A luz que entrava pelas janelas de chão até ao teto da nossa casa em Cascais não era quente nem aconchegante.
Era uma luz pálida e incómoda, que iluminava cada partícula de pó pairando no ar e, com mais força, cada sombra de exaustão marcada no meu rosto ao me ver refletida no espelho.
Parecia uma estranha, uma versão esgotada e frágil da mulher que eu tinha sido apenas alguns meses antes.
Chamo-me Inês Vaz, tinha vinte e oito anos, mas sentia-me décadas mais velha. Tinha dado à luz exatamente seis semanas antes, e ainda me recuperava de ter tido trigémeos: três lindos e extremamente magros meninos chamados Tomás, Francisco e Duarte.
O meu corpo já não me pertencia, transformado de maneiras que ainda estava a entender: mais macio onde antes era firme, esticado e marcado por cicatrizes prateadas que contavam a minha jornada até à maternidade, resultado da cesariana de emergência que salvou todas as nossas vidas. A privação de sono era tão profunda que o quarto parecia inclinar-se quando virava a cabeça demasiado rápido.
Vivia num estado de cansaço constante, a gerir a logística esmagadora de cuidar de três bebés ao mesmo tempo: horários de amamentação que se sobrepunham caoticamente, a rotina interminável de fraldas, biberões e choro, e a sucessão de amas que desistiam a cada duas semanas, porque afinal cuidar de trigémeos era demasiado até para profissionais.
A nossa casa, apesar dos seus amplos 200 metros quadrados, sentia-se sufocantemente pequena, cheia de equipamentos e acessórios necessários para três bebés.
E foi nesta cena —eu de pijama manchado de leite, olheiras fundas, cabelo mal atado, tentando acalmar um bebé a chorar enquanto os outros dois balouçavam no berço— que o Miguel, meu marido e CEO da TechNova, um dos maiores conglomerados tecnológicos do país, decidiu dar o veredito final sobre o nosso casamento.
Entrou no quarto com um fato impecável da Hugo Boss, que custava mais que o salário mensal de um trabalhador comum, cheirando a um perfume caro e a algo que só podia descrever como desprezo.
Nem olhou para os berços onde os nossos três filhos dormiam. Não perguntou como eu estava ou se precisava de ajuda. Apenas me fitou, com um olhar frio e calculista, como se eu fosse um ativo desvalorizado.
Sem cerimónias, atirou uma pasta grossa em cima da nossa cama. O barulho foi seco, como um martelo a bater num tribunal. Nem precisei de abrir para saber o que continha: “PETIÇÃO DE DIVÓRCIO” estava escrito na capa.
Miguel não deu justificações para acabar com os nossos sete anos de casamento. Nem usou as típicas “diferenças irreconciliáveis”. Em vez disso, optou por uma razão puramente estética, dita com uma crueldade que me tirou o ar.
Olhou-me de cima a baixo, demoradamente, fixando-se em cada “defeito”: as olheiras roxas de noites mal dormidas, a baba seca no meu ombro que não tivera tempo de limpar, a cinta pós-parto visível sob o pijama, o peso que ainda carregava por ter levado três bebés até ao fim.
“Inês”, disse, com nojo na voz. “Estás um espantalho. Desleixada, descuidada, completamente acabada. Tornaste-te repugnante para mim. E, sinceramente, estás a arruinar a minha imagem. Um CEO do meu nível precisa de uma mulher que represente sucesso, poder e elegância. Não esta… degradação que vejo agora.”
Pisquei devagar, demasiado cansada para processar a crueldade. “Miguel”, falei, com a voz rouca de sono, “eu acabei de ter os teus filhos há seis semanas. Os teus filhos.”
“Isso é problema teu, Inês”, respondeu friamente, ajustando os punhos de camisa. “Não meu.”
Depois, anunciou com teatralidade que tinha outra pessoa. “Conheci alguém”, disse, olhando-se no espelho e alisando o cabelo. “Alguém que entende as minhas necessidades. Alguém que valoriza a minha imagem, em vez de a destruir.”
Como se fosse combinado —porque claro, esta humilhação estava planeada—, a Joana apareceu à porta. A sua assistente de vinte e dois anos, contratada há oito meses, apesar dos meus receios no dia da entrevista.
Estava impecável, com um vestido de marca que custava mais que o meu primeiro carro, cabelo ondulado, maquilhagem impecável. Olhou para mim com um sorriso triunfante: a esposa abandonada, de pijama, com uma fralda na mão.
“Vamos para o escritório juntos”, disse Miguel, como se me desse ordens. “Os meus advogados tratarão de tudo. Podes ficar com a casa. Faz-te bem.”
Virou-se para a Joana, puxando-a para perto. A mensagem era clara: o meu valor, para ele, dependia apenas da minha aparência. Tornara-me descartável por ter sido mãe.
Saíram juntos. Os saltos da Joana ecoaram no mármore do corredor. Miguel nem olhou para os filhos. A porta fechou-se com um clique que ecoou pela casa silenciosa.
Ele achou que tinha saído vitorioso. Achou que eu estava demasiado esgotada para reagir.
Mas enganou-se.
Antes do Miguel, eu era uma escritora promissora, com um mestrado em Escrita Criativa e contos publicados em revistas literárias. Ele chamava à minha escrita um “passatempo fofo” e sugeriu que me dedicasse a organizar os seus eventos.
Quando a porta se fechou, algo dentro de mim acordou. A humilhação transformou-se em algo frio, calculista e forte.
Comecei a escrever.
Nos momentos em que os bebés dormiam, eu punha o portátil na cozinha e escrevia até cair de sono. Não um desabafo, não um pedido de pena. Uma obra de ficção: um romance psicológico devastador que chamei “O Espantalho do CEO”.
Era a história do Miguel, disfarçada. Mudei nomes —ele tornou-se “Rui Cardoso”, a TechNova virou a “Inovatech”, a Joana passou a “Júlia”—, mas cada detalhe era real: a nossa casa, os seus vícios, as manias de vaidade, os atalhos éticos que ele gabava nos jantares.
Incluí tudo: a gravidez, a cesariana, o desprezo pós-parto. E também os segredos dele: os esquemas financeiros, os concorrentes sabotados, os empregados descartados.
Quando o livro saiu, foi um sucesso moderado —até uma jornalista do *Expresso* notar as semelhanças. Publicou uma investigação comparando a ficção com a vida real do CEO da TechNova.
O escândalo explodiu. O livro disparou para o topo dos mais vendidos. O Miguel tornou-se o símbolo de tudo o que estava errado no mundo corporativo.
Ações da TechNova caíram. A empresa perdeu milhões. A SEC portuguesa investigou os esquemas que eu descrevera no livro. A direção demitiu-o por “dano irreparável à imagem da empresa”.
A Joana foi despedida por violar políticas internas.
O divórcio foi rápido. Fiquei com a custódia total dos miúdos.
E eu? Revelei-me como a autora. De pijama manchado de leite a capa da *Caras*.
O Miguel perdeu tudo.
Eu ganhei a minha vida de volta.
E ainda escrevi um segundo livro. De ficção, desta vez. Porque afinal, gosto mesmo é de contar histórias.





