Ela fugiu de um casamento violento e não sabia que o homem ao seu lado era um dos criminosos mais poderosos da Europa6 min de lectura

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Levou seis meses para Isabela Trindade planejar a sua fuga. Seis meses de fingir, de sorrir por cima das marcas que ninguém via, de contar cada cêntimo, cada batida do coração, cada momento como se fosse um aviso final. O tempo tornara-se o seu inimigo e aliado ao mesmo tempo — a ticar alto nas paredes de uma mansão que parecia um paraíso, mas era uma prisão.

O seu marido, Damião Varela, era o tipo de homem que todos admiravam em público: um bilionário filantropo com um sorriso perfeito e reputação impecável. Mas a portas fechadas, era uma tempestade, e Isabela aprendera depressa que tempestades deixam cicatrizes. Os primeiros meses pareciam um conto de fadas — lençóis de seda, champanhe, desculpas intermináveis — mas logo a verdade se revelava. O castelo era uma gaiola, e cada desculpa vinha depois de um golpe. Cada “amo-te” era um aviso disfarçado.

Aquela madrugada de novembro, às 4h15, Isabela saiu silenciosamente da cama que se tornara a sua prisão. O corpo doía da última discussão; as marcas roxas latejavam, lembrando-lhe quão frágil a sua vida se tornara. Mas o coração, pela primeira vez em anos, batia com esperança.

Juntou o essencial em silêncio: uma mala de couro gasto com dinheiro escondido, o passaporte enfiado num livro de receitas, uma mochila pequena. Nada de malas de luxo ou joias. Só o necessário… e a sobrevivência. O piano de cauda na sala parecia observá-la, como uma plateia de fantasmas e memórias. Quando pisou a noite, sentiu, pela primeira vez em anos, como seria a liberdade.

Atravessou as ruas escuras da cidade, chamou um táxi com um telemóvel velho e soltou a primeira mentira que uma sobrevivente aprende a dizer: “Vou só visitar uma amiga.” Ao amanhecer, estava no aeroporto, com o bilhete na mão, o zumbido metálico dos aviões a vibrar-lhe no peito. O chamamento para o voo 732 ecoou como uma promessa — ou um desafio.

Quando se sentou no lugar 12D, um homem ocupou o assento ao lado. Era alto, impecavelmente vestido de preto, com olhos escuros como o mar da meia-noite e uma presença que ocupava espaço sem pedir. Por um instante, estudou-o. Ele não falou, não olhou para ela, apenas observava a cabine com atenção, como se lesse cada pensamento à sua volta.

O avião entrou em turbulência. Isabela estremeceu. O pulôver deslizou levemente, revelando as marcas no ombro. O homem ao lado falou pela primeira vez.

“Está bem?” A voz era baixa, calma, cautelosa — o tipo de tranquilidade que fazia querer apoiar-se nele sem saber porquê.

“Estou bem,” respondeu, automaticamente. Uma mentira. Os olhos, porém, traíam a verdade.

Ele inclinou-se ligeiramente, oferecendo espaço sem invadir. “Se quiser, pode descansar. Ajuda.”

Descansar. A palavra era estranha. Não dormira livremente em anos. Lentamente, encostou-se nele. Ele não se mexeu. Não falou. E, pela primeira vez em uma vida, ela adormeceu.

Ao acordar, a luz do sol inundava a cabine. Ele lia, calmo e silencioso.

“Desculpe,” sussurrou, envergonhada.

“Não há motivo para desculpas,” disse. Após uma pausa, acrescentou: “Sou Adriano Monteiro.”

“Isabela,” respondeu, hesitante. “Prazer.”

Ele tinha um jeito de tornar o comum extraordinário. Cada olhar, cada gesto, era preciso mas natural. Percebia os detalhes — o elogio discreto à hospedeira, o ajuste suave à turbulência. Ela percebeu: ele notava tudo.

Mais tarde, perguntou-lhe, gentil: “Está a fugir de alguém… ou a correr para alguém?”

Isabela congelou. A verdade queimava-lhe na garganta, mas não falou. Ele não insistiu. Apenas perguntou, baixinho: “Tem um lugar seguro para onde ir?”

“Tenho… um hotel por duas noites. Depois, as manhãs são minhas,” admitiu, a voz trémula.

“Bom,” disse, simplesmente. “Manhãs são um começo.”

Ao aterrar, ele entregou-lhe um cartão preto com uma única palavra gravada: ADRIANO, e um número. “Se algum dia se sentir insegura,” disse, “ligue-me. Ou não. A escolha é sua.”

Na recolha de bagagens, dois homens de fato escuro escrutinavam os rostos. O coração de Isabela disparou. Adriano posicionou-se casualmente entre eles e ela, um escudo de confiança. “Amigos seus?” murmurou.

“Não. São homens dele,” sussurrou.

Ele tirou uma foto discretamente e murmurou algo em italiano. Soou como uma promessa. Minutos depois, um sedã preto afastou-os dali.

“Quer ajuda?” perguntou.

“Sim. Mas quero a minha vida de volta, não apenas segurança,” disse.

“É esse o plano,” respondeu Adriano.

Naquela noite, Isabela encontrou-se num apartamento seguro com vista para a cidade. O médico tratou-lhe as marcas enquanto Adriano ficou à janela, um sentinela nas sombras. “Porque está a ajudar-me?” perguntou.

“Porque alguém ajudou a minha irmã quando eu não pude,” respondeu, suavemente.

Os dias transformaram-se em semanas. As marcas curaram, mas os pesadelos permaneceram. Adriano estava sempre presente, nunca exigindo, nunca tocando — a sua presença já dizia segurança. Então, chegou a notícia: Damião apresentara um desaparecimento e oferecera uma recompensa. Estava à sua procura.

“Fugir alimenta o medo,” Adriano disse-lhe, firme. “Precisamos que ele acredite que desapareceu.”

A equipa de Adriano trabalhou em silêncio. Contas bancárias, arquivos ocultos, gravações secretas — cada mentira de Damião veio à tona. Investidores retiraram-se. Os media sussurraram. E uma manhã, as manchetes gritaram:

“Bilionário Damião Varela Acusado de Violência Doméstica e Fraude.”

A justiça desenrolou-se sem caos. Quando Adriano lhe entregou um pen drive com todas as provas, disse: “Está na hora de a sua voz importar.”

Isabela falou publicamente. No saguão de um hotel, cheio de câmaras, Damião esperava, sorridente. Adriano avançou. “Ela não vai a lado nenhum consigo,” disse. “Pôs-lhe as mãos em cima. Isso faz de você assunto meu.”

Os homens de Damião moveram-se para as armas. A equipa de Adriano foi mais rápida. A verdade era inegável: cada mentira de Damião desmoronou-se ao vivo. As sirenes da polícia soaram. Damião foi levado, impotente.

Naquela noite, a chuva caiu, mas Isabela não correu. Ficou na varanda com Adriano, livre, a respirar, finalmente a viver. “Conseguiu,” disse ele, suavemente.

“Não,” respondeu, com lágrimas nos olhos. “Nós conseguimos.”

Semanas depois, reconstruiu a vida, falou publicamente, fundou um abrigo para sobreviventes e reclamou o seu nome. Adriano desapareceu no fundo — alguns disseram que voltou para Itália, outros que observava em silêncio, garantindo que os monstros não a caçavam mais.

Finalmente, num jantar de gala, ela estava sob as luzes. Uma vozE, quando Adriano estendeu a mão, ela segurou-a firmemente, sabendo que, desta vez, o amor não vinha disfarçado de perigo.

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