A Monstra que Escondia um PríncipeQuando sua bondade foi descoberta, o príncipe revelado a levou do vilarejo sombrio para uma vida de luz no palácio.6 min de lectura

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A tigela de sopa escorregou das mãozinhas da Gracinha e caiu no chão de terra batida. Mas ela nem reparou. Os olhos estavam fixos no homem encolhido no canto, a tremer, os lábios a moverem-se em palavras silenciosas que só ele ouvia. “Por favor”, sussurrou, empurrando a tigela com o pé descalço. “Tens de comer.”

Os outros miúdos riam-se do outro lado da rua poeirenta. “A Gracinha está outra vez a falar com o Louco do Daniel”, gritou um rapaz. “Deve ser maluca também.” A Gracinha ignorou-os. Como sempre fazia. Todas as manhãs, antes do amanhecer, enquanto a aldeia ainda dormia, guardava metade do pequeno-almoço, por vezes a sua única refeição, e levava-a ao homem a quem todos chamavam o Louco do Daniel.

Vivia por baixo da ponte partida perto do rio, com roupas esfarrapadas que outrora teriam sido finas, cobertas de lama e vergonha. Ninguém sabia de onde viera. Aparecera há dois anos a falar frases truncadas, a rir de coisas que só ele via, por vezes a gritar para o céu. Os anciãos da aldeia diziam que estava amaldiçoado. As mães puxavam os filhos para longe quando ele vagueava pelo mercado.

Os rapazes atiravam-lhe pedras, mas a Gracinha via algo diferente. Via as mãos a tremer-lhe quando tinha fome. Via a tristeza escondida por trás daqueles olhos confusos. Via uma pessoa. “Toma”, disse suavemente, colocando a tigela à frente dele. “Fiz eu. Está boa.”

A cabeça do Daniel ergueu-se. Por um segundo, os olhos clarearam e ele fitou-a. Olhou-a verdadeiramente, com algo que parecia gratidão. Depois, o nevoeiro voltou e ele agarrou a tigela, comendo como um animal esfomeado. A Gracinha sorriu. “Trago mais amanhã.” Virou-se para sair, o estômago a roncar. Os outros órfãos da casa da Mãe Bênção já estariam a acabar o pequeno-almoço.

Ela teria de explicar outra vez porque é que não estava com fome. Porque é que dera a sua comida ao louco que toda a gente odiava. “Estás a desperdiçar a tua bondade”, disse-lhe a Mãe Bênção essa tarde, abanando a cabeça. A Mãe Bênção dirigia o orfanato, um pequeno casarão onde doze crianças dormiam em esteiras e partilhavam duas refeições por dia, quando havia. Era rigorosa, mas justa. O rosto marcado pelo peso de cuidar de crianças que ninguém queria. “Esse homem está para lá da ajuda, Gracinha. Guarda as tuas forças para ti.”

“Mas, Mãe, e se ele tiver fome?”
“Todos temos fome, menina.” A voz da Mãe Bênção suavizou-se. “Tens o coração maior que eu alguma vez vi, mas o mundo vai parti-lo se não tiveres cuidado.”
A Gracinha anuiu, mas não parou. Não conseguia. Algo dentro dela não o permitia.

A aldeia de Riofundo ficava na ponta do reino, onde as leis do rei pareciam distantes e a sua misericórdia ainda mais. A maioria das pessoas aqui sobrevivia. Não vivia. Trabalhavam nos campos, vendiam mercadorias no mercado e tentavam não atrair problemas. E o Louco do Daniel era problema.

“Ele está pior”, disse o Senhor Salomão numa tarde na praça da aldeia. Era um mercante abastado, gordo e ruidoso, o tipo de homem que acreditava que o dinheiro o tornava importante. “Assustou a minha filha ontem, só a olhar para ela com aqueles olhos selvagens. Tem de se fazer alguma coisa.”
“O que sugere?”, perguntou o Regedor Okoy, o chefe da aldeia. Um homem magro com um rosto afiado e ambições afiadas.
“Expulsem-no. Ele não é daqui. Provavelmente é um ladrão ou coisa pior.”
“Ele só está confuso”, disse a Gracinha baixinho, da beira da multidão. Passava por ali, a caminho de casa, mas não conseguiu calar-se. Todos se viraram para a olhar. Uma órfã de doze anos, magrinha e pequena, com remendos no vestido e lama nos pés.
O Senhor Salomão riu-se. Um som cruel. “A órfã fala. Diz-me, rapariga, se ele magoar alguém, vais assumir a responsabilidade?”
“Ele não vai magoar ninguém”, disse a Gracinha, a voz firme, embora o coração bater com força. “Ele só está perdido.”
“Perdido?” O Senhor Salomão aproximou-se, a sua sombra a cair sobre ela. “Ele é louco. Perigoso. És uma criança tola a brincar com o fogo.”
O Regedor Okoy levantou a mão. “Chega. A miúda não quer mal. Mas o Salomão tem razão. Vamos vigiar este louco de perto. Se causar problemas a sério, expulsamo-lo.”

A Gracinha sentiu o peito apertar. “Expulso” significava espancado, enxotado para a floresta, deixado para morrer. Já tinha visto acontecer a pessoas que a aldeia decidira que eram problemas.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Olhou para o teto do orfanato, a ouvir a respiração das outras crianças, e tomou uma decisão. Iria proteger o Daniel de alguma forma.

Na manhã seguinte, levou-lhe comida como sempre. Mas desta vez, levou também um balde de água e um trapo.
“Deixa-me ajudar-te”, disse com gentileza. O Daniel olhou para ela, os olhos a pestanejar de confusão. Mas não se afastou quando ela lhe limpou cuidadosamente o rosto e as mãos. Por baixo da sujidade, conseguia ver que ele era mais novo do que pensava, talvez trinta anos, com traços fortes e cicatrizes nos pulsos que pareciam antigas e profundas.
“Quem és tu?”, sussurrou, não esperando resposta.
“Partido”, disse ele subitamente, a palavra clara e nítida. “Partido, partido.”
O coração da Gracinha apertou. “Não estás partido. Só estás magoado.”

Nas semanas seguintes, a Gracinha caiu numa rotina. Alimentar o Daniel. Limpá-lo quando ele permitia. Sentar-se com ele quando parecia assustado. Falava-lhe do seu dia, dos outros órfãos, dos seus sonhos de ser professora um dia para poder ajudar crianças como ela. Não sabia se ele entendia, mas não importava. Ele estava a ouvir. Percebia pela forma como a respiração dele abrandava, como os tremores paravam quando ela estava por perto.

Então, uma manhã, tudo mudou. A Gracinha chegou à ponte e encontrou o Daniel de pé, realmente erecto, a olhar para o rio com uma expressão que nunca lhe vira antes, quase pensativa.
“Daniel”, chamou suavemente.
Ele virou-se para ela e, pela primeira vez, os olhos estavam completamente límpidos.
“Porquê?”, perguntou, a voz rouca de tanto não usar, mas firme. “Porque é que me ajudas?”
A Gracinha pestanejou, chocada. Ele nunca dissera uma frase completa antes.
“Porque… porque precisavas de ajuda.”
“Toda a gente me odeia.”
“Eu não.”
O rosto dele procurou mentiras, truques. Mas a Gracinha apenas sorriu. Aquele mesmo sorriso gentil que sempre lhe dera.
Algo na expressão do Daniel quebrou. Os olhos encheram-se de lágrimas e ele virou-se rapidamente, envergonhado.
“Eu não te vou magoar”, disse baixinho. “Prometo. Não vou. Não vou magoar ninguém.”
“Eu sei”, disse a Gracinha. “Sempre soube.”

Mas a aldeia não sabia, e não queria saber.
Três dias depois, aconteceu algo terrível.O armazém do Senhor Salomão ardeu durante a noite, e pela manhã metade das suas mercadorias não passava de cinzas e fumo.

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