Colocar terra nos seus olhos vai te fazer enxergar… E então, tudo mudou!6 min de lectura

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António Mendes apertou os punhos no momento em que viu o menino sujo aproximar-se da cadeira de rodas do seu filho. As mãos do rapaz estavam cobertas de lama seca, a camisola rasgada, o cabelo emaranhado. Qualquer pai normal teria corrido para afastar o filho.

Mas algo deixou António imóvel.

Talvez fosse a expressão no rosto do Francisco—o seu menino loiro de nove anos, de olhos azuis sem foco, cego desde que se lembrava, estava a sorrir. António não via aquele sorriso há anos.

O menino lamacento agachou-se em frente à cadeira de rodas.
—Olá, eu sou o Tiago. Vejo-te aqui todos os dias — disse, alegre.

Francisco virou-se para o som, buscando com os olhos que não viam.
—O meu pai traz-me ao jardim. Diz que o ar é bom para mim.

—Nunca viste nada? — perguntou Tiago, sem rodeios.

Francisco abanou a cabeça. — Nunca.

Então, Tiago baixou a voz, como quem partilha um segredo importante.
—O meu avô tinha um remédio—lama especial da margem do rio. Ele curava muitas coisas. Se quiseres, posso pôr um pouco nos teus olhos. Vou tentar muito para que deixes de ser cego.

António sentiu o mundo desabar à sua volta. Absurdo. Ridículo. Ofensivo. Devia ter pegado no Francisco e ido embora.

Mas Francisco sorriu mais ainda—cheio de esperança.
E António não conseguiu destruir aquele pequeno raio de luz.

Não sabia ainda que aquela lama—completamente normal—mudaria todas as suas vidas.

⭐ O Ritual
Tiago tirou um punhado de lama húmida de um saquinho de plástico velho. As unhas estavam negras, as mãos ásperas, mas os olhos escuros brilhavam de sinceridade.

—Fecha os olhos — disse suavemente.

Francisco obedeceu sem medo, como se já confiasse no desconhecido.

António observou, com o peito apertado, enquanto o menino pobre espalhava a lama nas pálpebras do Francisco com movimentos cuidadosos, quase reverentes.

—Pode arder um pouco — avisou Tiago.
—Não arde — sussurrou Francisco. — Até sabe bem.

As pernas de António tremiam. Quanto tempo tinha passado desde que Francisco dissera que algo lhe sabia bem?

Tiago prometeu voltar no dia seguinte—todos os dias durante um mês, como o avô lhe ensinara.
E Francisco fez a pergunta que António temia:

—Deixas que ele volte amanhã?

Havia medo na voz do menino—medo de perder aquela pequena esperança.

António olhou para as próprias mãos—mãos que assinaram contratos de milhões, ergueram prédios, ganharam prémios…
e ainda assim não conseguiram aliviar a dor do filho.

—Deixo — disse, por fim.

Francisco radiou de alegria. E, pela primeira vez em anos, António sentiu algo dentro dele a derreter.

⭐ Uma Febre, uma Confissão, uma Promessa
Naquela noite, António não conseguiu dormir.
Às três da manhã, a mulher, Leonor, chamou-o do andar de cima—a chorar.

—O Francisco está com febre.

O Dr. Silva veio de imediato.
Depois de examinar o menino, diagnosticou um vírus simples, nada relacionado com a lama.

Quando António confessou o que acontecera no jardim, o médico repreendeu-o com brandura.
—A cegueira do Francisco é irreversível. Nenhuma lama pode mudar isso.

—Eu sei — sussurrou António.

—Então porque permitiste?

António olhou para o rosto sereno do filho.
—Porque ele sorriu.

Leonor desfez-se em lágrimas mais tarde, admitindo que estava exausta de anos de tratamentos inúteis, olhares de pena dos médicos e das perguntas inocentes do Francisco sobre a cor do céu ou porque não podia correr como os outros meninos.
Acusou António de se esconder atrás do trabalho.

Ele não teve defesa—ela estava certa.

Então fez uma promessa, quase como uma rendição.

—Amanhã levo-o ao jardim. Outra vez.

⭐ Tiago Volta — e o Mundo Ganha Cor
No dia seguinte, Francisco estava melhor.
Foram ao jardim e esperaram.

Quinze minutos.
Trinta.
O lábio de Francisco tremia. — Ele não vem…

Então António viu Tiago a correr para eles, suado, ofegante.

—Desculpa! A minha avó precisava de ajuda.

O ritual recomeçou.
Desta vez, enquanto a lama secava, Tiago descreveu o mundo a Francisco:

O tronco enorme da árvore—castanho-escuro em baixo, castanho-claro em cima.
As folhas que se mexiam como um oceano verde.
O céu da cor da água da piscina ao sol.
Nuvens em forma de cães, barcos, algodão.

Francisco inclinou-se para a voz, bebendo cada palavra.

Nada de mágico aconteceu aos seus olhos naquele dia.
Nem no seguinte.
Nem no outro.

Mas Francisco esperava por Tiago todas as manhãs.

E, lentamente, António também começou a esperar.

⭐ A Família Começa a Mudar
Semanas passaram.
O jardim tornou-se o universo do Francisco.

António começou a cancelar reuniões.
A sair mais cedo do trabalho.
A secretária ficou chocada.
Leonor desconfiada.

Mas o Francisco falava mais. Ria mais.
Tinha um amigo—um que não tinha pena dele.

Tiago falava do seu bairro pobre, da avó Aida que criava galinhas, do primo que tocava guitarra na igreja.
Francisco falava da casa grande e vazia, dos brinquedos que não usava e da solidão de não ter amigos que se atrevessem a brincar com um menino numa cadeira de rodas.

—Eles têm medo que eu caia ou me magoe — disse Francisco.

—Então estão a perder — respondeu Tiago, simplesmente. — Tu és incrível.

Nasceu uma amizade—não entre um menino rico e cego e um miúdo pobre—apenas entre dois meninos de nove anos que se entendiam.

⭐ A Sombra do Pai de Tiago
Um dia, Leonor foi com eles, decidida a parar “aquela absurdeza”.
Mas quando ouviu o riso do Francisco, desfez-se, percebendo o quanto se tinha perdido.

Então apareceu um homem desgrenhado—o Carlos, pai alcoólico de Tiago.

Tiago empalideceu.
Carlos agarrou-o, exigindo dinheiro, chamando-o de inútil por não “tirar nada do menino rico aleijado”.

Tiago recusou-se.
Carlos deu-lhe um estalo.

O som ecoou pelo jardim.

António colocou-se entre eles instantaneamente—não como um executivo rico, mas como um pai finalmente desperto.

Protegeu Tiago e afastou Carlos.
Mais tarde, soube que quem realmente cuidava de Tiago era a avó Aida, que limpava casas para o criar.

⭐ Uma Verdade Mais Profunda que a Lama
Nesse mesmo dia, António perguntou:

—Porque fazes tudo isto? Nem nos conheces.

Tiago olhou para o Francisco, os olhos a brilhar com uma sabedoria maior que a sua idade.

—Porque sei o que é não ser visto. As pessoas olham para mim e só veem sujidade, roupa velha, pobreza.
Não me veem a mim.
E olham para o Francisco e só veem a cadeira e a cegueiraE, sob aquele céu azul de Lisboa, enquanto as crianças brincavam e os adultos sorriam, António percebeu que a verdadeira cura nunca vinha da lama, mas do amor que brotava quando alguém se importava o suficiente para verdadeiramente ver o outro.

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