Caos no Pronto-Socorro: Criança Desconhecida Abala o Sistema e Atrai a Investigação do FBI6 min de lectura

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As portas automáticas do Hospital da Luz nunca foram feitas para serem arrombadas às três da manhã, não numa cidade onde o som mais alto após a meia-noite era geralmente um comboio de mercadorias a atravessar o vale ou um estudante bêbado a discutir com uma máquina de venda automática. Contudo, naquela noite, as portas não se abriram com a suavidade habitual — foram empurradas com tanta força que os vidros tremeram nas molduras, e por um segundo suspenso e incrédulo, a sala de emergência pareceu parar de respirar.

O homem que irrompeu lá dentro parecia saído de uma manchete que as pessoas só liam depois do facto, daquelas que começavam com palavras como “violento”, “armado” ou “indivíduo perigoso”. Era uma figura imponente, envolta em couro encharcado e sujidade da estrada, a água da chuva escorrendo dos ombros para os azulejos brancos e imaculados, as botas deixando pegadas escuras e desiguais, como se estivesse a arrastar uma tempestade pela garganta.

O seu nome — que quase ninguém ali conhecia ainda — era Rodrigo “Lobo” Mendes, e nos braços trazia uma menina que estava a morrer.

Ela não devia pesar mais de vinte quilos, o corpo pequeno e mole contra o seu peito, a cabeça a cair sem naturalidade enquanto ele se movia, mechas de cabelo castanho coladas a um rosto que já perdia a cor, a pele tingida de um tom azulado que fez todas as enfermeiras reconhecerem o perigo antes mesmo de qualquer monitor o confirmar. A visão dela era tão errada, tão fora do lugar na dura luz do hospital, que as conversas morreram a meio das frases e o segurança perto da receção pegou no rádio instintivamente, sem saber bem porquê.

“AJUDA-A!” gritou o homem, a voz rouca e partida, a ressoar pelas paredes com uma força que fez várias pessoas estremecerem, não porque soasse a violência, mas porque soava a desespero de uma forma que não podia ser fingida. “Ela não está a respirar bem. Está gelada. Por favor.”

Por um instante, ninguém se moveu.

Então Sara Matos, a enfermeira-chefe de serviço, agiu como só quem está movido pelo instinto em vez do medo consegue fazer, o bloco de notas a cair no balcão enquanto se precipitava para a frente, os olhos já a examinarem o rosto da criança, a postura firme e decidida mesmo quando levantou as mãos.

“Maca”, ordenou secamente. “Sala de trauma dois. Agora.”

Duas enfermeiras correram, as rodas a chiar enquanto puxavam uma maca da parede, e Sara colocou-se diretamente no espaço do motociclista, perto o suficiente para sentir o cheiro a alcatrão molhado, óleo de motor e algo metálico que lhe torceu o estômago.

“Senhor, preciso que ma entregue”, disse, não com rudeza, mas sem hesitação.

Por um breve instante, Rodrigo não se mexeu.

Os braços apertaram-se, o maxilar cerrou-se com tanta força que um músculo saltou na sua face, e Sara viu algo cruzar-lhe a expressão que não tinha a ver com agressividade, mas sim com terror, daquele que nasce quando se sabe que já pode ser tarde demais.

“Ela não pode morrer”, murmurou, rouco. “Não pode.”

“Se não a largar, não a vou conseguir ajudar”, respondeu Sara calmamente, fitando-o nos olhos.

Algo no tom dela fez-se entender.

Rodrigo depositou a menina na maca com um cuidado quase reverente, as mãos a hesitar por uma fração de segundo, como se temesse que ela desaparecesse se a soltasse por completo. Quando as enfermeiras a levaram para lá das portas com a indicação “PESSOAL AUTORIZADO APENAS”, ele recuou como se lhe tivessem arrancado um peso do corpo, a cair numa cadeira de plástico junto à parede, os ombros largos a tremer uma única vez antes de ficarem imóveis.

“Nome?”, perguntou o funcionário administrativo, os dedos pousados sobre o teclado.

Rodrigo olhou para as mãos, ainda molhadas de chuva e sangue que não era seu. “Chama-se… Inês”, disse finalmente.

“Apelido?”

“Não sei.”

O funcionário franziu a testa. “Data de nascimento?”

O riso de Rodrigo saiu áspero e vazio. “Se soubesse disso, achas que estaria aqui sentado?”

Foi então que a polícia chegou.

Dois agentes, alertados por um segurança em pânico que usara a palavra “intruso”, entraram nas portas da urgência com as mãos pousadas nas coldres, o olhar a fixar-se imediatamente em Rodrigo, como se ele fosse obviamente o problema — e numa cidade como aquela, provavelmente era.

“Rodrigo Mendes”, disse o Agente Carlos Neves, com um lampejo de reconhecimento nos olhos. “O que raio se passa aqui?”

Rodrigo nem sequer levantou a cabeça. “A salvar uma criança”, resmungou.

Neves bufou. “Engraçada a maneira de o fazeres. Mãos atrás das costas.”

As atilhas cortaram os pulsos de Rodrigo sem resistência. Ele não discutiu. Não lutou. Os olhos mantiveram-se fixos nas portas fechadas da sala de trauma, como se a força de vontade pudesse impedir que se abrissem de maneira errada.

Dentro da Sala de Trauma Dois, Sara trabalhava com a velocidade de quem já vira noites longas e desfechos piores, linhas intravenosas colocadas, máscara de oxigénio ajustada, os monitores a piar erraticamente enquanto o batimento cardíaco de Inês oscilava entre rápido e perigosamente lento.

“Temperatura central está hipotérmica”, anunciou uma enfermeira. “Pressão arterial a cair.”

Sara inclinou-se para a frente, a testa franzida enquanto examinava os braços da criança.

Lá, no interior do antebraço esquerdo de Inês, havia uma tatuagem.

Nada decorativa. Nada artístico.

Apenas números.

11-03-21.

Parecia antiga o suficiente para ter cicatrizado, mas irregular, a tinta ligeiramente desfocada, como se tivesse sido feita por mãos trémulas ou sem ferramentas profissionais. Um fio de frio desceu pela espinha de Sara.

“Alguém já verificou os sistemas?”, perguntou.

A administrativa, Leonor, batia no teclado freneticamente. “Tentei. Reconhecimento facial, pessoas desaparecidas, registos de nascimento. Não aparece nada.”

Sara não parou de trabalhar. “Tenta a nível nacional.”

“Já tentei”, sussurrou Leonor, o rosto a empalidecer. “Sara… não há registo. Nada de certidão de nascimento. Nada de vacinas. Nada de matrícula escolar. É como se ela nunca tivesse existido.”

Como se fossem convocados por essas palavras, todos os computadores do serviço de urgência congelaram de uma vez.

Depois reiniciaram.

Depois ficaram negros.

Na estação das enfermeiras, o rádio do Agente Neves ganhou vida num estalar de estática tão alto que várias pessoas sobressaltaram-se.

“Unidade Doze”, disse a operadora, a voz repentinamente desprovida do tom habitual, “temos instruções das autoridades federais. Detenham imediatamente o indivíduo Rodrigo Mendes e assegurem as instalações. Isto não é um caso de sequestro.”

Neves franziu a testa. “Então o que é?”

Houve umaHouve uma pausa, carregada de significado, antes da operadora responder: “Chamam-lhe um erro de contenção,” e acrescentou, com uma voz que não admitia discussão, “e, Carlos? É melhor deixares de fazer perguntas.”

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