A minha vizinha não parava de insistir que via a minha filha em casa durante o horário escolar… então fingi que ia trabalhar e escondi-me debaixo da cama. Minutos depois, ouvi vários passos a descer o corredor.
Chamo-me Leonor Carvalho e sempre pensei que sabia tudo sobre a minha filha de 13 anos, Matilde. Após o meu divórcio, há dois anos, ficámos só as duas na nossa pequena casa num subúrbio tranquilo de Sintra. Ela era responsável, inteligente, educada; nunca me deu problemas. Pelo menos, era o que eu pensava.
Numa manhã de quinta-feira, enquanto saía com a minha mala de trabalho, a minha vizinha idosa, Dona Margarida, acenou-me.
— Leonor — disse com suavidade —, a Matilde anda a faltar às aulas outra vez?
Fiquei atordoada. — A faltar? Não… ela vai todos os dias.
Dona Margarida franziu a testa. — Mas eu vejo-a sempre a chegar a casa a meio do dia. Por vezes com outros miúdos.
O meu coração ficou pesado. — Isso não pode ser verdade — insisti, forçando um sorriso. — Deve estar enganada.
Mas a caminho do trabalho, o desconforto não me saía do peito. A Matilde andava mais calada ultimamente. Estava a comer menos. Estava sempre cansada. Tinha atribuído isso ao stress do secundário… mas e se fosse algo mais?
Nessa noite ao jantar, ela pareceu normal: educada, calma, assegurando-me que a escola estava “bem”. Quando repeti o que Dona Margarida dissera, a Matilde ficou tensa por uma fração de segundo, depois rejeitou a ideia com uma risada.
— Ela deve ter visto outra pessoa, Mãe. Eu estou na escola, prometo.
Mas eu percebi que algo dentro dela estava a tremer.
Tentei dormir, mas a minha mente não parava. E se estivesse a faltar às aulas? E se estivesse a esconder algo? Algo perigoso?
Às duas da manhã, eu sabia o que tinha de fazer.
Na manhã seguinte, aja como se tudo fosse normal. — Tem um bom dia na escola — disse ao sair pela porta às sete e meia.
— Tu também, Mãe — disse ela suavemente.
Quinze minutos depois, entrei no carro, desci a rua, estacionei atrás de uma sebe, e voltei para casa em silêncio. O meu coração batia com força a cada passo. Entrei silenciosamente, tranquei a porta e fui direta ao quarto da Matilde.
O quarto dela estava impecável. A cama perfeitamente feita. A secretária arrumada.
Se ela viesse a casa secretamente, não me esperaria aqui.
Então deitei-me no tapete e rastejei para debaixo da cama.
Era apertado, poeirento, e demasiado escuro para ver anything além do fundo do colchão. A minha respiração soava pesada naquele espaço pequeno. Silenciei o telemóvel e esperei.
9:00. Nada. 9:20. Ainda nada. As minhas pernas estavam dormentes. Será que tinha imaginado tudo?
Então…
CLIQUE. A porta da frente abriu-se.
Todo o meu corpo gelou.
Passos. Não eram uns, mas vários. Passos leves, apressados, furtivos, como crianças a tentar não fazer barulho.
Prendi a respiração.
E então ouvi:
— Shh, calados — sussurrou uma voz.
A voz da Matilde.
Ela estava em casa.
E não estava sozinha.
E o que quer que estivesse a acontecer lá em baixo… eu estava prestes a descobrir a verdade.
O som da madeira a ranger nas escadas foi a única coisa que quebrou o silêncio após o sussurro da Matilde. Um, dois, três pares de pés. Talvez quatro. O peso de cada passo ecoou no soalho como um martelo a bater directamente nos meus nervos. Fechei os olhos com força, tentando fundir-me com o chão, a rezar para que o pó acumulado sob a cama não me fizesse espirrar e me denunciasse.
— Tens a certeza que ela não volta? — perguntou uma voz masculina. Soava jovem, nos tramos da puberdade, com aquele tom frágil que oscila entre grave e agudo.
— Já te disse, Leonel. — A voz da Matilde era diferente da que eu conhecia. Não tinha a doçura, a hesitação típica da adolescência. Era fria, afiada, autoritária. — A Mãe é um relógio. Começa a trabalhar às oito, tem a pausa ao meio-dia, e não põe os pés nesta porta antes das cinco e meia. Para de te queixar.
Senti uma onda súbita de náusea. Aquela era a minha filha? A menina que me tinha pedido para lhe fazer chocolate quente na noite anterior porque tinha frio?
Os passos chegaram ao patamar e, para o meu horror, viraram directamente para o quarto dela. Para onde eu estava.
Vi os primeiros sapatos entrarem no meu campo de visão, limitado pela estrutura da cama. Ténis pretos, gastos e com lama seca. Depois, botas de estilo militar, demasiado grandes para quem as calçava. E, por fim, os ténis brancos imaculados da Matilde. Aqueles que eu própria lhe tinha comprado duas semanas antes como recompensa pelas boas notas.
— Fecha a porta — ordenou a Matilde.
O clique da fechada ecoou como um tiro. Agora eu estava encurralada. Se olhassem para debaixo da cama, não havia escapatória. Nenhuma janela estava aberta, nenhuma desculpa possível.
— Tira-o. Quero ver — disse a Matilde. Ela sentou-se na beira da cama, mesmo por cima da minha cabeça. O colchão cedeu ligeiramente, pressionando o meu ombro. Conseguia cheirar o seu perfume, uma mistura de baunilha e morango, o mesmo aroma inocente de sempre, mas agora misturado com o odor acre do medo que emanava dos meus próprios poros.
Ouvi o som de um fecho de correr pesado, como o de uma mochila desportiva, a ser puxado. Depois, o som de algo metálico a bater no chão de madeira. E papel. Muito papel.
— Está tudo aqui — disse o rapaz de botas. — A casa dos Silvas, a casa da Dona Margarida, e a casa do tipo novo na esquina.
— Dona Margarida? — A voz da Matilde pingava de desdém. — Aquela velha bisbilhoteira é prioridade. Quase me apanhou no outro dia. Está a tornar-se um problema.
O meu coração parou por um momento. Dona Margarida? O que é que eles lhe estavam a fazer?
— O que é que fazemos com ela, Mati? — perguntou uma terceira voz, feminina desta vez, a tremer. — Eu não quero… tu sabes, não quero que ninguém se magoe a sério. Dissemos que era só entrar e sair.
— Cala-te, Sara — rosnou a Matilde. O colchão rangeu quando ela se inclinou para a frente. — Ninguém se magoa se fizerem o que devem. Mas a velha Margarida tem olhos em todo o lado. Precisamos de a assustar. Ou pelo menos garantir que ela para de olhar pela janela.
Do meu esconderijo, vi uma mão deixar cair algo no chão perto dos chinelos da Matilde. Era um pé-de-cabra. Um pé-de-cabra de ferro, enferrujado na ponta. E ao lado caíram várias molas de notas presas com elásticos, e o que pareciam ser joias: um relógio de ouro, vários colares de pérolas, anéis com pedras que brilhavam mesmo na penumbra debaixo da cama.
Levei a mão à boca para abafar um grito. Eles não estavam a faltar às aulas para fumar cigarros ou beber cerveja roubada. A minha filha, a minha pequena Matilde, liderava umApoiei-me na ombreira da porta, o coração a bater com tanta força que julguei que as costelas me iam partir, e preparei-me para enfrentar o destino que a minha própria filha me tinha traçado.





