A torre de champanhe brilhava sob o céu de Lisboa. Duzentos funcionários lotavam a sala de conferências no último andar do edifício, rindo, dançando e celebrando mais um ano de sucesso.
Isabel empurrava o carrinho de limpeza pela multidão, recolhendo as taças de champanhe vazias. Fazia isso todos os Natais há meio ano. Antes disso, passara trinta anos como esposa do fundador.
“Com licença”, disse baixinho, estendendo a mão para uma taça na mesa dos executivos.
Mário nem se mexeu. O novo director-geral estava esparramado na cadeira de couro, e o fato que vestia valia mais do que o salário de um mês de Isabel. Pelo menos, era o que todos pensavam que ela ganhava.
“Ainda estás aqui?” Mário falou alto, e as conversas ao redor silenciaram. “Pensei que tinha dito aos Recursos Humanos para resolverem isto antes da festa.”
Isabel endireitou-se. “Resolver o quê, senhor?”
“Estás despedida. Imediatamente.” Ele sorriu para as caras chocadas à volta. “Custos desnecessários. No próximo ano, começamos pelos cargos supérfluos.”
Sofia, da contabilidade, soltou um suspiro. “Mário, é véspera de Natal—”
“Chama-se negócios, Sofia. Se não gostas, talvez sejas a próxima.” Virou-se novamente para Isabel. “Tens cinco minutos para sair. A segurança vai acompanhar-te.”
Isabel deixou os produtos de limpeza no chão. As mãos não tremiam. “Posso saber por que sou supérflua?”
“Porque posso contratar alguém com metade da tua idade por metade do custo. És lenta, velha, e francamente—” olhou para o seu uniforme, “—és deprimente de se olhar.”
Alguém ao fundo começou a chorar. Tiago, do jurídico, adiantou-se. “Isto está errado—”
“Senta-te, Tiago, a não ser que queiras perder o teu bónus.” Mário puxou do telemóvel. “Voltem para a festa. O espectáculo acabou.”
Mas Isabel não se mexeu. Meteu a mão no bolso do avental. Não para tirar um lenço. Para tirar o iPhone.
“O que é isso?” Mário riu-se. “Vais ligar para o teu sindicato? Não temos sindicatos, querida.”
“Não.” A voz de Isabel agora era firme. Clara. Diferente. “Vou mostrar-te uma coisa.”
Ela ergueu o telemóvel. Na tela: um vídeo de Mário no escritório, três semanas antes, a transferir fundos da empresa para a sua conta pessoal. O áudio era cristalino.
O rosto de Mário empalideceu. “Onde arranjaste isso?”
“Da câmara no detetor de fumo que nunca notaste.” Isabel passou para o próximo vídeo. Mário a ameaçar uma vítima de assédio. Outro. Mário a ordenar ao diretor financeiro que falsificasse relatórios. Mais um. Mário a aceitar subornos de fornecedores.
A sala ficou em silêncio, só os vídeos a ecoar.
“Sabes, Mário, tenho documentado tudo nos últimos seis meses.” Isabel tirou o avental. Por baixo, um fato preto impecável. Pérolas no pescoço. “Desde que entraste nesta empresa e começaste a destruir o que o meu marido construiu.”
Os olhos de Tiago arregalaram-se. “Espera… Isabel… como em Isabel Silva?”
“Silva-Mendes, na verdade.” Ela deixou o avental em cima da mesa. “O meu falecido marido, António Silva, fundou esta empresa há quarenta anos. Quando ele morreu no ano passado, herdei as suas acções de controlo. Cinquenta e um por cento.”
Os suspiros espalharam-se pela sala como uma onda.
Mário levantou-se, derrubando a cadeira. “Isso é impossível. O nome da viúva era—”
“Isabel Silva. Voltei a usar o meu nome de solteira, Mendes, quando me candidatei à limpeza. Queria ver como a empresa do meu marido estava a ser gerida.” Ela olhou para os funcionários, muitos agora a chorar. “Queria ver como estavam a ser tratados.”
Sofia foi a primeira a bater palmas. Depois Tiago. E, em segundos, toda a sala explodiu em aplausos.
Mário tentou agarrar o telemóvel. “Não podes—essas gravações são ilegais—”
“Portugal permite gravações com consentimento de uma das partes. Eu sou essa parte.” Isabel afastou o telemóvel. “Mas tens razão numa coisa. Há alguém que quer falar contigo.”
Acenou para o fundo da sala.
Dois homens de fato escuro aproximaram-se, distintivos à mostra. “Mário Gonçalves? Polícia Judiciária. Está detido por fraude, desvio de fundos e falsificação de documentos.”
Mário se debateu. “Isto é loucura! Eu sou o director-geral!”
“Não és mais.” Isabel pegou numa pasta que deixara sobre a mesa disfarçada de lista de limpeza. Dentro, uma carta de despedimento já assinada pelo conselho. “A reunião de emergência foi esta manhã. A votação foi unânime. Estás despedido, Mário. Imediatamente.”
“Não podes fazer isto!” Mário gritou enquanto os agentes o algemavam. “Vou processar-te! Eu—”
“Vais estar na prisão.” A voz de Isabel era gélida. “A PJ tem tudo. As gravações, as transferências, os relatórios falsos. O meu advogado entregou tudo na semana passada.”
Enquanto a segurança levava Mário para o elevador, a festa ficou em silêncio. Até que alguém começou a bater palmas devagar. Em segundos, virou uma salva de aplausos.
Isabel virou-se para os funcionários—os funcionários do seu marido. As pessoas de quem ele cuidara. As pessoas que ela protegera.
“Peço desculpa por vos enganar”, disse. “Mas precisava de ver a verdade. E de provas que valessem num tribunal.”
Tiago enxugou as lágrimas. “Não tem de pedir desculpa, Dona Isabel. Salvou-nos.”
“O que acontece agora?” perguntou Sofia.
Isabel sorriu—um sorriso verdadeiro, o primeiro em meses. “Agora? Vou promover a Joana Oliveira a directora-geral. Está connosco há vinte anos, é brilhante e realmente se importa com esta empresa.” Olhou à volta. “E vou dar a todos nesta sala um aumento de dez por cento, a partir de Janeiro. Mais os bónus completos. Os verdadeiros, não os que o Mário cortou.”
A sala explodiu em alegria.
“Quanto a mim”, continuou Isabel, “vou regressar ao conselho de administração, onde pertenço. E vou trabalhar de perto com a Joana para garantir que esta empresa honra o legado do meu marido. Salários justos. Práticas éticas. Respeito por cada pessoa que aqui trabalha, desde a administração até—” pegou no avental, “—à equipa de limpeza.”
Dobrou o avental com cuidado. “Falando nisso, vamos contratar mais três assistentes. A carga de trabalho era demasiado para uma pessoa. Eu sei, porque a fiz.”
O riso foi quente, aliviado.
“Feliz Natal a todos”, disse Isabel suavemente. “O António estaria orgulhoso. Eu estou.”
Enquanto a festa recomeçava—agora mais animada—Sofia aproximou-se com uma taça de champanhe. “Dona Isabel? Esta é para si.”
Isabel aceitou-a. Através das janelas, a cidade cintilava lá em baixo. Algures, Mário seguia para uma cela. Ali em cima, duzentas pessoas que quase perderam tudo celebravam uma segunda chance.
Ela ergueu aE no ano seguinte, quando a empresa bateu novos recordes de lucros, Isabel ofereceu a todos os funcionários um dia extra de férias, em homenagem ao marido que sempre acreditou que o sucesso vem quando se trata as pessoas com dignidade.





