A Criada ouve um Grito e o Jogo ViraA empregada, movida por um instinto materno, desenterrou a criança a tempo e a salvou de um destino cruel.6 min de lectura

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O grito escapou-se antes de que Joana Almeida percebesse o que via. As suas mãos enterraram-se na terra solta, demasiado macia, como se alguém tivesse cavado ali há pouco. O regador de metal escapou-se dos dedos e bateu nas pedras do jardim com um estrondo que rasgou a quietude da manhã. Caiu de joelhos, dedos frenéticos a remexer a terra sob os roseirais.

E então tocou em algo frio, liso, humano. Uma mão pequena. O mundo parou, o seu coração não. Batia com força contra as costelas, cada batida um grito mudo enquanto escavava, unhas a partir-se, palmas a rasgar-se contra pedras escondidas até avistar o tecido azul do pijama. O pijama dos dinossauros que ela própria tinha vestido na noite anterior.

Tomás. O nome saiu-lhe rouco, despedaçado. Joana enfiou os braços por debaixo do corpo do menino e puxou com demasiada força, demasiado desespero. Ele estremeceu no ar, o peito comprimido sacudiu-se violentamente, e depois soltou um som: “Um grito agudo, abafado, de alguém vivo.” “Desculpa, meu amor. “Desculpa.” Ela soluçou, apertando-o contra o peito, enquanto ele se mexia debilmente, a boca cheia de terra.

Os dedinhos dele agarraram a gola do seu uniforme como se fosse a única coisa real no mundo. Eu não quis magoar-te. Por favor, meu Deus, por favor, deixa-o respirar. Ela recuou com ele nos braços, terra a escorrer pelas pernas. O choro dele era rouco, estrangulado, o som de alguém que se tinha esquecido de como se grita.

Socorro! O grito de Joana rasgou a calma da propriedade. Alguém que me ajude! Uma porta bateu. Passos pesados ecoaram pelo pátio. Ricardo Carvalho, um dos homens mais ricos de Lisboa, sempre tão polido, tão controlado, vinha a correr na sua direção e o seu rosto estava transformado.

Não era medo, não era choque, era fúria, cega, animalesca. O que fizeste? Rugiu ele. Joana tentou falar, a voz a tremer descontroladamente. Senhor, eu encontrei-o enterrado. Eu tirei-o dali. Ricardo avançou e arrancou-lhe Tomás dos braços com tanta força que o menino gritou de dor. Enterraste o meu filho vivo. Não, não, senhor, por favor.

Joana estendeu as mãos, o pânico a inundar-lhe cada nervo. Eu salvei-o. Ouvi-o a chorar. E a mão de Ricardo cortou o ar e atingiu o rosto dela com tanta força que a cabeça lhe rodou. A dor explodiu na mandíbula antes que tivesse tempo de reagir. Ela cambaleou, mas ele já a empurrava de novo. Um empurrão no peito que a atirou para trás, direita para os roseirais.

Os espinhos rasgaram braços, pernas, costas. O uniforme abriu-se em tiras, enquanto ela caía entre os ramos retorcidos, com a respiração presa na garganta. Sangue escorreu pelo antebraço. Tentou levantar-se, mãos trémulas contra o chão. “Senhor Carvalho, eu nunca faria tal coisa.” “Cala-te.” Ele cuspiu, a voz a quebrar de dor e raiva. “Confiei-lhe os meus filhos.”

A voz de Beatriz chegou da varanda, suave, preocupada, perfeitamente ensaiada. Ela surgiu com o roupão de seda branco imaculado, cabelo loiro a cair em ondas perfeitas, os olhos arregalados num choque calculado. Correu para junto dele, pousando uma mão trémula no ombro do marido. Meu Deus, Joana, como pudeste? O Tomás é só uma criança. Não fui eu.

Joana sussurrou, desesperada. Eu ouvi-o a chorar. Eu cavei. Eu salvei-o. Beatriz levou a mão à boca, os olhos brilhando com lágrimas que pareciam saídas de um romance. Espera que acreditemos nisso? Estavas sozinha com ele. Tens andado tão estranha estas semanas. É verdade. Uma das criadas gritou da porta. Eu ouvi-a a falar sozinha outra vez hoje de manhã.

Sempre achei que havia ali qualquer coisa de errado. Outra voz juntou-se. Ela é obcecada por estas crianças. Monstro, assassina de crianças. Tira-a daqui. Joana sentiu o chão sumir-se debaixo dela. Não era o sangue nos braços, não era a dor no rosto, era o olhar de todos, como se ela fosse algo que precisava de ser varrido. E Beatriz, parada ali com aquele sorriso invisível nos olhos, sabia exatamente o que estava a fazer.

Ricardo virou costas e subiu as escadas com Tomás nos braços. O menino ainda tossia terra, o corpinho a tremer. Joana ficou ali, de joelhos entre os espinhos, sangue a escorrer dos cortes nos braços, o sabor a ferro na boca, onde a bofetada lhe tinha partido o lábio. Quis gritar a verdade até a voz se ir, mas as palavras morreram antes de saírem, sufocadas pelo peso de todos aqueles olhares acusadores.

Ninguém a ajudou a levantar-se. As horas seguintes arrastaram-se como caco de vidro. Joana sentou-se nos degraus de mármore frio da entrada lateral, enquanto dois agentes faziam as mesmas perguntas vezes sem conta, vozes monótonas, esferográficas a riscar blocos. Onde estava antes de encontrar o menino? No jardim.

Eu ouvi-o a chorar debaixo da terra. O agente mais velho trocou um olhar com o colega. “A senhora espera que acreditemos nisso?” Ela repetiu a história como uma reza partida, mas não estavam a ouvir, estavam a anotar, a catalogar, a decidir. Lá dentro, a voz de Beatriz flutuava pelo corredor como um perfume caro, doce, controlado, letal.

Inspetor, a Joana sempre foi instável. Fala sozinha, fica a olhar para as fotografias das crianças à noite. Eu… eu tinha medo que ela pudesse magoar alguém. Joana cravou as unhas nas palmas das mãos para não gritar. Quando os agentes finalmente se foram embora, subiu para o quarto de empregada, um cubículo nas traseiras da casa, onde a janela dava para a garagem e o ar nunca circulava bem.

Lavou o sangue dos braços no lavatório rachado, a observar a água avermelhada a descer pelo cano. As mãos tremiam tanto que teve de se agarrar à bacia. Foi então que ouviu um ruído ligeiro, passos pequeninos. Joana virou-se. Sofia estava parada à porta, os olhos castanhos arregalados, assustados. Apertava o ursinho de peluche contra o peito, como um escudo. Dona Joana.

Joana forçou um sorriso suave, enxugando as mãos no avental rasgado. Olá, minha querida. Sofia torceu a orelha do urso entre os dedos. O pai disse que magoaste o Tomás. O peito de Joana apertou. Meu amor, isso não é verdade. A menina hesitou, depois sussurrou baixinho, quase envergonhada. A Beatriz disse-me para não falar contigo.

Ela disse que o fantasma da mamã está zangado porque tu dás azar. Joana gelou. Fantasma da mamã. Sofia parecia demasiado séria para uma criança de 6 anos. Ela disse que o espírito da mamã vê tudo. Um arrepio percorreu a espinha de Joana. Ajoelhou-se, ficando à altura da menina. Querida, os fantasmas não culpam as pessoas e eu não dou azar.

Sofia ficou em silêncio por um momento, os olhos a procurar os de JoanaE no fim, a única herança que Beatriz deixou foi o silêncio pesado de uma casa que lentamente reaprendeu a confiar.

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