Ela esfregava o chão para sobreviver. Ele era dono de metade do Porto e enterrava os seus inimigos sem hesitar. Ela fugia de um monstro que jurou matá-la. Ele já perdera tudo o que amava e contava os dias até a morte o levar também. Mas quando uma mãe desesperada, escondendo a sua bebê doente, tropeçou na mansão do homem mais perigoso da cidade, nenhum deles esperava o que aconteceria a seguir.
Chamam-lhe Fantasma porque quem o cruza desaparece sem deixar rasto. No entanto, este assassino de sangue-frio, que nunca demonstrou piedade, descobriu-se incapaz de desviar o olhar de uma menina de oito meses com uns olhos que lhe lembravam o filho que enterrara. O que acontece quando o homem que todos temem se torna o único em que ela pode confiar? O que sucede quando um coração de pedra começa a rachar?
Uma noite de junho no Porto era tão fria que o hálito parecia gelar no instante em que saía da boca. Beatriz Silva estava de joelhos, a esfregar o chão de uma casa de banho no 12.º andar de um arranha-céus na Avenida da Boavista, quando o telemóvel vibrou no bolso.
Ela olhou para o relógio na parede: cinco da manhã. Ninguém ligava àquela hora a menos que algo estivesse terrivelmente errado. O seu coração apertou-se em pânico ao ver o número da creche a brilhar no ecrã. Apressadamente, tirou as luvas de borracha, as mãos a tremer tanto que mal conseguiu atender.
A voz da educadora do outro lado era monótona e distante, como se lesse um comunicado oficial. A Leonor tivera febre alta desde a meia-noite. A bebê não parava de tossir. A política da creche era clara: não podiam aceitar uma criança com sinais de doença. Beatriz tinha de a ir buscar. Imediatamente.
Antes que Beatriz pudesse articular uma palavra, um pedido, uma súplica, a chamada terminou. Ela levantou-se de um salto, o mundo a girar à sua volta. Leonor. A sua pequena filha de oito meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.
Beatriz saiu a correr do edifício sem avisar ninguém, lançando-se na escuridão gélida. Uma chuva miudinha e persistente começara a cair, as gotas a chicotear-lhe o rosto como agulhas minúsculas. Ela correu três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi. Quando finalmente chegou à creche, os seus lábios estavam azuis e as pernas, dormentes.
Leonor estava nos braços da educadora, a carinha corada pela febre. Os seus choros fracos soavam como os de um gatinho abandonado. Beatriz pegou na filha ao colo, sentindo o calor a irradiar do pequeno corpo através das finas camadas de roupa. A sua filha estava a arder em febre.
Ela carregou Leonor de volta para o quarto alugado e decadente numa pensão em Paranhos. O compartimento mal tinha dez metros quadrados, as paredes manchadas de bolor e humidade, a janela remendada com fita-cola porque o vidro se partira há muito tempo. O aquecedor estava avariado há duas semanas. O senhorio prometera consertá-lo, mas nunca apareceu.
Beatriz deitou Leonor na cama, envolveu-a em todos os cobertores que possuía e abriu o armário dos medicamentos. Vazio. Usara a última dose do antitérmico na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas quentes escorreram pelas suas faces enquanto observava a sua filha a contorcer-se em dor febril.
O telemóvel vibrou novamente. Desta vez, era a empresa de limpeza. Beatriz atendeu e a voz do seu supervisor soou, áspera e irritada. Onde é que ela estava? Porque é que abandonara o turno? Beatriz tentou explicar sobre a Leonor, sobre a febre, sobre precisar de um dia de falta.
O supervisor interrompeu-a. Havia um trabalho especial hoje, um cliente VIP, uma mansão em Foz do Douro. Se ela não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.
Beatriz quis gritar. Quis atirar o telefone contra a parede, mas não pôde. Se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Leonor, nem para os remédios. Ela e a sua filha estariam na rua, neste inverno brutal. E o Rui, o seu ex-marido violento que a perseguia pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca.
Beatriz olhou para Leonor, que adormecia e acordava, exausta pela febre. Ela não tinha com quem deixar a sua filha. A sua mãe estava morta. Os amigos haviam desaparecido. Estava sozinha numa cidade de um milhão e meio de habitantes, sem uma única mão para a ajudar.
Ela tomou a única decisão que podia.
Beatriz vestiu Leonor com camadas extras de roupa, envolveu-a em três cobertores e colocou-a no carrinho de bebê frágil que comprara numa feira da ladra por vinte euros. Enfiou um biberão, fraldas e o antitérmico que pedira emprestado a uma vizinha na sua bolsa. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na chuva miudinha e cinzenta.
O endereço na mensagem levou-a a Foz do Douro, onde viviam as pessoas mais ricas do Porto. Beatriz nunca lá pusera os pés antes. Passou por ruas impecavelmente limpas, montras de lojas de luxo, carros importados alinhados nas calçadas. Sentia-se como uma nódoa numa pintura perfeita.
Quando parou em frente ao endereço indicado, o seu coração quase parou. Diante dela, erguia-se uma mansão colossal, escura como a noite, com portões de ferro imponentes esculpidos com cabeças de leões a rugir. Beatriz não sabia que estava diante dos portões do inferno, e o seu dono esperava-a lá dentro.
Beatriz ficou parada diante do portão de ferro por um longo momento, sem coragem de entrar. Leonor resmungou no carrinho, os seus choros fracos engolidos pelo vento e pela chuva. Beatriz respirou fundo e empurrou o pesado portão. Ele abriu-se sem um ruído, como se perfeitamente lubrificado, como se convidasse a sua presa a entrar.
Um caminho de pedras negras conduziu-a por um jardim árido. Estátuas de pedra estavam espalhadas por ambos os lados, os seus rostos frios salpicados de chuva, os seus olhos vazios parecendo seguir cada passo dela. Beatriz estremeceu e puxou o cobertor com mais força sobre o rosto de Leonor. Ela andou mais rápido, as rodas do carrinho a bater contra as pedras, o som a ecoar pela quietude.
A porta da frente da mansão era de carvalho maciço, três vezes a sua altura, esculpida com padrões intrincados que ela não conseguia reconhecer. Beatriz procurou por uma campainha, mas não encontrou nenhuma. Empurrou levemente, e a porta abriu-se como se a casa estivesse à sua espera.
Lá dentro, Beatriz teve de parar para os seus olhos se ajustarem à penumbra. Então ela viu, e esqueceu como respirar. O salão principal era vasto como uma catedral. O teto altíssimo, com um enorme lustre de cristal suspenso no ar. Milhares de cristais capturavam o brilho fraco de velas espalhadas pelo espaço. O chão de mármore preto brilhava como um espelho, refletindo a sua figura pequena, suja e perdida em meio ao luxo frio. Ladeando a escadaria, havia antigas pinturas a óleo em molduras douradas, rostos nobres aE o Fantasma, que outrora enterrava os seus inimigos, encontrou a sua redenção nos frágeis braços de uma criança e no amor incondicional de uma mulher que lhe mostrou que mesmo os corações mais endurecidos podem voltar a bater com esperança.





