**Dia 15 de Maio, 2024**
Achava que sabia o significado da palavra “solidão”.
Até me tornar pai.
E tornar-me pai de uma forma para a qual ninguém está preparado.
Chamo-me Tiago Mendes. Tenho trinta e três anos, vivo numa cidade onde todos correm, estão sempre ocupados, sempre a fingir que estão bem. Trabalho em gestão operacional numa cadeia de edifícios de escritórios de luxo. A minha vida é feita de reuniões, cartões de acesso, e-mails e conversas educadas que nunca tocam no que realmente importa.
Mas a minha verdadeira vida é muito mais pequena do que isso.
Cabe nos braços de uma criança.
O nome dela é Leonor.
Fui eu quem lhe deu esse nome no dia em que a encontrei.
Dois anos atrás, numa tarde tranquila com chuva fina, reparei num cesto junto a uma paragem de autocarro. Pensei que alguém se tivesse esquecido das coisas. Quando me aproximei, ouvi uma respiração—ténue, frágil—e depois um choro tão baixo que parecia um fio a ser puxado.
Dentro do cesto estava uma bebé recém-nascida, enrolada num cobertor velho. Ao lado dela, um pedaço de papel, encharcado e manchado pela chuva. Só consegui ler uma frase:
*”Por favor, mantém-na viva.”*
Nenhum nome.
Nenhum telefone.
Nada a que voltar.
Não sei por que a peguei. Não sei por que não a deixei ali e chamei outra pessoa para resolver. Talvez tenha sido a forma como os seus dedos se enrolaram nos meus, fracos mas determinados. Algo dentro de mim partiu-se em silêncio.
Levei-a ao hospital. Vieram a polícia, as assistentes sociais. Tudo seguiu o procedimento normal. Perguntaram-me se estaria disposto a ser cuidador temporário enquanto investigavam.
Aceitei, sem entender bem no que estava a meter.
Pensei que seriam uns dias.
Os dias tornaram-se semanas.
As semanas, meses.
Ninguém veio procurá-la.
Leonor cresceu no meu apartamento. Aprendi a preparar biberões às três da manhã, a mudar fraldas meio a dormir, a balançar uma bebé a chorar até os meus braços ficarem dormentes. Aprendi a falar com alguém que ainda não respondia, mas que, de alguma forma, entendia tudo.
Nunca pensei que fosse capaz.
Nunca pensei que pudesse amar alguém de uma forma que me fizesse doer o peito.
Não criei a Leonor por ser herói. Criei-a porque, todos os dias, olhava para ela e sentia a mesma pergunta a pressionar-me: *Se eu não ficar, quem ficará?*
Não fui um pai perfeito. Aprendi errando. Houve dias em que fiquei parado na cozinha, sem lembrar por que estava ali. Noites em que a Leonor teve febre e eu me sentei no chão da casa de banho, telemóvel na mão, com medo de adormecer.
Mas a Leonor era diferente numa coisa. Raramente chorava com estranhos. Não se agarrava facilmente. Só chorava quando eu saía do quarto por muito tempo—ou quando alguém a segurava e algo parecia… errado.
Pensei que fosse só a sua personalidade.
Até àquele dia.
O dia em que uma mulher da limpeza a segurou durante cinco minutos
e a minha vida se partiu ao meio.
O edifício onde trabalhava era todo em vidro e mármore—silencioso, caro, cuidadosamente controlado. Aos sábados de manhã, quando fazia verificações no sistema, às vezes levava a Leonor. Não tinha mais ninguém para ficar com ela. Deixava-a na copa com brinquedos e tentava terminar rápido.
Naquela manhã, a Leonor estava inquieta. Tinha começado a dizer algumas palavras, mas comunicava sobretudo agarrando-se a mim como se eu fosse a única coisa que a impedia de se perder no ar.
Precisava de cinco minutos para assinar papéis com um fornecedor. Levei a Leonor para o corredor, mas ela começou a chorar—alto, desesperado. A sua voz ecoou contra a pedra e o vidro. As pessoas viraram-se e depois desviaram o olhar.
Senti aquela vergonha familiar—não da minha filha, mas de não pertencer ali com ela.
Tentei acalmá-la. Ela chorou ainda mais.
Foi então que uma mulher apareceu no fim do corredor, empurrando um carrinho de limpeza.
Parecia ter uns trinta anos. Cabelo apanhado, uniforme gasto mas limpo. Sem maquilhagem. Olhos cansados—mas bondosos. Daqueles que se veem em pessoas que passaram por dias difíceis e, mesmo assim, souberam manter-se gentis.
Ela parou e olhou para a Leonor, depois para mim.
“Precisa… que eu a segure um momento?” perguntou baixinho.
Hesitei. Normalmente, não se pede ajuda pessoal à equipa de limpeza. Mas a Leonor gritava e o tempo escasseava. Olhei em volta. A segurança fingiu não ver. Os funcionários passaram depressa.
Engoli em seco.
“Podia segurá-la uns minutos?” perguntei. “Só preciso de assinar uma coisa.”
Ela anuiu. “Claro.”
Entregar a Leonor a uma estranha foi como entregar o meu coração. Todo o meu corpo ficou tenso. Mas, no momento em que a Leonor tocou no ombro da mulher, aconteceu algo impossível.
A Leonor parou de chorar.
Não subitamente.
Não por medo.
Ficou quieta—como se algo tivesse encaixado.
Apoiou a cara no pescoço da mulher e soltou um suspiro longo e calmo. A mulher não fez nada de especial. Apenas a segurou como deve ser—uma mão nas costas, outra na nuca, balançando-se devagar.
Sussurrou qualquer coisa. Não ouvi.
Mas a Leonor agarrou-se à sua blusa.
Fiquei parado, a caneta esquecida na minha mão.
Parte de mim queria pegá-la de volta, instintivamente protectora. Outra parte apenas observou, com o coração pesado, a ver a minha filha parecer… em paz.
Assinei os papéis o mais rápido que pude. Os meus olhos não se desviaram delas.
Quando voltei, estendi os braços.
“Obrigado—”
A mulher passou-me a Leonor.
E então tudo desmoronou.
A Leonor gritou.
Não um choro normal. Um grito de pânico. Debateu-se, esticando-se para a mulher, a boca a formar um som que me gelou o sangue.
“M… mamã…”
O corredor ficou em silêncio.
A mulher paralisou. As mãos apertaram o carrinho. O seu rosto perdeu a cor.
“Desculpe,” disse depressa, recuando. “As crianças… confundem-se.”
Mas a Leonor não estava confusa.
Agarrou-se a mim e ainda assim esticava-se para ela, soluçando como se eu a tivesse afastado de um porto seguro.
“Senhora,” perguntei suavemente, “como se chama?”
Ela não respondeu logo.
“Lurdes,” disse, por fim. “Por favor… tenho de trabalhar.”
E afastou-se—quase a correr.
Fiquei ali, com uma criança aos gritos e uma pergunta tão pesada que me dobrou a coluna.
Naquela noite, não dormi.
Sentei-me ao lado do berço da Leonor, a vê-la respirar. Ela finalmente adormeceu, uma mão ainda agarrada à minha camisa. Revivi o momento vezes sem conta. A forma como ela se tinha acalmado. Como olhara para a Lurdes.
A Leonor nunca chamara mais ninguémE no final, percebi que a vida não se trata de encontrar o que é só nosso, mas de aprender a dividir o que sempre foi de dois.





