A Faxineira, o Menino Perdido e o Segredo que os UniuAquele simples gesto de bondade desencadeou uma reviravolta de destino que nenhum dos três poderia ter previsto.3 min de lectura

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Estava descalço, a tremer de frio, e ninguém parava. Até que uma mulher da limpeza, encharcada, abriu a sua marmita — e um homem dentro de um carro preto viu tudo.

Lívia carregava um saco amassado com as sobras do jantar da casa onde trabalhava: um bocado de frango e duas batatas. O autocarro avariara, a chuva apertara, e ela seguiu a pé para o bairro social da Quinta do Mocho, em Lisboa, onde Dona Alzira, diabética, esperava o remédio e a comida.

Debaixo da marquise de uma loja de luxo, ela reparou num menino encolhido. Uniforme caro, mochila encharcada, pés gelados no pavimento. Os olhos, grandes de mais para tanta mágoa. Lívia agachou-se. “Ei, miúdo… estás sozinho?” Ele apenas anuiu, engolindo o choro.

“Como te chamas?” “Gonçalo”, sussurrou. “A minha mãe… faleceu.” A palavra saiu como uma pedra. “O meu pai não veio. Tentei encontrar o caminho e perdi-me.”

Lívia sentiu uma pontada antiga, recordando o dia em que também ficara sem rumo. Abriu o saco. Partiu o frango ao meio, ofereceu-lhe uma batata. “Senta aqui comigo. Não está quente, mas mata a fome.” Gonçalo hesitou, depois comeu com pressa, como se aquele carinho tivesse sabor.

“O teu pai não está zangado contigo”, disse Lívia, segurando-lhe o rosto. “Ele está com dor. E a dor confunde-nos.” Gonçalo atirou-se a um abraço, soluçando contra o uniforme impecável, agora manchado de chuva e esperança.

O som de uma travagem brusca cortou a rua. Um SUV preto parou. Um homem saiu a correr, o fato caro colado ao corpo. “Gonçalo!” A criança ergueu a cabeça. “Pai!” O homem, Artur Mendes, empresário conhecido no Porto, ficou paralisado ao ver a cena: o filho no chão, a comer sobras, protegido por uma desconhecida de mãos calejadas.

Desde que a esposa, Leonor, partira, Artur escondera-se no trabalho. Naquele dia, uma reunião prolongou-se, o telemóvel descarregou, e ele perdeu a hora. Ver Gonçalo ali foi como levar um murro no estômago no meio da chuva.

Artur aproximou-se devagar, sem voz. Lívia levantou-se, limpando as mãos no avental. “O senhor é o pai dele? Ele estava com fome.” Artur olhou para o saco rasgado e sentiu uma vergonha que ardia. “Eu… eu falhei.”

Lívia não pediu nada. Apenas ajeitou a mochila do menino e disse: “Leve-o para casa. Um banho quente. Uma história antes de dormir. Ele precisa de si.”

Quando ela se virou para ir embora, Artur chamou: “O seu nome?” “Lívia.” Ele repetiu, como quem grava um recomeço.

Três dias depois, Lívia esfregava o chão do apartamento dos patrões e ouviu a patroa a proibir que levasse sobras. À noite, dividiu pão seco com Dona Alzira e respirou fundo para não chorar.

Na manhã seguinte, um carro simples parou na viela. Artur desceu sem seguranças, com um envelope e um pedido. “Eu procurei-a. O Gonçalo só voltou a sorrir ao falar da sua voz. Quero oferecer-lhe trabalho a tomar conta dele. Ordenado justo, seguro de saúde para a sua mãe, e um apartamento perto da escola. Não é caridade. É gratidão… e necessidade.”

Lívia olhou para Dona Alzira, que apertou a sua mão. “Aceita, filha. Deus abre portas a quem abre o coração.”

Lívia aceitou. E naquele primeiro dia, Gonçalo correu para ela como se corresse para casa.

“Se acredita que nenhuma dor é maior que a promessa de Deus, comente: EU CREIO! E diga também: de que cidade está a assistir-nos?”

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