O lustre na sala de estar dos Albuquerque não apenas brilhava — atuava. Diamantes de luz espalhavam-se pelo mármore e pelo vidro, pelos quadros com molduras douradas e pela escada polida que se curvava como uma promessa. O ar cheirava a dinheiro e a perfume caro, e a um tipo de silêncio que tinha aprendido a obedecer.
Leonor estava à beira daquele silêncio, com uma bandeja nas mãos e um nó no estômago.
Era apenas o seu terceiro dia na mansão, e já tinha aprendido as regras sem que ninguém as dissesse em voz alta: Não fales a menos que te dirijam a palavra. Não olhes a patroa nos olhos. Não faças perguntas. Não sejas notada.
Sê útil. Sê invisível. Sê grata.
Ela sabia ser invisível. Fora invisível a maior parte da sua vida.
Mas naquela noite, algo estava errado desde o momento em que a equipa foi ordenada a entrar na sala de estar, como se fossem móveis a serem rearrumados para um espetáculo. A cozinheira agarrava o seu avental como uma tábua de salvação. Os motoristas estavam rígidos, com as mãos atrás das costas. A governanta, Dona Berta, mantinha o rosto impassível, mas Leonor viu o aviso no modo como os seus dedos se apertavam e soltavam ao lado do corpo.
E no centro, como o sol à volta do qual toda a casa orbitava, estava Dona Isabel Albuquerque.
Isabel usava um vestido que cintilava quando se movia, o tipo de vestido que fazia uma pessoa sentir-se pobre só de olhar. O seu perfume anunciava-a antes da sua voz — doce e afiado ao mesmo tempo. Ela mantinha-se como uma rainha que nunca tinha sido questionada e não planeava começar essa noite.
No chão, à sua frente, de joelhos, a tremer como uma varinha verde, estava o Jamé, o velho porteiro.
O seu boné tinha caído. As suas mãos estavam abertas e a tremer, as palmas viradas para cima como se não tivesse mais nada a esconder. Leonor reconheceu-o instantaneamente. Ele foi a primeira pessoa que lhe tinha sorrido quando chegou, a primeira pessoa que dissera, “Bem-vinda, minha filha,” como se aquelas duas palavras a pudessem manter a salvo.
A voz de Dona Isabel cortou a sala.
“Queres roubar debaixo do meu teto?” — disse ela em voz alta, com um estalo seco, alto o suficiente para a casa toda ouvir. “Depois de tudo o que comeste aqui, ainda tens a lata de ser um ladrão.”
“Eu não o levei,” sussurrou o Jamé. A sua voz era pequena, quase engolida pelo espaço. “Minha senhora, eu juro. Não levei.”
“Cala-te,” rugiu Dona Isabel. “Pensas que a tua velhice te vai salvar? Pensas que as lágrimas vão lavar a vergonha?”
Ela virou ligeiramente a cabeça, os olhos pousando na fila de funcionários como se fossem objetos que ela pudesse partir por tédio.
“Tu,” disse ela, apontando para uma jovem empregada. “Traz a palmatória.”
A empregada estremeceu, depois saiu a correr. O som dos seus passos apressados no mármore pareceu uma contagem decrescente.
A garganta de Leonor apertou. Ela viu os ombros do Jamé a tremer. Ele não estava apenas assustado. Estava humilhado. Estava a ser reduzido, ali mesmo debaixo do lustre, em frente de pessoas que o tinham visto abrir portões, carregar malas, ficar sob a chuva, e ainda assim fazer uma vénia com respeito.
Dona Isabel aproximou-se, a sua sombra engolindo-o.
“Vou ensinar-te uma lição que nunca vais esquecer,” disse ela, e levantou a mão.
Leonor não o planeou. Ela não pensou, ‘Vou fazer algo corajoso agora’. Ela não se imaginou uma heroína. Ela apenas viu a mão a descer e algo antigo dentro dela — algo que enterrara durante anos — levantou-se e recusou-se a sentar novamente.
Porque ela já tinha visto aquela mão antes.
Não exatamente esta mão, não este pulso desta mulher, mas o mesmo tipo de poder. O mesmo tipo de crueldade vestida de “disciplina”. O mesmo tipo de sala cheia de testemunhas que fingiriam não ter visto nada.
O seu pai tinha morrido com aquele tipo de silêncio nos pulmões.
Leonor moveu-se.
Ela saiu de trás da fila de trabalhadores, quieta e simples no seu vestido castanho desbotado que não combinava com os uniformes impecáveis à sua volta. Ela era magra, de pele morena, cabelo puxado para um carrapito simples, sem joias, sem maquilhagem. Uma rapariga que parecia pertencer ao fundo.
Mas ela caminhou direita para o centro da sala como se tivesse sido chamada para lá.
Antes que alguém a pudesse parar, antes que qualquer guarda pudesse ladrar uma ordem, ela esticou o braço e agarrou o pulso de Dona Isabel.
A bofetada nunca chegou a aterrar.
Parou no ar, congelada — segurada.
Um suspiro agudo percorreu a sala como o vento por uma janela partida. Alguém arfou. A mão de alguém voou para a boca. Até o relógio de parede de repente soou mais alto.
Dona Isabel pestanejou como se o seu cérebro não conseguisse aceitar o que o seu corpo estava a sentir.
“O que é que acabaste de fazer?” sussurrou, as palavras mal saindo dos seus lábios.
Leonor não gritou. Não a insultou. Nem sequer pareceu zangada.
Ela parecia calma.
“Por favor,” disse Leonor, a voz firme mas respeitosa. “Não lhe bata.”
A sala quase colapsou com aquelas palavras.
*Não lhe bata.*
Simples. Calmo. Impossível.
O rosto de Dona Isabel contorceu-se, o perfume e a seda já não escondendo a tempestade por baixo.
“Tira a mão,” sibilou ela.
Leonor não soltou.
Em vez disso, olhou para o Jamé — os seus olhos húmidos, o queixo a tremer — e depois de volta para Dona Isabel.
“Minha senhora,” disse ela, “se ele roubou alguma coisa, chame a polícia. Verifique as câmaras. Reviste-o. Mas não o envergonhe assim.”
A cozinheira fez um som de sufoco. Os olhos da governanta arregalaram-se, suplicando a Leonor com um silêncio, ‘Estás louca?’.
A voz de Dona Isabel suavizou-se em algo doce e perigoso — o tipo de doçura que vem mesmo antes de uma facada.
“Então és a nova empregada,” disse ela.
“Sim, senhora,” respondeu Leonor.
“E estás a dizer-me o que fazer na minha própria casa?”
“Não, senhora,” disse Leonor rapidamente. “Estou a pedir-lhe que pare.”
Dona Isabel puxou o pulso, tentando libertar-se. Leonor segurou com mais força. Não de modo rude. Não violenta. Apenas inamovível.
Os olhos de Dona Isabel escureceram.
“Queres ser uma heroína?” perguntou ela lentamente. “Em frente a toda a gente?”
Leonor engoliu o medo como um remédio.
“Não, senhora. Eu só não quero que o magoe.”
Dona Isabel sorriu.
Não era um sorriso bondoso. Era o sorriso que as pessoas viam logo antes de serem despedidas, despejadas, arruinadas.
“Sabes o que eu faço às pessoas que me humilham?” perguntou ela.
Leonor hesitou. À sua volta, a equipa parecia estátuas. Ninguém se atrevia a respirar alto demais.
Dona Isabel inclinou-se, a voz baixa como veneno.
“Eu parto-as,” disse ela. “Parto-lhes os empregos. Parto-lhes o orgulho. Parto-lhes oMas quando o Sr. Albuquerque se virou para ela, o seu olhar não era de raiva, mas de um respeito recém-nascido, e Leonor soube que o seu único ato de coragem tinha quebrado um ciclo de medo que durava há demasiado tempo.





