Aquela manhã, o edifício corporativo da Soluções Arya Portugal fervilhava de atividade. Executivos com fatas impecáveis cruzavam o átrio a falar ao telemóvel, o aroma do café acabado de moer flutuava no ar e os ecrãs anunciavam a chegada de clientes estrangeiros. Tudo tinha de sair perfeito.
Atrás do balcão da receção, Inês observava cada visitante com um olhar treinado: quem entrava, quem pertencia e quem não pertencia.
Às nove e um quarto, a porta giratória abriu-se lentamente.
Um rapaz entrou com um passo tímido. Devia ter uns vinte e cinco anos. A sua camisa estava limpa, mas gasta; uma manga mostrava um pequeno rasgão. Os sapatos pareciam ter caminhado demasiados quilómetros. Nas mãos, segurava uma pasta velha, marcada pelo uso.
Inês olhou para ele e a sua expressão mudou por um segundo.
— Posso ajudar-te? — perguntou com uma amabilidade automática.
O jovem respirou fundo.
— Bom dia. Venho para uma entrevista. Marcarem comigo para hoje… enviei a minha candidatura online.
Ela verificou no computador e encontrou o nome.
Afonso Mendes.
Leu-o outra vez, como se esperasse ter cometido um erro.
— Tu vens para a entrevista? — perguntou, tentando manter o tom profissional.
— Sim, menina.
Sem olhar muito para ele, apontou umas cadeiras ao fundo.
— Espera ali. Avisarei os Recursos Humanos.
Na fila de espera já estavam outros candidatos impecavelmente vestidos. Quando o Afonso se sentou, um deles murmurou:
— Aquele também vem para o lugar?
— De certeza que se enganou no sítio — respondeu outro entre risos baixos.
O Afonso ouviu tudo, mas manteve-se em silêncio. Os seus olhos detiveram-se numa fotografia enorme na parede: a diretora-geral da empresa, Beatriz Valente, a receber um reconhecimento empresarial. Aos vinte e sete anos, era conhecida por ter ajudado o pai a salvar a companhia quando esteve quase a falir.
Alguns empregados consideravam-na rigorosa. Outros diziam que era simplesmente justa.
Entretanto, no terceiro andar, a Beatriz revia relatórios quando o Rui, chefe dos Recursos Humanos, entrou.
— Engenheira, hoje terminamos as entrevistas para o lugar de programador.
— Que subam os candidatos — respondeu sem levantar a vista.
Em baixo, um a um, passaram os aspirantes mais bem-apresentados. Vinte minutos depois, só faltava o Afonso.
A Inês ligou com dúvida.
— Engenheira… falta um candidato, mas… não parece muito profissional.
Do outro lado, houve silêncio.
— Nome?
— Afonso Mendes.
Uma breve pausa.
— Que suba agora.
— Agora mesmo?
— Agora.
A Inês desligou surpreendida e olhou para o jovem.
— Podes subir. Esperam-te lá em cima.
Os outros candidatos observaram-no incrédulos enquanto ele caminhava para o elevador, agarrando a pasta com nervosismo.
Ao chegar ao terceiro andar, um corredor silencioso conduziu-o até um gabinete com um letreiro de vidro:
Direção-Geral — Beatriz Valente.
Uma assistente abriu a porta.
— Avança, por favor.
O Afonso bateu com suavidade.
— Posso entrar?
— Entra.
O gabinete era amplo, iluminado por janelas. Nada ostentoso, só ordem e funcionalidade. A Beatriz estava de pé junto à sua secretária com um portátil aberto.
Observou-o sem expressão de julgamento, simplesmente a avaliá-lo.
— Senta-te, Afonso.
Ele hesitou.
— Menina… a minha roupa não é a adequada…
— Disse para te sentares.
Soou firme, não cruel, como a deixar claro que ali importavam outras coisas.
O Afonso obedeceu, ainda nervoso.
A Beatriz girou o computador na sua direção.
— Revisei os teus projetos. Não vens de uma universidade famosa, mas o teu trabalho demonstra talento.
O jovem baixou o olhar.
— Aprendi sozinho… a fazer pequenos trabalhos.
Ela acenou com a cabeça.
— A minha equipa tem um problema técnico há dias. Podes tentar resolvê-lo agora mesmo, se quiseres.
O Afonso levantou a vista surpreendido.
— Agora?
— Agora.
Nos minutos seguintes só se ouviram as teclas. O rapaz parecia esquecer-se de onde estava; as suas mãos moviam-se com segurança, concentrado apenas no código.
A Beatriz observava-o em silêncio, e pela primeira vez naquela manhã, sorriu ligeiramente.
Porque o talento, pensou, raramente chega vestido de luxo.
Mas então algo mudou.
No ecrã apareceu uma mensagem inesperada: erro crítico no servidor principal.
A Beatriz franziu a testa. Aquilo não fazia parte do teste.
O seu telemóvel vibrou ao mesmo tempo. Era o Rui, dos Recursos Humanos, com a voz alterada.
— Engenheira, temos um problema grave. O sistema interno caiu. Não conseguimos aceder à base de dados. Vendas, logística… tudo está parado.
A Beatriz olhou para o ecrã do Afonso. Ele já não estava a resolver o exercício. As suas sobrancelhas estavam tensas, a analisar linhas de código que não pertenciam ao exame.
— O que estás a fazer? — perguntou ela.
O jovem engoliu em seco.
— A sua rede… está a ser atacada.
A Beatriz sentiu um golpe frio no estômago.
— Como sabes?
— Não é uma falha comum. Estão a tentar cifrar os servidores. Se conseguirem… vão perder tudo.
O telemóvel tocou novamente. Desta vez era o diretor de operações.
— Beatriz, temos uma mensagem em todos os equipamentos. Exigem dinheiro para libertar a informação.
Ransomware.
A pior palavra possível naquele momento.
Nesse dia chegavam investidores estrangeiros. Se a empresa mostrasse vulnerabilidade, o acordo de milhões podia vir abaixo.
A Beatriz tomou uma decisão imediata.
— Fechem os acessos externos. Desliguem tudo o que não for essencial — ordenou por telefone.
Depois voltou a olhar para o Afonso.
— Consegues pará-lo?
O jovem ficou imóvel uns segundos, como se não acreditasse no que estava a ouvir.
— Não sou empregado…
— Perguntei se consegues.
Silêncio.
Depois respirou fundo.
— Posso tentar.
A Beatriz chamou a sua assistente.
— Que tragam toda a equipa de sistemas aqui. Agora.
Cinco minutos depois, o gabinete estava cheio de engenheiros nervosos a olhar para os seus portáteis. Os ecrãs mostravam ficheiros bloqueados e relógios regressivos a exigir pagamento.
E no meio deles, sentado frente ao computador da diretora, estava o rapaz de roupa gasta.
Alguns empregados murmuravam.
— Quem é aquele?
— Um candidato…
— Um candidato vai salvar-nos?
Mas ninguém se atreveu a discutir. O tempo corria.
O Afonso falava enquanto trabalhava, quase para si mesmo.
— Entraram por uma porta antiga do sistema… alguém não atualizou um módulo velho… agora estão a replicar-se.
Um engenheiro respondeu chateado:
— Isso é impossível.
O Afonso apontou para o ecrã.
— Então expliquem-me aquilo.
Ninguém falou.
O contador mostrava quinze minutos para que a cifragem fosse total.
A Beatriz observava em silêncio, contendo a pressão. Sabia que cada segundo perdido significava milhões.
O Afonso pediu acesso administrativo.
— Preciso de permissões totais ou não consigo fazer nada.
O chefe de sistemas hesitou.
— Isso é informação sensível.
A Beatriz interveio.
— Dá-lhas.
— Mas engenheira…
— Agora.
As mãos do rapaz voaram sobre oMas quando as mãos do Afonso pousaram no teclado, a luz do dia começou a desvanecer rapidamente, não pelo cair da noite, mas por uma escuridão profunda e antiga que engoliu o edifício inteiro, silenciando até o último som de tecla.





