Chegou mais cedo ansioso por risadas, mas ouviu um sussurro cansado: ‘Por favor, já chega’6 min de lectura

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**Um Pai, uma Criança e uma Casa Que Ficou Silenciosa**

A casa costumava ter outro som.

Antes do hospital, antes de as travessas deixarem de chegar e os cartões de condolências se transformarem em contas, antes de Duarte aprender como uma prancheta de arquiteto podia ser solitária às 2h17 da manhã, havia gargalhadas — brilhantes, pegajosas, comuns. Viviam nos corredores e grudavam na porta do frigorífico, e as tábuas do chão conheciam o peso e o ritmo da corrida de uma criança.

Depois que Clara morreu, a casa esqueceu-se das suas linhas.

Algumas tardes, era demasiado silenciosa; outras noites, o silêncio crescia tão alto que parecia clima. Duarte Gonçalves, trinta e oito anos, bom a resolver problemas no papel, descobriu que a dor não tem escala útil. Não se pode medir; só se pode tropeçar nela nas portas e senti-la no ombro.

Aprendeu novas tarefas. Aprendeu que há trinta e seis maneiras de queimar ovos mexidos. Aprendeu que o seu filho, Tomás, de oito anos, dormia sob tormentas, mas não sob silêncio. Aprendeu que certas perguntas não têm respostas limpas — “Onde está a Mãe agora?” “Ela vai sentir falta do meu jogo?” “Quantos abraços teremos amanhã?” — e que o trabalho de um pai é aparecer na mesma.

Mas aparecer era o problema.

O escritório adorava Duarte pela mesma razão que a casa precisava dele — ele acabava as coisas. A renovação duma escola. A asa duma biblioteca. A piscina municipal que tentavam ressuscitar antes do verão. Desenhava até os cotovelos doerem, assinava licenças até a impressora aquecer a sala. Prometia a si mesmo que sairia às cinco. Prometia de novo às seis. Escrevia à Dona Irene às sete: “Atrasado outra vez — obrigado.”

Não queria ajuda; queria um universo diferente. Mas ajuda era o que podia pagar.

**A Entrevista**

Dona Irene chegou com um impermeável da cor de aveia e um sorriso que podia engomar uma camisa. De meia-idade. Voz firme. Referências que se podiam contactar. Disse que trabalhara para duas famílias como empregada doméstica e babysitter a tempo parcial. Disse que “adorava crianças”, da forma como algumas pessoas falam de certas antiguidades.

“O Tomás é um bom miúdo,” Duarte disse, rápido demais. “Ele é… resistente.”

Os olhos da Dona Irene suavizaram-se de um modo que o fez sentir-se visto e avaliado. “Os meus pêsames, Sr. Gonçalves. Compreendo que a rotina ajude.”

Rotina. Essa palavra pareceu-lhe orla costeira.

Mostrou-lhe a cozinha. O quadro com as tarefas de Tomás — pôr os guardanapos na mesa, calçar os sapatos no tapete, ler vinte minutos. A única nota na letra de Clara que nunca tiraria, colada ao frigorífico: *És suficiente.*

“Posso começar na segunda,” disse Dona Irene. “Manterei as coisas calmas.”

Contratou-a na hora, o alívio chegando tão rápido que o deixou tonto.

**As Primeiras Semanas**

Funcionou, no início. Funcionou tão bem que Duarte sentiu um cansaço novo — o tipo que segura gratidão numa mão e negação na outra.

A casa cheirava a limão e algo no forno. A mochila de Tomás já não parecia um desastre. Havia pequenos bilhetes no balcão — “Matemática feita”, “Ditado corrigido”, “O Tomás comeu duas peras!” — e uma travessa de lasanha a arrefecer sob um pano. Dona Irene deixava recibos presos por categoria. Baixava os olhos quando ele a agradecia e dizia: “Não foi nada. Só o meu trabalho.”

Tomás, por sua vez, sorria mais. Contava factos sobre vulcões e perguntava se as nuvens tinham ossos. Dizia que Dona Irene cortava os sanduíches em triângulos “da maneira certa”. Perguntava se o pai podia ir ao mercado ao sábado, como antes.

“Em breve,” Duarte dizia, acreditando quando o dizia.

Havia sinais. Sempre há sinais que só aprendemos a ver depois.

A forma como Tomás começou a usar a frase “merecer”, como se fosse moeda a ganhar em trocos. Como os seus desenhos mudaram — de foguetões e cães para listas e caixas, coisas arrumadas em ordem. Como dizia “A Dona Irene gosta que esteja arrumado” e olhava não para o balcão, mas para Duarte, a verificar.

Numa terça-feira, Duarte encontrou uma bolha na palma de Tomás.

“O que aconteceu, miúdo?”

“Basquetebol,” Tomás respondeu, rápido demais. “Driblei muito.”

Duarte beijou o lugar e disse a si mesmo que crianças têm bolhas. Marcou um alarme para sair mais cedo na sexta. Desligou-o quando o empreiteiro ligou sobre vigas e inspeções e um email marcado URGENTE.

**O Céu Muda**

Era fim da primavera quando o céu sobre a cidade ficou estranho — cor de ardósia molhada contra vidro. A reunião da equipa cancelou-se com um trovão. Pela primeira vez em meses, Duarte pegou nas chaves sem arranjar uma desculpa.

Parou numa pastelaria por chocolate quente e dois biscoitos em forma de estrela. Imaginou o sorriso de Tomás — desprotegido, de dentes à mostra, que se tornara raro, como um clima especial. Pensou: *Hoje serei a surpresa boa.*

Estacionou junto ao passeio e ficou um segundo a mais do que precisava. A chuva examinava o para-brisas em linhas firmes. A casa parecia menor naquela luz, como se o dia tivesse expirado e se esquecido de inspirar outra vez.

Entrou em silêncio.

O silêncio encontrou-o a meio do caminho.

“Tomás?” Duarte manteve a voz baixa, como se faz quando se quer ter sorte. Nada. Cheirava limão. Cheirava algo mais também — um cheiro agudo, de casas de banho públicas e ginásios. O tipo de limpeza que não é sobre saúde, mas sobre controlo.

Deixou o saco com o chocolate no banco da entrada e seguiu o som de água. Um ritmo de rangido e arrasto, como uma canção cansada cantada num travesseiro.

**A Porta**

A porta da cozinha era um quadro, e dentro dele uma imagem que viveria sob as costelas de Duarte para sempre.

Tomás estava de joelhos no chão, uma esponja amarela numa mão e um balde azul ao lado que respingava a cada movimento. Os seus ombros pequenos moviam-se como um relógio esquecido. A pele sobre as suas juntas estava zangada — vermelha, macia, fina. As meias estavam molhadas, e havia meias-luas de água nos joelhos.

Dona Irene estava junto ao lava-louça. Braços cruzados. Boca numa linha reta onde uma boca não devia ser linha reta.

“Não,” disse, breve sem calor. “Assim não. Movimentos longos. Se queres ver o teu programa depois, acabas a cozinha direito.”

A voz de Tomás — baixa, cautelosa — pairou no ar. “Por favor. Estou cansado.”

Algo no peito de Duarte virou vidro e depois areia.

Não se lembrava de decidir falar. “Dona Irene.”

O corpo dela estremeceu como uma porta ao vento. Virou-se. A cor fugiu-lhe do rosto e não voltou. “Sr. Gonçalves! Eu—” a frase quebrou e caiu. “Não o ouvi entrar.”

“O que,” Duarte disse —E, ao final, a casa recordou-se do seu próprio nome — lar.

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