O sol entardecente caía sobre o asfalto rachado de um posto de gasolina solitário nos arredores de Pombal, uma pequena vila portuguesa onde todos se conheciam — exceto o perigo quando ele aparecia. O ar cheirava a gasolina e a bifanas vindas da tasca do outro lado da rua. Para a maioria, era um dia comum. Mas para Júlia Martins, seria um momento que nunca esqueceria.
Júlia era uma mãe solteira de 32 anos, sobrevivendo de ordenado em ordenado. A sua velha carrinha verde rangia ao parar junto à bomba número quatro. Tinha acabado um turno duplo no café local. O filho, Tomás, esperava em casa com uma vizinha, e tudo o que ela queria era voltar para ele. Contou as últimas moedas — mal dava para uns litros de gasolina.
Os seus olhos estavam cansados, mas ainda guardavam aquela força silenciosa que só as mães que lutam pelos filhos parecem ter. Estava a passar o cartão no terminal quando três homens saíram da loja. Barulhentos, tatuados e com sorrisos trocistas, pareciam problemas antes mesmo de abrirem a boca.
“Ó menina”, um deles disse com um tom de gozo. “Precisa de ajuda com essa lata velha?”
Júlia baixou os olhos. “Não, estou bem, obrigada.”
Foi o suficiente. Riram-se, aproximando-se em círculos. Um deu um pontapé no pára-choques, outro esticou a mão para a carteira pendurada no seu ombro. “Vá lá, não seja assim”, provocou um deles. “Só queremos conversar.”
As suas mãos tremiam. Olhou em volta — o estacionamento vazio, ninguém por perto. O coração batia forte. “Por favor, deixem-me em paz”, sussurrou.
O mais alto agarrou-lhe o braço. “Não te vires quando estou a falar contigo!”
Júlia soltou-se, encostando-se à carrinha. O pânico subia-lhe pela garganta. Foi então que ouviu — um rugido baixo e distante que crescia a cada segundo. Os tipos hesitaram, franzindo as sobrancelhas.
Depois, vindo do calor que tremia no ar, surgiu o rugido de uma dúzia de motas. O cromo reluzia ao sol enquanto entravam, uma atrás da outra, como uma tempestade sobre rodas. O chão tremia debaixo dos pneus.
O líder, um homem robusto com riscas grisalhas na barba e um colete de couro preto com o símbolo dos Lobos da Noite, desceu da sua Harley e tirou os óculos de sol. Os olhos frios percorreram a cena.
“Está tudo bem, senhora?”, perguntou, a voz calma mas cheia de autoridade.
Os tipos calaram-se. Os irmãos do líder estacionaram ao seu lado, formando um semicírculo à volta de Júlia. Os homens trocaram olhares nervosos — a coragem desapareceu-lhes num instante.
“N-não há problema nenhum, senhor”, gaguejou um, recuando.
O líder fitou-o. “Não parecia.”
Ninguém precisou de dizer mais nada. Em segundos, os três cobardes correram para o carro, deixando o estacionamento com os pneus a guinchar.
Júlia respirou fundo, as lágrimas a ameaçarem cair. Os motards não saíram do lugar. Ficaram ali, em guarda — silenciosos, vigilantes, como anjos de coletes de couro.
Foi nesse momento que Júlia percebeu que a bondade podia rugir mais alto que a crueldade.
Quando o perigo passou, o líder virou-se para ela. “Está segura agora. Está bem?”
Júlia anuiu, a voz trémula. “Sim… obrigada. Não sabia o que fazer.”
Ele acenou, tranquilizador. “Não tem de agradecer. Não ficamos a ver quando pessoas boas estão em apuros.”
Os motards mexeram calmamente na carrinha, verificando o motor ao ouvirem o barulho suspeito. Um deles — um homem careca com as mãos manchadas de óleo — ajustou um cabo solto e pôs um pouco de óleo da sua mochila. Outro entregou-lhe algumas notas dobradas.
Os olhosJúlia pegou nas notas e no cartão que lhe deram, guardando-os na carteira não por medo, mas como lembrança de que até nos lugares mais inesperados, há anjos disfarçados de estranhos.





