João Tavares olhou para a lista digital de convidados da noite mais importante da sua vida e fez o impensável. Com um simples toque do dedo, apagou o nome da sua esposa. Achava que ela era demasiado simples, demasiado comum e demasiado envergonhada para estar ao seu lado na gala Vanguard do bilionário. Pensou que estava a proteger a sua imagem. Não fazia ideia de que estava a assinar a sua própria sentença de morte.
Não sabia que a mulher que o esperava em casa, de calças de treino, não era apenas uma dona de casa. Não sabia que aquela gala não tinha sido organizada para ele, mas sim *por ela*. Quando as portas do grande salão se abriram, João não perdeu apenas a reputação—percebeu que tinha vivido à sombra de uma rainha, e essa noite, a rainha iria reclamar a sua coroa.
O ar no escritório no último andar da Tavares Enterprises cheirava a café expresso, couro caro e arrogância. João Tavares, um homem que recentemente aparecera na capa da *Forbes* com o título *”O Futuro da Tecnologia”*, estava junto à janela panorâmica, de frente para o horizonte cinzento de Lisboa. Ajustou os punhos da camisa, cujos botões dourados refletiam a luz ténue da tarde.
—Senhor, a lista final de convidados para a gala Vanguard vai para a gráfica em dez minutos —disse o seu assistente executivo, Marcos.
Era um jovem eficiente e atento, que já estava na empresa há tempo suficiente para ver as rachas que João ignorava. João virou-se e dirigiu-se à secretária de mogno.
—Deixa-me ver uma última vez.
Marcos entregou-lhe o tablet. João percorreu os nomes. Era um *”quem é quem”* da elite mundial: políticos, magnatas do petróleo, empresários do Silicon Valley e até membros da realeza. Era a noite pela qual trabalhara durante cinco anos. Não só estaria presente—seria o orador principal. Era esperado que anunciasse a fusão que o tornaria bilionário pela terceira vez.
O dedo dele parou num nome no topo da lista VIP: **Inês Tavares**. Os lábios de João contraíram-se ligeiramente. Uma mistura de irritação e vergonha encheu-lhe o peito. Pensou em Inês: doce, calada, a mulher que usava camisolas largas, que passava os dias a cuidar do jardim na quinta no Alentejo e cuja ideia de uma noite agitada era cozinhar pão de fermentação natural.
Era a mulher que o apoiara quando era um estudante sem um tostão no bolso. Sim, ela pagara a renda quando a sua primeira empresa falhou—mas isso era no passado. Agora era diferente.
—Ela não encaixa —murmurou para si mesmo.
—Senhor? —perguntou Marcos, confuso.
—Inês —disse João, com uma voz gelada. —Ela não está preparada para estas pessoas, Marcos. Sabe como ela fica. Fica num canto, com um copo de água na mão. Não sabe como se relacionar. Usa vestidos que parecem tirados de uma loja de centro comercial. Esta noite é sobre poder, sobre imagem.
João pensou na mulher que o esperava no átrio do Ritz-Carlton nesse momento: **Carolina Mendes**. Carolina era uma modelo que se tornara embaixadora de marca. Era inteligente, ambiciosa, e tão deslumbrante que capturava todos os olhares. Sabia rir de piadas sem graça, sussurrar nos ouvidos dos investidores e parecer perfeita ao seu lado nos flashes dos *paparazzi*.
—Apaga-a —ordenou João.
Marcos pestanejou, atónito.
—Apagar a senhora Tavares? Senhor, ela é a sua esposa. É a gala Vanguard. É costume os cônjuges—
—Disse para apagares —rosnou João, batendo com força no tablet. —Eu sou o CEO desta empresa, Marcos. Eu decido quem nos representa. Inês é um peso morto esta noite. Preciso de fechar o negócio com o Grupo Ventura. Se o Artur Ventura me vir com uma dona de casa que não sabe falar de macroeconomia, vai pensar que sou fraco. Apaga o nome dela. Remove-lhe a autorização de segurança. Se ela aparecer, não a deixes entrar.
Marcos hesitou, com uma expressão de desconforto no rosto. Gostava de Inês. Ela lembrava-se do seu aniversário quando João se esquecia. Enviava-lhe sopa quando ele estava doente. Mas precisava deste emprego.
—Como desejar, senhor Tavares —disse baixinho, tocando no ecrã. —Inês Tavares removida.
—Bom. —João ajustou a gravata, olhando para o seu reflexo. —Direi-lhe que o evento é só para homens, para os membros da diretoria. Ela é ingénua. Vai acreditar.
Pegou no casaco e dirigiu-se à porta.
—Manda o carro buscar a senhora Mendes. Ela vai acompanhar-me esta noite.
João saiu do escritório sentindo-se mais leve. Sentia-se poderoso. Tinha cortado o supérfluo. Estava pronto para conquistar o mundo. Não fazia ideia de que a notificação da remoção não fora apenas enviada aos organizadores do evento—fora também enviada para um servidor seguro e encriptado num escritório subterrâneo em Zurique, um servidor pertencente ao grupo detentor que, em segredo, possuía a maioria das ações da Tavares Enterprises.
E cinco minutos depois, no jardim da sua quinta no Alentejo, o telefone de Inês Tavares vibrou.
Inês limpou a terra das mãos no avental. Tinha 32 anos, traços suaves e olhos da cor de avelã. Para o mundo—e para o marido—ela era apenas Inês, a dona de casa, a órfã que tivera a sorte de casar com um homem em ascensão. A mulher calma, que se contentava em ficar nos bastidores. Pegou no telefone. Era um alerta.
**ALERTA: Acesso de convidado VIP revogado. Nome: Inês Tavares. Autorizado por: João Tavares.**
Inês ficou a olhar para o ecrã. Não chorou, não suspirou, não atirou o telefone. Em vez disso, a doçura nos seus olhos desapareceu, substituída por um frio absoluto. Deslizou o dedo para apagar a notificação e abriu outra aplicação—uma que exigia impressão digital, reconhecimento facial e um código de 16 dígitos.
O ecrã ficou preto e apareceu um brasão dourado: **O Grupo Aurora.**
O Grupo Aurora era uma empresa de capital de risco tão exclusiva que nem sequer tinha website. Controlava navios de carga, patentes farmacêuticas e startups tecnológicas. Há cinco anos, quando a primeira empresa de João afundava em dívidas, o Grupo Aurora interveio com um investimento anónimo de 50 milhões de euros. João pensou que impressionara um grupo de investidores suíços. Nunca soube que **Aurora** era o segundo nome de Inês. Nunca soube que o dinheiro que gastava, o apartamento onde viviam e a reputação de génio que construíra tinham sido cuidadosamente orquestrados pela mulher que acabara de apagar da lista de convidados por ser “demasiado simples”.
Inês tocou num contacto chamado apenas **”O Lobo”**.
—Senhora Tavares —respondeu imediatamente uma voz grave. Era Sebastião Viana, chefe de segurança e assuntos legais do Grupo Aurora. —Recebemos a notificação de remoção. Foi um erro?
—Não, Sebastião —disse Inês, mudando o tom de voz.
Sumira-se o tom suave e submisso que usava com João. Agora, a sua voz era firme, autoritária.
—Parece que o meu marido acha que sou um peso para a sua imagem.
—Cancelamos o financiamento da fusão? —perguntou Sebastião. —Podemos ac**Continuação em Português:**
_”E essa noite, meu caro João, vais aprender que a mulher que apagaste da tua lista é a mesma que te apagará da história,”_ sussurrou Inês, desligando o telefone e olhando para o horizonte enquanto o sol se punha, tingindo o céu de vermelho-sangue.





