15 de maio. Hoje, quase não consigo segurar a caneta. A dor ainda é uma sombra pesada, mas a luz começa a entrar.
Encontraram-me no quintal, encostado ao velho muro de tijolos, sem forças para mais um passo. Há horas que eu ali estava, com a Leonor e o Tomás ao colo, os dois enrolados em mantas, a chorar baixinho de fome e cansaço. O fato azul-escuro estava coberto de pó, a gravata desapertada, o rosto marcado por um desespero que me consumia por dentro.
A Gabriela surgiu à entrada do quintal, ainda com o seu uniforme escuro e o avental branco atado à cintura. Os seus olhos arregalaram-se ao ver-me naquele estado. O silêncio só era cortado pelo gemido fraco dos bebés e pelo vento que assobiava entre os vasos de barro espalhados pelo chão.
Ela parou por um instante, a tentar decifrar a cena. O homem mais resoluto que conhecia estava ali, sentado no chão como um náufrago, a segurar os recém-nascidos como se fossem a única coisa que lhe restava no mundo. Nem levantei os olhos quando a ouvi chegar. Já não tinha energia para explicações.
Apenas apertei os meus filhos contra o peito, sentindo o calor dos seus pequenos corpos, enquanto a Gabriela dava um passo hesitante na minha direção. O ar estava quente e pesado, e naquele canto esquecido da quinta, longe da vivenda e dos negócios, algo mudou para sempre na vida dos três. Ela deu mais dois passos firmes, com o coração acelerado, não só pela urgência, mas pela dor crua que via no rosto daquele homem outrora tão forte.
Ela baixou-se devagar, dobrando os joelhos até ficar à minha altura, e estendeu os braços com uma firmeza que não admitia recusa. “Dê-mos cá, sr. Duarte. Agora.” Não era um pedido, era uma ordem dita com a autoridade de quem sabia exactamente o que fazer.
Olhei para ela com os olhos vermelhos e fundos, cheios de uma exaustão que ia além do físico. Era o cansaço de uma alma que perdera tudo e lutava para manter os últimos pedaços da sua vida. Hesitei por segundos, apertando a Leonor e o Tomás contra mim, como se fossem âncoras. Mas as mãos tremiam tanto que os bebés se agitavam. A Gabriela tocou suavemente no braço da Leonor, sentindo o calor da sua pele através da manta. A bebé mexeu-se, soltando um suspiro baixinho. “Eles sentem tudo o que o senhor sente”, disse ela com voz firme. “Um bebé é como uma esponja, absorve a energia à sua volta. Se o senhor está desesperado, eles ficam desesperados também.”
A muito custo, afrouxei o abraço e deixei que ela pegasse primeiro na Leonor, com o rostinho vermelho de tanto chorar. A Gabriela acomodou-a com uma habilidade natural no braço, fazendo movimentos suaves, enquanto com a outra mão acalmava o Tomás. Senti um vazio gelado no peito quando o peso deles saiu do meu colo, mas também um alívio vergonhoso por poder, finalmente, relaxar os músculos das costas, que doíam horrivelmente.
“Pronto, meus amores”, sussurrou a Gabriela para os bebés, embalando-os. “Agora estão seguros. A titia Gabriela está aqui.” Levantou-se com os dois ao colo, mostrando uma força que eu desconhecia, e olhou para mim, ainda no chão. “O senhor precisa de sair deste sol, antes que desmaie. Vamos para debaixo daquele alpendre.”
Tentei levantar-me, mas as pernas falharam, tremendo como varas verdes. Apoiei-me na parede, respirando fundo até o mundo parar de girar. Quando consegui caminhar, a Gabriela já estava no alpendre, a colocar os bebés em cima de uma banca de madeira, forrada com um pano limpo que tirou do avental. Eu segui-a, arrastando os sapatos de couro italiano na terra, sentindo-me ridículo naquele fato caro e sujo.
“Estão com muito calor”, constatou ela, a desenrolar as mantas com movimentos rápidos. “Num dia de trinta graus, o senhou enrolou-os como se fosse Inverno. E a fralda do Tomás está encharcada.” Verificou a temperatura da pele deles com as costas da mão, um gesto automático. Encostei-me a um pilarete, a observar, sentindo-me completamente inútil. “Eu julguei que tinham frio porque as mãozinhas estavam geladas”, murmurei, a voz carregada de culpa. “Depois enrolei mais panos.”
Ela abanou a cabeça enquanto lhes tirava a roupa suada. “As mãos e os pés dos recém-nascidos são sempre mais frios, sr. Duarte. É normal. Mas o tronco deles estava a ferver. Se os tivesse deixado aqui ao sol mais vinte minutos, podiam ter tido uma convulsão febril.”
A informação atingiu-me como um murro no estômago. Tapei o rosto com as mãos, a culpa a corroer-me por dentro. Podia tê-los matado por ignorância, por não saber o básico. A responsabilidade era esmagadora. “Respire, sr. Duarte”, disse ela, sem parar de trabalhar, a molhar um pano com água fresca para lhes passar na cara. “O que importa é que agora estão bem, mas temos de resolver isto direito.”
Cheirou o leite dos biberões que eu tinha deixado num canto e fez uma careta. “Este leite azedou com o calor. Se lhes der isto, vão ter uma infecção intestinal.” Eu arregalei os olhos em pânico. “É tudo o que tenho aqui. Fugi de casa porque já não aguentava o telefone a tocar, as pessoas a oferecer ajuda que não sabiam dar. Esqueci-me da lata de leite.”
“Sorte a sua que eu sou prevenida”, respondeu ela, tirando duas saquetas do bolso do avental. “Ando sempre com isto. Sabia que uma hora ou outra algo assim ia acontecer.” Preparou o leite com água mineral que estava numa garrafa, misturando com movimentos precisos. Eu observava, hipnotizado pela sua eficiência. Em cinco minutos, ela resolveu problemas que eu tentava solucionar há quatro horas.
“Como é que soube que eu estava aqui, Gabriela?”, perguntei, com voz fraca. “Ninguém vem a este lado da propriedade há anos.”
Ela testou a temperatura do leite no pulso antes de dar ao Tomás. “Porque conheço a dor do luto, sr. Duarte. Quando queremos fugir do mundo, procuramos o sítio mais silencioso e esquecido. E também porque vi o rasto do carrinho de bebé na relva alta perto do jardim de Inverno.”
A resposta, simples mas carregada de compreensão, tocou-me fundo. Ela deu-me um biberão. “Pegue na Leonor e dê-lhe o leite, mas sente-se naquele banco, que se o senhor cair com ela, não seguro os dois.” Obedeci, sentindo-me como uma criança, e sentei-me no banco duro, a segurar a minha filha com um cuidado excessivo. Quando a Leonor encontrou a tetina, começou a sugar com força, fechando os olhinhos. A cena fez as lágrimas correrem-me pelo rosto sujo. Era a primeira vez em semanas que os via tranquilos.
“O senhor não come nada há mais de um dia”, observou a Gabriela enquanto alimentava o Tomás. “Vi a bandeja do jantar intacta na cozinha.” Eu já nem me lembrava de que precisava de comer. “Não sinto fome, só sinto um buraco no peito que não fecha. E cada vez que eles choram, esse buraco aumenta.”
Ela pôs o Tomás a arrotar, dando-lhe palmadinhas nas costas. “Ela pousou o Tomás, já saciado, no colo e olhou-me nos olhos, e naquele silêncio pesado do final de tarde, percebi que aquele não era o fim, mas o primeiro passo de uma longa caminhada que teríamos de fazer juntos.





