Capítulo 1: O Grito no Crepúsculo
O negócio em Lisboa tinha desmoronado ao meio-dia. Um desastre—milhões de euros evaporados em segundos—mas, enquanto conduzia meu Mercedes preto pelas ruas calmas e arborizadas do meu bairro, não pensava no dinheiro.
Pensava na minha falecida esposa, Catarina. Pensava na promessa que lhe fiz de cuidar dos nossos filhos e em como, nos últimos dezoito meses, me enterrei no trabalho para fugir do silêncio opressivo de uma casa sem ela.
Decidi voltar mais cedo. Uma surpresa. Levaria a Sofia, de oito anos, e o Tiago, de dezoito meses, ao jardim antes do jantar. Seria o pai que prometi ser.
Virei a esquina em direção à nossa rua, o sol mergulhando no horizonte, lançando sombras alongadas no pavimento.
Foi então que a vi.
Uma figura pequena corria pela calçada, movimentos desesperados e irregulares. Vestia um vestido de verão fino, sem casaco, sem sapatos, num dia gelado.
Desacelerei, franzindo a testa. A figura tropeçou, levantou-se e continuou a correr, gritando para os faróis de um carro que desaparecia ao longe.
Meu coração batia forte, um aviso. Acelerei, parei ao lado da menina e abri o vidro.
“Sofia?”
Ela virou-se. O rosto, uma máscara de terror, sujo de terra e lágrimas. Ao me ver, os joelhos fraquejaram.
“Pai!” O grito não era um cumprimento—era um pedido de salvação. “Pai, ela deixou-o! Ela abandonou o Tiago!”
Estacionei no meio da rua e saí do carro. Sofia colou-se às minhas pernas, agarrando-se à minha calça, o corpo todo a tremer.
“Quem o abandonou? Onde está ele?”, exigi, segurando seus ombros.
“A Inês!”, soluçou, engasgando-se. “Disse que ele chorava demais. Que precisava de uma pausa. Colocou-o no banco e mandou-me ir para casa a pé… Depois, fugiu de carro! Pai, ele está sozinho!”
Ele é apenas um bebé.
O mundo estreitou-se. Peguei a Sofia—leve demais—e corri em direção à entrada do jardim.
“Onde?”, gritei.
“Junto à fonte! No banco perto da fonte!”
Corri para além dos baloiços vazios, do escorregador silencioso. O jardim estava deserto. O crepúsculo transformava-se em noite.
E então ouvi. Um choro fraco, exausto.
Vi-o. Um embrulho minúsculo num banco de metal. Tiago.
Tinha chutado o cobertor. Estava ali, exposto ao vento cortante, o rosto vermelho e molhado, as mãozinhas estendidas para o ar vazio.
Em segundos, agarrei-o, pressionando-o contra o peito. Estava gelado. A pele, como gelo.
“Estou aqui”, murmurei, a voz quebrando, enterrando o rosto no seu pescoço. “O pai está aqui.”
Sentei-me naquele banco, abraçando os meus filhos enquanto a temperatura caía. Algo dentro de mim partiu-se—e depois reconstruiu-se, mais forte que o aço.
“Sofia”, disse, tentando manter a voz firme. “Há quanto tempo?”
“Não sei…”, sussurrou, encostando-se a mim, trémula. “Talvez dez minutos? A Inês disse que, se eu não parasse de chorar, também me abandonaria. Disse que estávamos a dar-lhe dor de cabeça.”
Olhei para a minha filha. A sério. As faces magras. Os olhos fundos, cercados por olheiras que nunca deviam existir num rosto de oito anos.
“Quando foi a última vez que comeste?”, perguntei.
Ela hesitou, baixando os olhos para os pés descalços. “O pequeno-almoço… Acho.”
“O pequeno-almoço?” O estômago embrulhou-se. “Sofia, são seis da tarde.”
“A Inês diz que preciso perder peso,” murmurou, repetindo palavras que claramente não eram dela. “Diz que estou a ficar gordinha como a mamã. Que a mamã morreu porque era fraca e doente… e que, se quero viver, tenho de aprender a ter controlo.”
“Controlo.”
A palavra pairou no ar frio, vil e obscena.
“Ela diz que somos um fardo”, continuou Sofia, a voz agora vazia, robótica. “Âncoras. Erros. Diz que, quando mudares o testamento, ela arranjará ‘soluções permanentes’.”
Levantei-me.
“Vamos para casa”, disse. “E ninguém mais vos vai magoar.”
Capítulo 2: O Monstro na Cozinha
A viagem de volta ao apartamento foi silenciosa. O aquecimento estava no máximo, mas não parava de tremer.
Peguei no telemóvel e abri a aplicação das câmaras de segurança. Instalei-as há dois anos—a Inês sabia. Nunca as verifiquei. Confiei nela. Fiquei grato por uma mulher jovem e bonita querer assumir um viúvo com dois filhos.
Meu Deus, fui tão cego.
Retrocedi para as 16h00. As imagens carregaram.
Lá estava ela, na cozinha, a servir-se de um copo de vinho. O Tiago, no cercado, chorava. Ela aproximou-se—não para o pegar, mas para chutar o lado do cercado com tanta força que este deslizou sobre o mármore.
“Cala-te!”, gritou para o bebé.
Depois, a Sofia entrou em cena. A Inês agarrou-a pelo braço—ergueu-a com tanta força que os pés da minha filha saíram do chão—e empurrou-a para a porta.
Desliguei o telemóvel. Já tinha visto o suficiente.
Subimos no elevador privado. As portas abriram-se diretamente para a entrada.
“Sofia”, sussurrei, entregando-lhe o bebé adormecido. “Leva o teu irmão para o quarto. Tranca a porta. Não saias até eu dizer o meu nome e que está seguro. Entendeste?”
Ela anuiu, os olhos arregalados, e desapareceu pelo corredor. Ouvi o clique da fechadura.
Entrei na cozinha.
A Inês estava lá. De pé junto à ilha, o telemóvel no ouvido, a rir.
“Ricardo, eu sei”, dizia. “Ligo depois. Ele pode chegar a qualquer momento.”
Desligou e virou-se. Ao me ver, a expressão transformou-se instantaneamente. O sorriso arrogante desapareceu, substituído por um brilho amoroso.
“Daniel! Querido!”, aproximou-se, de braços abertos. “Chegas-te mais cedo! Que surpresa maravilhosa. Ia começar a preparar o jantar.”
Não me mexi. “Onde estão as crianças, Inês?”
Nem hesitou. “No quarto. Levei-os ao jardim para apanhar ar fresco e ficaram exaustos. Adormeceram.”
“Levaste-os ao jardim”, repeti.
“Sim, divertimo-nos muito.” Inclinou a cabeça, fingindo preocupação. “Querido, está tudo bem? Estás pálido.”
“Encontrei-os no jardim”, disse, a voz gelada. “Encontrei o Tiago sozinho num banco, a congelar. E a Sofia a correr pela rua, a tentar alcançar o teu carro porque os abandonaste.”
A Inês parou. O sorriso vacilou, depois transformou-se em choque. Levou a mão à boca.
“Meu Deus, Daniel… Eu… devo ter-me confundido.”
“Confundido?”
“Foi uma emergência!”, as mentirasE no final, como nos sentávamos à mesa, os risos dos meus filhos ecoando pela casa, percebi que o amor havia vencido o medo, e que nada nem ninguém nos deixaria em pedaços outra vez.





