Os meninos seguravam a empregada como se tivessem medo de que alguém a levasse embora. Ela estava sentada no chão da sala de jantar, com seu uniforme preto e branco, chorando em suas mãos enquanto os dois meninos se agarravam aos ombros dela, vestidos em seus pijamas brancos.
André parou na porta. Seu fato de gala estava impecável, mas seu rosto retorcido expressava raiva. “Por que meus filhos estão te chamando de mamãe?”
A empregada olhou para cima, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Antes que pudesse responder, a mulher num vestido de seda azul agarrou o braço de André. “André, por favor,” disse rapidamente. “Ela só está enchendo a cabeça deles de bobagens. Ela é apenas uma empregada.”
O menino mais velho virou-se, chorando tanto que sua voz tremia. “Não! Ela é mais como mamãe! Ela canta a mesma música que mamãe cantava!”
André ficou imóvel. O menino mais novo limpou o nariz na manga da camiseta e sussurrou: “A música que a mamãe cantava quando estávamos com medo.”
A empregada levou a mão à boca, quebrando-se em lágrimas novamente. “Eu não devia ter entrado,” ela soluçou. “Eu só queria…”
A raiva de André começou a desaparecer. Seus olhos se fixaram nas mãos trêmulas dela. No pulso, havia uma pequena cicatriz. A mesma cicatriz que sua esposa tinha da noite do incêndio.
A mulher de azul apertou ainda mais a manga dele. “Não a escute.”
Mas André já olhava para a empregada como se o resto da sala tivesse desaparecido. Sua voz saiu quase como um sussurro. “Termina a canção.”
A empregada balançou a cabeça, chorando. “Por favor, não me faça isso.”
André deu um passo mais perto, pálido. “Termina.”
A empregada olhou para os meninos e, com uma voz quebrada, cantou a última linha. André parou de respirar. Apenas uma mulher no mundo conhecia essa canção de ninar. Sua esposa. A mulher que ele enterrou três anos atrás.
André se afastou um passo. “Não,” ele sussurrou. “Você está morta.”
O rosto da empregada se desfez em dor. “Foi isso que te disseram.”
A mulher em azul balançou a cabeça violentamente. “Ela está mentindo. Ela está doente. Ela viu sua dor e copiou tudo.”
O menino mais velho gritou: “Para! Você sempre diz isso!”
André voltou-se lentamente para ela. “Sempre?”
A empregada meteu a mão no avental com dedos trêmulos e retirou um colar de prata queimado. A aliança de casamento dele estava pendurada nele. Ele mesmo a colocou no caixão da esposa.
As pernas de André quase falharam. “Como você tem isso?”
Ela segurou o colar junto ao peito. “Porque acordei antes de me enterrarem.”
A sala ficou em silêncio. A mulher de azul começou a recuar. A voz da empregada tremia. “Eu me lembro do cheiro de fumaça. Gritos. Depois, uma sala de hospital. Sem nome. Sem família. Quando minha memória voltou, eu vim aqui.”
Os olhos de André se encheram de lágrimas. “E você veio como empregada?”
“Eu tentei te ver no portão,” ela chorou. “Ela disse à segurança que eu era perigosa.”
A mulher de azul retrucou: “Eu protegi essa família!”
A empregada a olhou entre lágrimas. “Você protegeu seu casamento.”
André encarou a mulher com quem planejou se casar. “Você sabia?”
Ela não respondeu. Esse silêncio o destruiu.
O menino mais novo correu para os braços da empregada. “Mamãe, por favor, não vá embora de novo.”
André cobriu a boca enquanto a verdade finalmente se impunha. Ele havia lamentado por uma mulher viva. Seus filhos haviam chorado por uma mãe mantida atrás da porta da cozinha.
Ele se ajoelhou diante dela. “Emma?”
A empregada soluçou ao ouvir seu nome. André estendeu a mão para o rosto dela, com medo de que ela desaparecesse se o tocasse muito rápido. “Eu te enterrei,” ele sussurrou.
Ela pressionou a mão dele contra o rosto. “Eu sei.”
Atrás deles, a mulher em azul se virou para o corredor, mas o menino mais velho apontou para ela. “Ela escondeu a foto da mamãe na lareira.”
André olhou para cima, sua dor se transformando em frieza. “Chame a segurança.”
A mulher em azul começou a chorar. “André, eu te amei.”
Ele puxou Emma e os meninos para seus braços. “Não,” disse ele. “Você amou a vida que achava que poderia roubar.”
E no meio da sala de jantar, com as crianças envoltas a eles, André abraçou a esposa que pensava ter perdido, enquanto a casa finalmente ouvia a canção de ninar novamente.





