A Jovem Sem Rumo e o Mendigo Que Não Era o Que PareciaEle ofereceu-lhe um emprego e um futuro que ela nunca poderia ter imaginado.6 min de lectura

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Ana caminhava apressada naquela manhã, não porque gostasse do jeito como o sol já pressionava com dedos quentes contra o seu pescoço, mas porque a esperança tinha transformado as suas pernas em tambores.

Na sua palma da mão, segurava um pequeno envelope castanho, daqueles que podem conter um futuro se a pessoa certa o abrir.

Dentro do envelope: uma fotocópia do seu currículo, uma carta de recomendação da senhora cujos pisos ela tinha esfregado durante três meses, e uma fotografia tipo passe onde Ana tinha tentado sorrir sem parecer que estava a implorar à câmara para ser gentil.

Ela segurava-o como se ele pudesse voar.

“Meu Deus,” sussurrou enquanto cortava a rua em direção à paragem de autocarro, “hoje é a minha oportunidade.”

Os medicamentos da sua mãe estavam quase a acabar. O senhorio tinha começado a bater à porta como um homem que gosta do som do medo. E os pequenos trabalhos de costura que Ana tinha feito no bairro, a bainhar calças e a arranjar fechos, não tinham sido suficientes. Nem perto.

Por isso hoje, ela ia a uma entrevista para empregada doméstica num grande condomínio do outro lado da cidade. Um trabalho a sério. Um salário fixo. Algo que pudesse transformar “sobreviver” em “viver.”

Na paragem de autocarro, as pessoas estavam em pequenas ilhas de impaciência. Uma mulher com um lenço amarelo na cabeça equilibrava um cesto de laranjas. Um estudante percorria o telemóvel com a seriedade de um banqueiro. Um homem discutia com o ar como se este lhe devesse dinheiro.

E então Ana viu-o.

Um homem idoso estava sentado à beira da estrada debaixo de uma pequena árvore, as costas encostadas ao tronco como se a árvore fosse a única coisa que ainda acreditava nele. As suas roupas pareciam ter suportado demasiadas estações sem misericórdia. As suas mãos tremiam—pequenos abanões que faziam os dedos parecer que tentavam agarrar-se a fios invisíveis.

Ana abrandou.

Ele levantou a cabeça como se os seus passos tivessem um ritmo familiar.

“Minha filha,” disse, a voz rouca e fraca, “por favor… tens algum dinheiro ou comida? Não como desde ontem.”

As palavras não aterraram suavemente. Bateram no peito de Ana e ficaram lá.

Ela verificou a sua bolsa rapidamente, mesmo sabendo já o que iria encontrar. Tinha contado o seu dinheiro duas vezes antes de sair de casa, uma vez com a sua mãe a observar, uma vez sozinha com a sua própria preocupação.

Restava uma única nota.

O dinheiro do transporte.

Se o desse, teria de caminhar mais de trinta minutos sob o sol implacável. Chegaria a suar. Pareceria cansada. E as pessoas que vivem atrás de portões altos por vezes confundem suor com preguiça.

Ana engoliu em seco.

“Pai,” começou suavemente, aproximando-se, “não tenho mais nada. Vou a uma entrevista de emprego. Este dinheiro é para o meu transporte.”

Ela virou-se para ir embora.

Mas os seus pés traíram-na. Moviam-se, sim, mas cada passo parecia carregar pedras.

Algo dentro dela recusou-se a deixá-la tornar-se mais uma pessoa que passava por ele como se fosse parte do pavimento.

Ana parou.

Ela voltou para trás.

O velho observou-a, os olhos arregalados com uma espécie de expectativa cautelosa, da maneira como alguém olha para as nuvens de chuva depois de uma seca—querendo acreditar, mas com medo de ficar desiludido.

“Pai,” disse Ana, e a palavra soou como uma decisão, “tome.”

Ela pressionou o dinheiro na sua palma. Os seus dedos fecharam-se lentamente à volta dele, ainda a tremer.

“Isto é o meu último dinheiro,” acrescentou, forçando um sorriso que ainda não sentia completamente, “mas é do coração. Não se preocupe. Eu vou a pé. Já caminhei uma hora antes. Eu dou conta.”

O velho olhou para ela como se ela lhe tivesse entregado algo mais pesado do que moeda.

“Não, minha filha,” protestou, empurrando a nota de volta um pouco, “precisa disto mais do que eu. Por favor, leve-a de volta.”

Ana abanou a cabeça.

“Pai, deixe-me ajudá-lo hoje. A fome dói. Deus vai ajudar-me a chegar à minha entrevista.”

Os olhos dele encheram-se de água. Ele piscou os olhos como um homem a tentar impedir a sua dignidade de se derramar.

“Você é uma criança rara,” disse baixinho. “As pessoas passam por mim todos os dias, mas nenhuma para. Que o Senhor guie os seus passos. Que o seu nome seja favorecido hoje. Você não vai em vão.”

Algo quente soltou-se dentro do peito de Ana.

Ela inclinou a cabeça respeitosamente. “Obrigada, Pai.”

Depois afastou-se, começando a sua longa caminhada.

Ela sentia o calor. Ela sentia o suor. Mas não se sentia zangada.

Ela sentia-se… leve.

Em paz, até.

Como se a bondade tivesse tirado algo das suas costas, mesmo que os seus pés agora tivessem de carregar mais.

“Meu Deus,” sussurrou novamente, “por favor, deixa-me conseguir este emprego.”

O condomínio era maior do que Ana esperava. Só o portão parecia ter um salário.

Ela chegou a suar, cansada, e a respirar um pouco depressa demais, mas endireitou os ombros antes de bater. Limpou o rosto com a ponta do seu lenço. Alisou o vestido.

Esta entrevista tinha de resultar.

A porta abriu-se bruscamente.

Uma mulher jovem estava lá, com o tipo de beleza que parecia cara e o tipo de expressão que parecia não paga. O cabelo estava perfeitamente penteado. O seu perfume chegou a Ana antes das suas palavras.

“Sim?” disse a mulher, já franzindo o sobrolho.

“Sou a Ana, Senhora,” respondeu Ana rapidamente. “Vim para a entrevista de empregada doméstica.”

Os olhos da mulher percorreram Ana da cabeça aos pés como um scanner à procura de defeitos.

Depois bufou, alto o suficiente para envergonhar o ar.

“Não precisamos de si aqui.”

Ana pestanejou. “Senhora?”

“Está atrasada,” disse a mulher secamente. “Muito atrasada.”

Ana tentou explicar. “Senhora, peço imensa desculpa. Houve—”

“Isso é problema seu,” interrompeu a mulher. “Devia ter saído de casa mais cedo. E olhe para si. Lenta. A suar. Menina suja. Não quero alguém como você na minha casa.”

Ana engoliu as lágrimas como se fossem remédio amargo.

“Por favor, Senhora,” implorou, “dê-me uma oportunidade.”

A mulher aproximou-se, apertando os olhos.

“Oportunidade para quê? Até parece uma caça-maridos. Não a quero perto do meu homem. Saia. Nunca mais venha aqui.”

“Senhora, por favor—”

A mulher empurrou a porta mais aberta, forçando Ana a recuar. Depois expulsou-a para fora, batendo a porta com tanta força que o som pareceu pessoal.

Ana ficou por um segundo na borda do condomínio, o seu envelope de repente a parecer uma piada.

Depois virou-se e começou a afastar-se, devagar, o coração a tremer.

Ela tinha caminhado sob o sol para nada.

E tinha dado o pouco dinheiro que poderia ter tornado esta rejeição menos humilhante.

Pestanejou com força, tentando não chorar em frente ao portão caro de alguém.

Foi então que um carro entrou no condomínio.

Um homem saiu—alto, aprumado, e carregando o canSaía dali, e não voltes mais.

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