A manhã em que um simples pedido despertou um coração frio e mudou três vidas para sempre6 min de lectura

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**O HOMEM QUE NINGUÉM SE APROXIMAVA**

Romário Silva era o tipo de homem que as pessoas evitavam sem pensar. Se o viam passar, cruzavam para o outro lado da rua.

Frio. Distante. Sempre de terno impecável e com um rosto impenetrável.

Sua mansão era enorme, cheia de funcionários que se moviam em silêncio de um cômodo para outro. E, ao mesmo tempo, era completamente vazia.

Ninguém jamais se sentou à mesa com ele.
Ninguém o esperava nas noites.
Ninguém se atrevia a perguntar se ele estava bem.

Até que, num sábado de manhã, uma menina de seis anos fez o que ninguém mais teve coragem.

**”POSSO TOMAR CAFÉ COM O SENHOR?”**

Romário estava sentado à cabeceira da mesa, navegando no telemóvel. A mesa estava posta com pães, frutas, sumos e um belo bolo de cenoura que ele quase nunca tocava.

Foi então que uma voz pequena quebrou o silêncio.

“Posso tomar café com o senhor?”

Ele ergueu os olhos, irritado no início.

Lá estava ela — pequenina, com cabelos loiros desalinhados, uma mochila cor-de-rosa pendurada em um ombro e olhos azuis enormes cheios de curiosidade enquanto ficava de pé ao lado da cadeira vazia.

“Como entrou aqui?”, perguntou ele, com voz gelada.

“Pela porta da cozinha”, respondeu a menina, como se fosse óbvio. “A minha mãe trabalha aqui. Ela foi buscar remédios para o senhor, mas eu estava com fome… e vi o bolo. E o senhor está sozinho. Ninguém devia tomar café sozinho.”

Romário não respondeu. Não porque estivesse zangado — mas porque algo congelado dentro dele se mexeu. Era como se alguém tivesse batido numa porta dentro do seu peito.

“A sua mãe sabe que você está aqui?”, insistiu.

Ela mordeu o lábio.

“Ela mandou eu ficar na despensa… mas eu vi o bolo e…” Os olhos dela pousaram na mesa com desejo. “Posso ficar só um pouco e depois volto, prometo.”

O olhar dele desviou-se para a cadeira vazia ao seu lado. Ninguém se sentara ali em três anos.

Desde o acidente.
Desde que a mulher e a filha, Isabel, morreram.
Desde que transformara a casa num túmulo.

Não sabia por que disse aquilo — mas disse.

“Senta.”

Os olhos da menina iluminaram-se.

“A sério?”

Antes que ele mudasse de ideia, ela já estava subindo na cadeira, largando a mochila no chão. As perninhas balançavam, tão curtas que não alcançavam o chão.

“Uau…”, murmurou, admirando a mesa farta. “É sempre assim?”

“Sempre.”

“E tudo isto é só para o senhor?”

“Sim.”

Ela pegou um pedaço de bolo com a mão, sem esperar permissão, e deu uma mordida grande, fechando os olhos de prazer.

“É tão bom…”, disse, com a boca cheia. “A minha mãe às vezes faz bolo, mas não fica tão fofo. Não temos batedeira.”

Romário percebeu que estava apenas a observá-la — como comia, como falava, como olhava diretamente para ele sem medo ou reverência.

Como se ele não fosse o homem intimidante que todos temiam…
Apenas um homem a tomar café.

**”ENTÃO O SENHOR TAMBÉM ESTÁ SOZINHO”**

Depois de um momento, ele fez a pergunta que insistia em sair.

“Como te chamas?”

“Matilde. E o senhor?”

“Romário.”

“O senhor tem filhos?”, perguntou ela, com a franqueza inocente das crianças.

O peito dele apertou. Imagens vieram à mente: o carro, a chuva, a chamada telefónica, a cadeirinha vazia no banco de trás… o berço que nunca mais fora usado.

“Não”, mentiu, a voz mais áspera do que pretendia. “Não tenho filhos.”

Matilde olhou para ele com uma seriedade que não combinava com a idade.

“Então o senhor também está sozinho… como eu e a minha mãe.”

Antes que ele respondesse, a porta abriu-se.

“Matilde!”

Lurdes — a empregada que trabalhava lá há três anos — entrou apressada, pálida.

“Sr. Silva, eu… peço imensa desculpa, ela…”

Parou ao ver a cena: a filha sentada à mesa, comendo bolo… e o patrão ao lado dela, calmo, sem gritar ou expulsá-la.

“A sua filha perguntou se podia tomar café comigo”, disse Romário, surpreendendo a si mesmo, “e eu disse que sim.”

Lurdes ficou ainda mais pálida.

“Juro que não foi de propósito, senhor. Ela saiu da despensa, eu…”

“Ela estava com fome”, interrompeu ele, levantando-se. “E tem seis anos. Não sou um monstro.”

Mas, no fundo, sabia que, durante muito tempo, tinha agido como um.

Virou-se para a menina.

“Termina o teu bolo, Matilde. E da próxima vez, diz à tua mãe para te trazer pela porta da frente.”

“Então posso voltar?”, perguntou ela, com esperança nos olhos.

Ele segurou o olhar dela por um instante. Algo se abriu dentro dele.

“Podes.”

Saiu rapidamente da sala, antes que alguém visse a emoção que ameaçava transbordar.

Nenhum dos dois sabia que aquele café simples não era apenas um momento de cortesia — era o primeiro sinal de uma história que mexeria em feridas antigas, desencadearia uma guerra numa família poderosa… e lhes daria uma segunda chance na vida.

**O ENVELOPE NO BALCÃO**

No sábado seguinte, às sete em ponto, Romário surpreendeu-se a olhar para a cadeira ao seu lado.

“A tua filha não vem hoje?”, perguntou a Lurdes, tentando soar casual.

“Ela está na escola, senhor. Começa às sete e meia.”

Uma sombra de desapontamento cruzou o rosto dele. Tão rápida que quase ninguém notaria. Mas Lurdes notou.

Mais tarde, enquanto polia a prataria, ouviu soluços baixos atrás da porta do escritório.

Era ele.

O homem que nunca mostrava nada, que sempre mantinha controle, estava a chorar em silêncio, convencido de que estava sozinho.

Foi aí que Lurdes entendeu que a filha tinha tocado numa ferida que ainda sangrava.

Naquela noite, ao sair, encontrou um envelope branco no balcão da cozinha, com o nome dela escrito a mão.

Dentro, havia dinheiro — muito mais que o seu salário mensal. E uma nota curta:

*”Para a batedeira e o que mais precisarem.
R.S.”*

Matilde tinha mencionado a batedeira à mesa.

Ele ouvira.
Importara-se.

**”DESENHEI O SENHOR FELIZ”**

No sábado seguinte, Matilde chegou com o melhor vestido — um amarelo desbotado que Lurdes costurara à mão. Segurava um desenho cuidadosamente dobrado.

Desta vez, Romário já esperava na sala de jantar. Mandara preparar panquecas, frutas cortadas em estrelas e chocolate quente com marshmallows.

“Bom dia!”, cantou Matilde. “Trouxe um desenho para o senhor.”

Ele pegou-o com cuidado. Figuras de pauzinhos, flores, um sol enorme e uma pessoa sorridente no centro.

“Sou eu?”, perguntou, a voz estranhamente rouca.

“Sim. Desenhei o senhor feliz, porque o senE, assim, o homem que ninguém se aproximava descobriu que o amor nem sempre chega com grandiosidade, mas às vezes em pequenos gestos, como uma criança a partilhar o seu café e um pedaço de bolo.

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