A Noiva Rejeitada Que Escondeu Uma SurpresaEle descobriu que sob o saco estava a mulher mais bonita que já tinha visto, com um sorriso que prometia um amor capaz de curar todas as suas feridas.6 min de lectura

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O posto comercial em Vale Amargo estava mais barulhento do que o habitual naquela tarde.

Os homens amontoavam-se no alpendre de madeira, com as botas a baterem nas tábuas e as vozes roucas de aguardente e poeira. As carroças rangiam. Os cavalos bufavam. Lá dentro, alguém ria de forma demasiado alta.

João Silva mantinha-se afastado do ruído, encostado a um poste de amarrar cavalos, com os braços cruzados.

Ele tinha descido das montanhas apenas duas vezes naquele ano.

O alto e corpulento trapaceiro parecia deslocado entre os mercadores e prospetores. A sua casaca era feita de pele de veado. A barba era espessa, resultado de um Inverno passado sozinho na serra.

João gostava que assim fosse.

As montanhas não mentem.
Nem enganam.

As pessoas sim.

Mas hoje ele tinha vindo por algo invulgar.

Uma esposa.

Ou pelo menos… essa tinha sido a ideia.

Seis meses antes, um dos mercadores que passava pelo seu vale tinha sugerido.

“A serra não é lugar para um homem sozinho para sempre,” dissera o mercador. “Há muitas mulheres no Leste à procura de maridos por cá. Noivas por correspondência.”

João tinha-se rido à primeira.

Mas as noites de Inverno são longas.

E silenciosas.

Então ele tinha escrito uma carta.

Agora estava parado fora do posto comercial onde várias noivas por correspondência tinham chegado para homens por todo o território.

Mas algo estranho estava a acontecer.

Dentro do edifício, vozes zangadas ergueram-se.

“Leva-a daqui!” gritou alguém.

“Eu paguei bom dinheiro, não por isso!”

Outro homem praguejou alto.

João franziu a testa e aproximou-se da porta.

Lá dentro, um pequeno grupo de homens rodeava uma jovem mulher parada no centro.

Ou melhor… uma jovem mulher com um saco de serapilheira amarrado sobre a cabeça.

As mãos da mulher estavam amarradas frouxamente à frente.

Ela estava perfeitamente imóvel.

Como se tivesse aprendido a não lutar mais.

Um homem magro num colete vistoso agitou uma pilha de papéis.

“Esta é a última,” anunciou. “Se ninguém a reclamar, mando-a de volta para o Leste.”

Um rancheiro cuspiu no chão.

“Porque é que ela tem a cabeça coberta?”

O agente limpou a garganta constrangido.

“O seu casamento anterior… recusou o acordo.”

“Porquê?” perguntou alguém.

O agente hesitou.

“Razões pessoais.”

Uma onda de risos percorreu a sala.

“Quer dizer que é feia,” disse outro homem de forma abrupta.

Mais risos se seguiram.

João apertou o maxilar.

A mulher não se mexeu.

Não falou.

Mas algo na forma como ela estava – pequena, silenciosa, à espera que estranhos decidissem o seu destino – fez algo torcer-se no peito de João.

“Quanto?” perguntou ele subitamente.

A sala silenciou.

O agente virou-se para ele.

“Está interessado?”

João encolheu os ombros.

“Talvez.”

O agente baixou a voz.

“Vinte mil réis.”

Vários homens bufaram.

“Demasiado por um saco misterioso!” gracejou alguém.

João meteu a mão no casaco e puxou as moedas.

Ela retiniram pesadamente na mesa.

A sala ficou em silêncio.

“Pois bem,” disse o agente rapidamente, apanhando o dinheiro, “parabéns, Senhor…?”

“Silva.”

“Parabéns, Senhor Silva. Ela é sua.”

As palavras pairaram no ar desconfortavelmente.

João caminhou na direção da mulher.

De perto, ela parecia ainda mais pequena do que ele tinha pensado.

O seu vestido era de lã cinzenta simples. As suas botas estavam gastas.

O saco de serapilheira cobria-lhe toda a cabeça, amarrado frouxamente no pescoço.

“Vamos,” disse João baixinho.

Ela não se moveu.

“Vens?” perguntou ele.

Uma voz suave respondeu de debaixo do saco.

“Sim… senhor.”

As palavras soaram treinadas.

Obedientes.

Isso deixou João desconfortável.

Ele desatou a corda que lhe prendia os pulsos.

“Podes andar sozinha.”

Ela acenou com a cabeça.

Lentamente, o estranho par saiu para a luz da tarde.

Cavalgaram para norte, em direção às montanhas.

João estava montado no seu cavalo enquanto a mulher montava uma mula mansa atrás dele.

O saco ainda lhe cobria a cabeça.

João tinha reparado que várias pessoas fitavam enquanto saíam da cidade.

Não os culpava.

Um homem da montanha a liderar uma mulher com um saco na cabeça parecia estranho, mesmo para os padrões da fronteira.

Após algumas léguas, João finalmente parou perto de um ribeiro.

Apeou-se e virou-se para ela.

“Podes tirar isso agora,” disse.

Ela congelou.

“Eu… não posso.”

“Porquê?”

A sua voz tremeu ligeiramente.

“Eles disseram… que o senhor devia decidir primeiro.”

João franziu a testa.

“Decidir o quê?”

“Se me quer mandar de volta.”

O silêncio encheu a floresta.

O vento sussurrou através dos pinheiros.

João aproximou-se.

“Menina,” disse gentilmente, “eu já paguei.”

“Não é por isso.”

As suas mãos tremiam.

“Eles disseram… a maioria dos homens muda de ideias quando vê.”

João suspirou.

“Tira-o.”

Ela levantou as mãos lentamente e desatou o nó que segurava o saco.

Por um momento, não se moveu.

Depois, a serapilheira escorregou.

João surpreendeu-se.

Não porque ela fosse feia.

Porque o lado esquerdo do seu rosto estava marcado.

Velhas cicatrizes de queimadura estendiam-se da têmpora até ao maxilar, torcendo a pele em relevos pálidos.

Mas o seu lado direito era notavelmente belo.

Olho azul claro. Traços suaves.

Ela observou a sua reação cuidadosamente.

À espera.

Preparando-se.

“Viu?” sussurrou.

João fitou-a por mais um momento.

Depois fez algo inesperado.

Encolheu os ombros.

“É só isso?”

A confusão atravessou o seu rosto.

“O senhor… não está zangado?”

“Porque estaria?”

“A maioria dos homens fica.”

João coçou a barba.

“Bem, a maioria dos homens naquela sala parecia parva.”

Ela pestanejou.

“O meu nome é Maria,” disse baixinho.

“João.”

Permaneceram em pé, desajeitadamente, por um momento.

Finalmente, João gesticulou na direção das montanhas.

“A minha cabana fica a cerca de duas horas por ali.”

“O senhor… ainda me leva?”

“A não ser que prefiras voltar.”

Maria olhou para a estrada distante.

Depois para as montanhas imponentes à frente.

“Não,” disse suavemente.

A cabana ficava num vale alto, rodeada por pinhal e picos nevados.

Quando Maria a viu pela primeira vez, ficou a olhar maravilhada.

“O senhor vive aqui sozinho?”

“Maioritariamente.”

Ele ajudou-a a descer da mula.

Lá dentro, a cabana era simples, mas quente.

Uma lareira de pedra.

Uma mesa rústica de madeira.

Prateleiras cheias de provisões.

Maria entrou lentamente, como se estivesse a entrar noutro mundo.

“Eu sei cozinhar,” disse subitamente. “E coser. E limpar.”

João pestanejou.

“Bom saber.”

“Vou trabalhar muito,” continuou nervosamente. “O senhor não se vai arrep—”

“Espera.”

Ela parou de falar.

João encostou-se à mesa.

“Não me deves nada.”

A sua testa enrugou-se.

“E não é preciso,” disse ele, “pois já és muito mais do que eu alguma vez esperei encontrar nestas montanhas.”

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