nos braços de Joana, chupava o dedo, calado.

*—Não sejas dramática, Maria —* interveio Joana com tom suave mas afiado. *— O teu pai trabalha muito por nós todos. Vai acabar os trabalhos de casa.*

Ricardo ignorou o fio cortante na sua voz. Atribuiu-o ao stress. Despediu-se, beijou as crianças, abraçou Joana e partiu.

Os dois dias tornaram-se quatro por atrasos, depois seis. Quando regressou, as crianças estavam estranhamente caladas.

Maria já não correu para os seus brazos como antes.

Tiago já não levantou os braços a pedir colo.

Apenas o olharam, sérios.

*—Estão bem? —* perguntou ele, tentando soar despreocupado.

*—Claro —* respondeu Joana com um sorriso perfeito. *— Estão um pouco sensíveis, mas é normal, ainda estão a adaptar-se.*

Ricardo quis acreditar novamente.

Até começar a reparar nos detalhes.

Maria saltou quando alguém levantou a voz na televisão.

Tiago escondia comida nos guardanapos.

Uma noite, Ricardo encontrou o filho sentado no chão, com o prato quase intacto.

*—Campeão, não tens fome?*

Tiago abanou a cabeça sem o olhar.

*—A Joana diz que já comi —* sussurrou.

Ricardo franziu a testa.

Foi à cozinha. Joana arrumava os frascos como se fossem peças de um puzzle perfeito.

*—O Tiago não quer jantar?*

*—Já comeu —* respondeu ela sem se virar. *— Está a aprender a não desperdiçar. Os teus filhos estavam mal habituados, Ricardo. A tua ex-mulher mimou-os demais.*

A frase trespassou-o. Apertou o mandíbula, mas não respondeu. Em vez disso, ficou acordado até tarde, a rever e-mails, mas com a mente presa nos olhos apagados dos filhos.

Nos dias seguintes, a inquietude cresceu.

Maria andava com cuidado, como se o chão a pudesse trair.

Joana corrigia-lhe cada gesto.

*—Não te encolhas.*

*—Não fales tão alto.*

*—Não mexas nisso, vais partir.*

*—Não chores por tudo, Maria, pareces um bebé.*

Tudo dito com sorriso se Ricardo estivesse por perto.

Com veneno quando ele se virava.

Havia outra presença na casa que Ricardo começou a notar: Sofia.

A jovem empregada doméstica fora contratada pouco depois da mudança. Devia ter vinte e cinco anos, cabelo escuro preso num rabo de cavalo simples, olhar doce, mãos ágeis. Era eficiente, invisível quando devia, mas os seus olhos suavizavam-se quando olhava para as crianças.

Mais de uma vez, Ricardo viu-a oferecer discretamente mais puré a Tiago quando julgava que ninguém olhava. A Maria, um biscoito escondido num guardanapo.

*—Come devagarinho, meu amor —* murmurava. *— Não há problema.*

Joana, quando a apanhava, torcia a boca.

*—Não queremos crianças gordas, Sofia —* dizia com doçura gelada. *— Aqui seguimos dietas equilibradas. Faz só o que te peço.*

Sofia baixava a cabeça, mas algo endurecia na sua expressão quando Joana se afastava.

Ricardo via.

Ricardo começava, pela primeira vez em muito tempo, a duvidar do seu próprio julgamento.

Uma noite, ouviu um choro abafado. Eram quase onze da noite. Joana dormia ao seu lado, imóvel, como uma estátua perfeita.

Ricardo levantou-se sem acender a luz. Seguiu o som até ao corredor. Parou à porta do quarto de Maria.

Abriu devagar.

Ela estava sentada na cama, abraçando os joelhos, com o rosto escondido.

*—Maria —* sussurrou ele. *— Querida, o que se pass—Não é nada — sussurrou ela, esfregando os olhos vermelhos —, a Joana disse que não posso incomodar.

Leave a Comment