A Jovem do Diretor Fez Algo que Chocou Todos no Prédio.6 min de lectura

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Aquela manhã, o edifício corporativo da Soluções Arya Portugal fervilhava de atividade. Executivos com fatas impecáveis cruzavam o átrio a falar ao telemóvel, o aroma do café acabado de moer flutuava no ar e os ecrãs anunciavam a chegada de clientes estrangeiros. Tudo tinha de sair perfeito.

Atrás do balcão da receção, Inês observava cada visitante com um olhar treinado: quem entrava, quem pertencia e quem não pertencia.

Às nove e um quarto, a porta giratória abriu-se lentamente.

Um rapaz entrou com um passo tímido. Devia ter uns vinte e cinco anos. A sua camisa estava limpa, mas gasta; uma manga mostrava um pequeno rasgão. Os sapatos pareciam ter caminhado demasiados quilómetros. Nas mãos, segurava uma pasta velha, marcada pelo uso.

Inês olhou para ele e a sua expressão mudou por um segundo.

— Posso ajudar-te? — perguntou com uma amabilidade automática.

O jovem respirou fundo.

— Bom dia. Venho para uma entrevista. Marcarem comigo para hoje… enviei a minha candidatura online.

Ela verificou no computador e encontrou o nome.

Afonso Mendes.

Leu-o outra vez, como se esperasse ter cometido um erro.

— Tu vens para a entrevista? — perguntou, tentando manter o tom profissional.

— Sim, menina.

Sem olhar muito para ele, apontou umas cadeiras ao fundo.

— Espera ali. Avisarei os Recursos Humanos.

Na fila de espera já estavam outros candidatos impecavelmente vestidos. Quando o Afonso se sentou, um deles murmurou:

— Aquele também vem para o lugar?

— De certeza que se enganou no sítio — respondeu outro entre risos baixos.

O Afonso ouviu tudo, mas manteve-se em silêncio. Os seus olhos detiveram-se numa fotografia enorme na parede: a diretora-geral da empresa, Beatriz Valente, a receber um reconhecimento empresarial. Aos vinte e sete anos, era conhecida por ter ajudado o pai a salvar a companhia quando esteve quase a falir.

Alguns empregados consideravam-na rigorosa. Outros diziam que era simplesmente justa.

Entretanto, no terceiro andar, a Beatriz revia relatórios quando o Rui, chefe dos Recursos Humanos, entrou.

— Engenheira, hoje terminamos as entrevistas para o lugar de programador.

— Que subam os candidatos — respondeu sem levantar a vista.

Em baixo, um a um, passaram os aspirantes mais bem-apresentados. Vinte minutos depois, só faltava o Afonso.

A Inês ligou com dúvida.

— Engenheira… falta um candidato, mas… não parece muito profissional.

Do outro lado, houve silêncio.

— Nome?

— Afonso Mendes.

Uma breve pausa.

— Que suba agora.

— Agora mesmo?

— Agora.

A Inês desligou surpreendida e olhou para o jovem.

— Podes subir. Esperam-te lá em cima.

Os outros candidatos observaram-no incrédulos enquanto ele caminhava para o elevador, agarrando a pasta com nervosismo.

Ao chegar ao terceiro andar, um corredor silencioso conduziu-o até um gabinete com um letreiro de vidro:

Direção-Geral — Beatriz Valente.

Uma assistente abriu a porta.

— Avança, por favor.

O Afonso bateu com suavidade.

— Posso entrar?

— Entra.

O gabinete era amplo, iluminado por janelas. Nada ostentoso, só ordem e funcionalidade. A Beatriz estava de pé junto à sua secretária com um portátil aberto.

Observou-o sem expressão de julgamento, simplesmente a avaliá-lo.

— Senta-te, Afonso.

Ele hesitou.

— Menina… a minha roupa não é a adequada…

— Disse para te sentares.

Soou firme, não cruel, como a deixar claro que ali importavam outras coisas.

O Afonso obedeceu, ainda nervoso.

A Beatriz girou o computador na sua direção.

— Revisei os teus projetos. Não vens de uma universidade famosa, mas o teu trabalho demonstra talento.

O jovem baixou o olhar.

— Aprendi sozinho… a fazer pequenos trabalhos.

Ela acenou com a cabeça.

— A minha equipa tem um problema técnico há dias. Podes tentar resolvê-lo agora mesmo, se quiseres.

O Afonso levantou a vista surpreendido.

— Agora?

— Agora.

Nos minutos seguintes só se ouviram as teclas. O rapaz parecia esquecer-se de onde estava; as suas mãos moviam-se com segurança, concentrado apenas no código.

A Beatriz observava-o em silêncio, e pela primeira vez naquela manhã, sorriu ligeiramente.

Porque o talento, pensou, raramente chega vestido de luxo.

Mas então algo mudou.

No ecrã apareceu uma mensagem inesperada: erro crítico no servidor principal.

A Beatriz franziu a testa. Aquilo não fazia parte do teste.

O seu telemóvel vibrou ao mesmo tempo. Era o Rui, dos Recursos Humanos, com a voz alterada.

— Engenheira, temos um problema grave. O sistema interno caiu. Não conseguimos aceder à base de dados. Vendas, logística… tudo está parado.

A Beatriz olhou para o ecrã do Afonso. Ele já não estava a resolver o exercício. As suas sobrancelhas estavam tensas, a analisar linhas de código que não pertenciam ao exame.

— O que estás a fazer? — perguntou ela.

O jovem engoliu em seco.

— A sua rede… está a ser atacada.

A Beatriz sentiu um golpe frio no estômago.

— Como sabes?

— Não é uma falha comum. Estão a tentar cifrar os servidores. Se conseguirem… vão perder tudo.

O telemóvel tocou novamente. Desta vez era o diretor de operações.

— Beatriz, temos uma mensagem em todos os equipamentos. Exigem dinheiro para libertar a informação.

Ransomware.

A pior palavra possível naquele momento.

Nesse dia chegavam investidores estrangeiros. Se a empresa mostrasse vulnerabilidade, o acordo de milhões podia vir abaixo.

A Beatriz tomou uma decisão imediata.

— Fechem os acessos externos. Desliguem tudo o que não for essencial — ordenou por telefone.

Depois voltou a olhar para o Afonso.

— Consegues pará-lo?

O jovem ficou imóvel uns segundos, como se não acreditasse no que estava a ouvir.

— Não sou empregado…

— Perguntei se consegues.

Silêncio.

Depois respirou fundo.

— Posso tentar.

A Beatriz chamou a sua assistente.

— Que tragam toda a equipa de sistemas aqui. Agora.

Cinco minutos depois, o gabinete estava cheio de engenheiros nervosos a olhar para os seus portáteis. Os ecrãs mostravam ficheiros bloqueados e relógios regressivos a exigir pagamento.

E no meio deles, sentado frente ao computador da diretora, estava o rapaz de roupa gasta.

Alguns empregados murmuravam.

— Quem é aquele?

— Um candidato…

— Um candidato vai salvar-nos?

Mas ninguém se atreveu a discutir. O tempo corria.

O Afonso falava enquanto trabalhava, quase para si mesmo.

— Entraram por uma porta antiga do sistema… alguém não atualizou um módulo velho… agora estão a replicar-se.

Um engenheiro respondeu chateado:

— Isso é impossível.

O Afonso apontou para o ecrã.

— Então expliquem-me aquilo.

Ninguém falou.

O contador mostrava quinze minutos para que a cifragem fosse total.

A Beatriz observava em silêncio, contendo a pressão. Sabia que cada segundo perdido significava milhões.

O Afonso pediu acesso administrativo.

— Preciso de permissões totais ou não consigo fazer nada.

O chefe de sistemas hesitou.

— Isso é informação sensível.

A Beatriz interveio.

— Dá-lhas.

— Mas engenheira…

— Agora.

As mãos do rapaz voaram sobre oMas quando as mãos do Afonso pousaram no teclado, a luz do dia começou a desvanecer rapidamente, não pelo cair da noite, mas por uma escuridão profunda e antiga que engoliu o edifício inteiro, silenciando até o último som de tecla.

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