«Saia da Minha Sala! A História do Médico que Perdeu o Controle»25 min de lectura

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**Capítulo 1: A Goteira Turva**

A auxiliar de enfermagem Daiane empurrava um carrinho com produtos de limpeza pelo corredor do oitavo andar, quando a porta do quarto VIP se abriu repentinamente. Sua própria voz, suave mas persistente, ecoou:

— Professor, desculpe, na segunda goteira, o líquido ficou turvo. Não sou especialista, mas pela manhã ele estava transparente.

O Professor Tavares estava ao lado do suporte, segurando o prontuário em uma pasta de couro de marca. Ele se virou lentamente, como alguém distraído por um assunto trivial. Seus olhos, de um azul pálido quase sem cor, pareciam olhar através de Daiane, como se ela fosse apenas uma mancha no vidro.

— O que você disse? — repetiu ele.

— O líquido na segunda goteira está turvo, e há um sedimento no fundo do frasco — Daiane reiterou.

Tavares sorriu de canto. A pasta em suas mãos não se moveu.

— Onde você se formou? No fundo do armário, junto com um balde? — Ele se aproximou, e Daiane sentiu o cheiro de seu perfume: caro, frio, como metal. — Aqui trabalham especialistas com vinte anos de experiência. Tenho artigos em revistas que você nunca viu. E você vem me falar sobre sedimento?

A voz do professor baixou a um sussurro, e essa mudança fez mais medo do que qualquer grito.

— Não se meta, auxiliar. Saia daqui!

Ele não levantou a voz. Naquele tom cotidiano havia algo mais aterrador do que a raiva. Com a mão livre, ele apontou para a porta, sem desviar o olhar do prontuário, como se estivesse afastando uma mosca irritante.

Daiane recuou. O carrinho rangeu sob o peso das rodas. No corredor, banhado pela luz fria das lâmpadas fluorescentes, duas enfermeiras paradas na mesa se calaram e a observaram. O olhar de uma expressava compaixão, enquanto o do outro era de repulsa, igual ao do professor.

Por trás da janela da sala dos médicos, alguém riu de uma piada estranha. Daiane saiu, fechou a porta cuidadosamente e se encostou à parede, sentindo o frio do azulejo em suas costas. Suas mãos se fecharam involuntariamente na alça do carrinho. Ela respirou fundo. “Boba, se metendo no que não é da sua conta. Você é paga para limpar os pisos.”

**Capítulo 2: Linha Direta**

Um minuto se passou. Um alarme mecânico cortou o ar. O monitor começou a apitar, emitindo um sinal contínuo que penetrou o corredor.

Daiane se virou. Pela abertura de vidro da porta, conseguiu ver as costas do professor. Ele estava imóvel. A pasta escapou de seus dedos e se espalhou pelo chão em um leque de folhas. Tavares não se inclinou. Ele observava o monitor, e seus ombros pareciam petrificados. A linha na tela se esticava em um único traço eterno.

— Professor! — gritou uma enfermeira no posto, mas não se moveu.

Tavares permaneceu em silêncio. Seu rosto, ao se virar levemente de perfil, tornou-se mais pálido que o lençol estendido na cama. Seus lábios se moveram, mas sem emitir som. As mãos famosas, sobre as quais haviam sido contadas lendas em publicações médicas, estavam flácidas ao longo do corpo.

Daiane abriu a porta. Não se lembrava de como chegou à beira da cama. Arrancou a agulha da segunda goteira — a mesma, turva. Jogou a tubulação para o lado. Colocou as mãos do paciente sobre o peito e começou a fazer massagem cardíaca indireta. Um, dois, três. Contava em voz alta, porque foi assim que aprendeu com a avó, que trabalhou como enfermeira por quarenta anos.

— Um, dois, três. Cotovelos retos. Não tenha medo, pressione!

— Por que vocês estão paradas?! — A voz de Daiane soou estranha, profunda. — Desfibrilador! Adrenalina!

A enfermeira finalmente revidou. Seus saltos bateram forte no chão. Alguém entrou no quarto com um carrinho de reanimação. Tavares se recolheu à parede, como se tentasse se fundir com o azulejo. Seus lábios se moviam silenciosamente.

O monitor emitiu um bip diferente. A linha tremeu e se deslocou para cima. O paciente respirou — uma inalação ofegante, mas viva. Suas pálpebras estremeceram. Daiane retirou as mãos. Elas tremiam, e ela as escondeu nas costas, como uma criança esperando por uma reprimenda.

Um homem jovem na cama abriu os olhos. Ele não devia ter mais de trinta e dois anos. Ombros largos, cabelos escuros, um rosto de quem estava acostumado a ser forte e não a estar deitado. Ele olhou para o teto, para as lâmpadas, para os jalecos brancos, e finalmente parou em Daiane.

Eles se encararam por um longo tempo. No quarto, tudo silenciou. As pessoas ao redor se agitavam, sussurravam, mas entre os doispairava um silêncio que não precisava de palavras. Ele não pronunciou “obrigado”. Ela não disse “vai ficar tudo bem”. Eles apenas se encararam, e em seus olhos estava algo que Daiane nunca havia encontrado ali durante os seis meses de serviço: um ser humano reconhecendo outro ser humano.

— Como você se chama? — perguntou ele finalmente, com a voz embargada.

— Daiane.

Ele fechou os olhos. Nos lábios havia algo parecido com seu nome. Tavares se desvinculou da parede e saiu do quarto, sem olhar para ninguém. Na porta, ele parou por um instante, virou-se sobre o ombro, mas logo desviou o olhar.

**Capítulo 3: O Lar e a Visita da Manhã**

A avó dormia quando Daiane voltou para casa após a meia-noite. O apartamento de dois quartos na periferia cheirava a medicamentos e lã velha. O cobertor da avó estava na cama, embora a velha não o removesse nem mesmo no calor de julho. Daiane se sentou na beirada, ouvindo a respiração calma e tranquila, e então foi para a cozinha.

Ela passou um bom tempo em frente ao chá frio. Diante dos olhos, estava o frasco, o líquido turvo, o sedimento. Ela não havia inventado nada. De manhã, enquanto lavava o chão no quarto, viu a segunda goteira — transparente como um riacho de montanha, e à noite… Daiane sabia que deveria ficar em silêncio. O emprego no centro de prestígio “PrestigeMed” ela havia procurado por meses.

E aqui pagavam mais às auxiliares do que às enfermeiras em um hospital público. Com esse dinheiro, elas e a avó viviam. Com esse dinheiro, compravam medicamentos, sem os quais a velha não sobreviveria uma semana. Ficar quieta. Mas os olhos do paciente estavam presentes em sua mente. Kirill, como uma das enfermeiras revelou mais tarde. Kirill.

O chá esfriou de vez. Daiane despejou-o na pia e ficou de pé junto à janela escura. No pátio, uma lâmpada solitária brilhava, e na sua mancha amarela, um enxame de mosquitos zumbia. Ela pensava sobre como o rosto do professor havia mudado: um homem que havia a desprezado como se ela fosse um inseto, um minuto depois se tornara uma estátua incapaz de fazer qualquer movimento. Esse conhecimento não aliviava, apenas pesava.

Na manhã seguinte, ela foi chamada pelo chefe. Daiane caminhava pelo corredor, contando os passos, e em sua cabeça havia uma única ideia: “Vão me demitir”. O chefe, um homem corpulento com um rosto cansado, olhou para ela por cima dos óculos.

— Você esteve no quarto 508 ontem?

— Sim.

— Quem a autorizou a realizar procedimentos de reanimação? Você é auxiliar. Não tem permissão, nem formação.

Daiane permaneceu em silêncio. Do lado de fora da sala, o ar-condicionado zumbia.

— Formalmente… — O chefe retirou os óculos e massageou o nariz. — Formalmente, eu sou obrigado a demiti-la. Você ultrapassou todos os limites imagináveis. Se o paciente não tivesse sobrevivido, todos nós seríamos arrastados pelos tribunais.

— Mas ele sobreviveu — disse Daiane suavemente.

— Ele sobreviveu. — O chefe a observou com um olhar longo e imperscrutável. — Essa é a única razão pela qual estamos conversando agora, e não escrevendo justificativas.

A porta se abriu sem aviso. Tavares entrou. Daiane se encolheu internamente.

— Eu peço que ela fique — disse o professor. Sua voz soou calma, mas algo havia mudado desde o dia anterior. — Sob minha responsabilidade. O paciente está vivo graças a ela.

O chefe trocou os olhares entre os dois. Suas sobrancelhas lentamente levantaram-se.

— Professor, você está ciente do que está dizendo? Você está defendendo uma auxiliar?

— Estou defendendo. — Tavares olhou para o chão. — Eu vou lidar com o protocolo. A garota fica.

— Se isso vazar…

— Não vai vazar.

O chefe levantou as mãos. Era um gesto de quem havia perdido a compreensão deste mundo, mas decidiu não interferir.

**Capítulo 4: Fios Invisíveis**

Quando eles saíram juntos para o corredor, Tavares parou Daiane junto à janela. Ele ficou em silêncio um longo tempo, observando a rua. As articulações de seus dedos, que se apoiavam no peitoril, estavam brancas.

— O que havia na segunda goteira? — perguntou ele finalmente, sem se virar.

— Eu não sei, eu já disse.

— Eu ouvi. — A mandíbula dele se contraiu. — Eu ouvi o que você falou. E deixei passar. Vinte anos de experiência deixaram passar quem estava correto.

Ele se calou e depois acrescentou:

— Vá trabalhar.

Tavares se afastou, e seus passos se apagaram no final do corredor. Kirill estava em recuperação. Ele foi transferido para um quarto mais simples, sem equipamentos complexos. E Daiane, enquanto limpava o andar, começou a demorar mais na frente de sua porta. Ele a esperava. Ficava evidente como ele se endireitava nos travesseiros ao ouvir o rangido de seu carrinho no corredor.

— Daiane — dizia ele —, fique um momento. Aqui, todos andam de jaleco e mentem. Sorriem, mas os olhos estão vazios. E você não mente.

Ela se sentava na beirada da cadeira, sem soltar o pano, pronta para se levantar se alguém aparecesse. Eles conversavam sobre trivialidades. Sobre a comida sem sabor na cantina. Sobre o céu pesado do lado de fora. Sobre a lâmpada do canto que piscava e que ninguém consertava.

Ele perguntava sobre a avó, ouvia atentamente, inclinado levemente, e Daiane percebeu que falava muito mais do que pretendia.

— Ela foi enfermeira — disse Daiane. — Quarenta anos. Ajudava nos partos, extraía dentes, tudo que podia. Foi ela quem me salvou ontem, contando seus batimentos: um-dois-três.

— Então eu devo minha vida a duas mulheres — disse ele. — A você e à sua avó. Ela se chama Zóia?

— Zóia Ilyinichna.

— À Zóia Ilyinichna — corrigiu ele com seriedade.

Eles ficaram em silêncio. Do lado de fora, passavam alguns passos pelo linóleo e depois pararam.

— O acidente aconteceu em março — disse Kirill um dia, olhando para o teto. — Quase não me lembro. Acordei aqui. Meus pais já morreram há muito tempo. Minha mãe faleceu quando eu tinha dez anos, meu pai — há três anos.

Ele fez uma pausa.

— Estou sozinho. Sempre estive sozinho. Até anteontem, eu achava que estava completamente sozinho. Você fica aqui, e ao redor há pessoas que te veem como uma linha em um registro, uma soma em um contrato.

Daiane não sabia o que responder. Seus dedos estavam próximos, na linha do lençol, quase se tocando, mas não se encontravam.

A porta se abriu. A enfermeira chefe, Olívia, entrou. Alta, com cabelos escuros bem penteados. Seu rosto era bonito e inexpressivo, como uma máscara. Ela deixou o olhar fixar em Daiane que estava sentada. Um olhar gelado, avaliativo, de baixo para cima e vice-versa. Como se a escaneasse. Então sorriu — somente com os lábios, mas não com os olhos.

— Kirill Sergueievich, hora dos procedimentos — cantou ela. Sua voz era suave, envolvente. — E você, minha querida, pode sair. Você tem seu trabalho. Os pisos não vão se limpar sozinhos.

Daiane se levantou, passando por Olívia. Sentiu o mesmo aroma metálico que havia sentido de Tavares no dia anterior. O mesmo perfume. Ela gravou isso na memória, sem entender por que. Na porta, Daiane se virou. Olívia já se havia abaixado ao suporte. E seus dedos, longos e com as unhas impecavelmente feitas, se moviam com rapidez e confiança junto às tubulações do sistema. Kirill não olhava para a enfermeira. Ele olhava para Daiane.

**Capítulo 5: Revelação na Sala de Procedimentos**

Tavares a encontrou à noite, quando os corredores estavam vazios. Daiane estava limpando a sala de procedimentos no fundo do corredor. A sala vazia era ecoante, iluminada pela luz gelada de uma única lâmpada, com uma torneira que pingava monotonamente. O professor entrou, fechou a porta com cuidado, olhando ao redor como se estivesse checando se havia estranhos por perto.

— Eu mandei o conteúdo daquela goteira para análise — disse ele em voz baixa. — Através de um conhecido. Não em nosso laboratório. Não queria que isso passasse pelas mãos de alguém daqui.

Daiane se endireitou, segurando o mop.

— E?

— Havia um medicamento que não deveria estar lá. Em uma dosagem que… — Ele hesitou, engolindo em seco. — Que mata. Lentamente, se for adicionado aos poucos. Imediatamente, se for injetado de uma vez. Ontem, injetaram de uma vez. Não foi um erro de dosagem. Não foi uma coincidência. Ninguém confunde isso por mero acaso.

No silêncio, a água pingava da torneira. A lâmpada acima da cabeça piscou.

— Alguém fez isso de propósito — disse Daiane. Não era uma pergunta, mas uma afirmação.

— Sim.

Tavares apoiou a mão na parede de azulejos. O professor renomado, diante de quem todos tremiam no centro, parecia agora envelhecido e perdido. Seus ombros estavam caídos.

— Passei vinte anos olhando através de pessoas como você. Através de auxiliares, atendentes, recepcionistas. Estava convencido de que sabia tudo. Que via o paciente claramente apenas através de exames. E você percebeu o que eu não vi. Somente com os olhos.

Ele olhou em seu rosto, e pela primeira vez em seu olhar não havia frieza.

— Me perdoe. Pelo “auxiliar”. Por tudo.

Daiane não sabia o que dizer. Apenas assentiu.

— Quem poderia ter feito isso? — perguntou ela.

— Para trocar o frasco, você precisa de acesso. Uma chave do armário. O conhecimento de o que e quando injetar.

Tavares se endireitou. Seu rosto novamente se fechou em uma máscara, como se ele mesmo estivesse assustado com a direção que a conversa estava tomando.

— Não sei — disse ele apressadamente. — Mas eu descobrirei. E você mantenha isso em segredo. Se quem fez isso perceber que estamos investigando… — Ele não completou. — Não é um brincadeira, Daiane. Aqui estão em jogo grandes quantias de dinheiro. E onde há grandes quantias de dinheiro, a vida humana não vale nada.

Ele saiu. Daiane ficou sozinha na sala de procedimentos ecoante. A torneira pingava. A lâmpada zumbia. E pela primeira vez em seis meses, ela se sentiu verdadeiramente assustada. Não pelo emprego. Mas por si mesma.

**Capítulo 6: O Olhar do Invisível**

Ela começou a notar detalhes como só aqueles que ninguém vê conseguem. A auxiliar não é notada. Ela é parte da parede, parte do chão que é limpo. E dessa zona cega, Daiane viu tudo. Viu como Olívia demorava mais do que o necessário no armário dos medicamentos. Como conferia não apenas o livro geral, mas também alguma folha que guardava a sete chaves no bolso do jaleco.

Viu como Olívia e Tavares conversavam na sala dos médicos. Estavam incrivelmente perto, e como Olívia tocava o professor no peito com um gesto que não acontece entre colegas. Viu como ele gentilmente retirou a mão dela e deu um passo para trás, e como o rosto de Olívia se endureceu ao mesmo tempo. Amantes. Ou ex-amantes. Isso explicava o mesmo perfume e muito mais.

Mas se Tavares estava investigando, significa que não era ele o criminoso. Ou ele não sabia quem, ou sabia, e por isso ficou tão pálido naquela cama. Daiane estava confusa. Em uma certa noite, enquanto limpava o chão sob a maca na sala dos médicos, ela encontrou um papel esquecido. O mesmo que Olívia havia escondido. Dobrada em quatro, uma pontinha se destacava debaixo da perna da maca.

Daiane o desenrolou. Números, datas, dosagens escritas dia a dia. E no topo — o nome do paciente de 508. Kirill. Ela escondeu o papel sob a blusa, junto ao corpo. No mesmo instante, a porta se abriu. Olívia entrou.

— O que você está fazendo aqui tão tarde?

— Limpando, — Daiane se endireitou, segurando o pano. Seu coração batia tão forte que parecia ser ouvido por todo o andar. — A chefe mandou limpar tudo antes da inspeção.

Olívia a examinou por um longo tempo. Mudou o olhar para o chão, para a maca, para o lugar onde o papel havia estado. Seus olhos se estreitaram por um breve momento.

— Que inspeção? — perguntou ela lentamente.

— Não sei. Mandaram… estou limpando…

Olívia andou pela sala. Com as pontas dos dedos, acariciou a borda da mesa. Parou na maca, inclinou-se e olhou por baixo dela. Daiane ficou parada, segurando a respiração.

— Vá para casa — disse Olívia finalmente, endireitando-se. Sua voz era calma, mas havia uma corda invisível vibrando. — É tarde. Para uma moça na sua posição, não é bom ficar aqui, quem sabe o que pode acontecer.

Daiane saiu, sentindo a intensidade do olhar dela até o final do corredor. No elevador, ela olhou para trás. Olívia estava na porta da sala dos médicos, observando-a, imóvel como uma estátua sob a lâmpada piscante.

**Capítulo 7: O Veredito da Avó**

Em casa, ela estendeu o papel sobre a mesa da cozinha. A avó, acordando, dirigiu-se à cozinha e se sentou à sua frente, enrolada no cobertor. Quarenta anos na medicina, e seus olhos estavam fracos, mas sua mente permanecia afiada como um bisturi.

— O que é isso, minha filha?

— Vovó, olha, você entende o que está escrito aqui?

A velha aproximou o papel da lâmpada. Passava o dedo pelas linhas, movia os lábios, e ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, retirou os óculos e olhou para a neta com olhos desbotados.

— Isso, minha querida, não é um tratamento. — Sua voz soava calma e firme. — É um esquema. Alguém planejou, dia a dia, como ir eliminando uma pessoa lentamente, em pequenas doses, para que parecesse uma complicação após o acidente. O coração, supostamente, não suportou. Um jovem, e não suportou, acontece. Ninguém investigaria.

Ela bateu com o dedo seco no papel.

— Mas parece que decidiram apressar-se. Injetaram tudo de uma vez. Daí o seu frasco ter turbado.

— Por quê? — perguntou Daiane, embora já entendesse a resposta.

— Eu vi isso uma vez. Nos anos setenta, no hospital de pequeno porte. — A avó apertou os lábios. — Naquela época, também estavam dividindo um legado — uma casa, uma vaca e uma conta poupança. Agora, pelo que vejo, as apostas são muito maiores. — Ela encarou a neta. — Quem é essa pessoa que você está cuidando, Daiane?

Daiane não respondeu, mas agora sabia a quem perguntar. Kirill estava na janela quando ela entrou. Pálido, mas fortalecido, vestia calças de esporte em vez do pijama do hospital.

— Kirill.

Daiane fechou a porta, encostando-se a ela.

— Podemos ser diretas?

— Com você, só assim. — Ele se virou. — O que aconteceu? Você está pálida.

— Você tem alguma herança? Uma grande?

Ele sorriu, mas o sorriso saiu torto.

— Meu pai deixou uma fábrica. Duas fábricas, se formos exatos. Sete armazéns. E mais algumas coisas. Não gosto de me gabar, porque, devido a isso, estou sempre cercado por… — Ele parou. — Pessoas com preços em vez de vidas.

— E por que você pergunta, Daiane?

Daiane se sentou. Contou-lhe tudo. Sobre a goteira turva, sobre a análise de Tavares, sobre o papel, sobre as palavras da avó. Sua voz se foi até se tornar um sussurro. Kirill a escutava, e seu rosto se endurecia. As maçãs do rosto tremiam. Quando ela se calou, ele permaneceu encarando a parede por um longo tempo.

— Se eu tiver algum problema… — ele disse finalmente, com uma voz estranha. — Tudo vai para um primo distante. Uma pessoa que vi três vezes na vida. Ele veio me abraçar no funeral do meu pai e sussurrou: “Seja forte, sobrinho”. E seus olhos estavam calculando quanto eu valia em dinheiro.

Ele apertou o punho sobre o lençol até que as articulações ficaram brancas.

— Seis meses atrás ele insinuou que eu estava vivendo levemente demais, que precisaria de alguém de olho em mim. E então ocorreu o acidente… Eu sou um motorista experiente, Daiane. Não entendo como eu…

Ele não terminou a frase.

— Alguém aqui, no hospital, está trabalhando para ele — Daiane disse em um sussurro. — Alguém que tem acesso aos medicamentos, ao armário, ao seu prontuário.

Seus olhares se encontraram. Ambos perceberam ao mesmo tempo, sem precisar de mais palavras. Kirill abriu a boca para mencionar um nome, mas Daiane balançou a cabeça.

— Não aqui. As paredes são finas.

— Dê esse papel ao professor — ordenou Kirill. — Hoje mesmo, ouviu? Não o carregue.

— Darei. Vou procurá-lo agora.

Ela se levantou. Kirill prendeu seu pulso, firme, com a mão quente.

— Daiane, seja cuidadosa. Foi você quem eu encontrei aqui, viva. Não quero perdê-la.

Ela hesitou na porta por um instante a mais do que deveria. Então saiu. Daiane tinha que entregar o papel a Tavares, mas não teve tempo. Olívia a encontrou primeiro.

**Capítulo 8: O Confronto**

Isso aconteceu à noite, quando o centro estava vazio, e apenas a luz de emergência iluminava os corredores. Daiane foi chamada da sala de procedimentos do fundo, aquela onde a torneira pingava. A voz soou uniforme, calma, quase doce.

— Entre, ajude-me. Está difícil sozinha.

Daiane entrou. Olívia estava de costas para a porta, virou-se lentamente. Em sua mão, ela segurava uma seringa, e a tampa da agulha já havia sido removida.

— Você pegou meu papel? — disse ela sem entonação de pergunta. — Eu sei quem você é. Quem mais lavava o chão lá? Ninguém nota você, auxiliar.

Ela disparou essa palavra como o professor uma vez.

— E você acha que porque ninguém a nota, você pode ver tudo e fazer o que quiser?

Ela deu um passo à frente. Seu rosto estava completamente imperturbável, e essa calma enviava um frio pela pele de Daiane.

— Mas às vezes é muito melhor ser cega. Você viverá mais.

— Por quê? — Daiane recuou em direção à parede, tateando o azulejo nas costas. Com os olhos, procurava a porta, mas Olívia bloqueava o caminho. — Por que você deseja a morte de alguém? Você é uma enfermeira, deveria cuidar das pessoas.

— Por dinheiro, que você não veria nem por dez vidas — interrompeu Olívia. Ela sorriu, e o sorriso era mais assustador que qualquer ameaça. — Por um apartamento, por liberdade, para nunca mais ter que trabalhar à noite e ouvir as ofensas bêbadas. Me prometeram tanto que chega até o fim dos meus dias.

Sua voz se quebrou apenas por um segundo.

— E aquele garoto obteve tudo de graça, por direito de nascimento. Por que ele teria tudo, e eu — ter que limpar a sujeira de gente como ele? E o professor sabe.

Daiane não desgrudou os olhos dela.

— Tavares sabe que foi você.

Algo passou pelo rosto de Olívia. Dor? Raiva?

— André… — Ela sorriu de maneira amarga. — André é muito “limpinho”. Ele uma vez comentou: “Resolva essa questão desagradável silenciosamente”. Ele achou que eu não entenderia sobre o que estava falando. Esperava se manter nas sombras com as mãos imaculadas.

Seu rosto de novo se endureceu.

— Chega de conversa.

Ela avançou repentinamente. Daiane teve tempo de agarrar o pulso dela. Elas se agarraram numa sala vazia e ecoante. E não houve gritos ou barulhos. Apenas respirações ofegantes e o ranger dos sapatos no piso molhado — o mesmo que Daiane lavava todos os dias. Olívia era mais forte, mais alta, e a raiva multiplicava sua força.

A seringa tremia a centímetros do ombro nu de Daiane. Descendo. Daiane apertou com todas as forças, girando o punho do adversário para o lado. Os pés deslizavam no chão molhado. Ela empurrou com todas as forças, desesperadamente.

Olívia escorregou no piso úmido. A agulha entrou onde não deveria. Olívia parou. Seu rosto ficou atônito, as sobrancelhas levantadas como se tivesse ouvido uma notícia absurda. A seringa caiu das mãos juntas. Respingou no chão.

Ela deu um único passo em falso. Se apoiou na mesa. A mão escorregou, e lentamente caiu ao chão. No mesmo azulejo que brilhava após o polimento de Daiane. Em um minuto, o silêncio reinou na sala de procedimentos. Somente a torneira pingava. Daiane, encostada na parede, levou as mãos ao rosto e não conseguia se mover.

A porta se abriu. Tavares. Atrás dele, dois homens de uniforme. Ele os havia chamado, finalmente obtendo os resultados da segunda análise, já oficial, e analisando registros antigos. O professor ficou paralisado na porta. Ele olhou ao redor da sala de procedimentos. A seringa no chão. Daiane na parede. Ele percebeu tudo instantaneamente.

Seu rosto se tornou cinzento.

— Meu Deus! — exclamou ele apenas com os lábios. — Garota, cheguei tarde.

**Capítulo 9: A Resolução**

A seguir, tudo aconteceu como em um nevoeiro. Perguntas, protocolos, testemunhas. O papel, que passou das mãos trêmulas de Daiane para as de homens uniformizados. O livro de contabilidade de medicamentos, onde Tavares riscou três linhas com a unha. As gravações da câmera perto do armário, que alguém havia esquecido de apagar.

O primo distante de Kirill foi preso três dias depois em sua mansão de campo. Tavares depôs por conta própria, sem tentar se esconder atrás dos outros. E também contou sobre as palavras descuidadas proferidas uma vez para Olívia.

— Eu não dei uma ordem direta — disse ele ao investigador. — Mas eu abri a porta, e eu serei responsável por isso.

O tempo passou. Kirill foi liberado no início de maio. Ele estava na saída do centro, vestido com suas próprias roupas, alto, mais maduro, já nada lembrando o homem que estivera sob goteiras no 508. Colegas, enfermeiros, alguns por curiosidade, outros para se despedir, se reuniram. Tavares também veio. Ele se manteve à distância, em uma coluna, e parecia ter envelhecido dez anos durante aquelas semanas.

**Capítulo 10: Um Novo Caminho**

E então o professor se aproximou de Daiane diante de todos. No saguão, sob o olhar de todo o pessoal, sob o brilho frio das mesmas lampadas. O homem, diante de quem todos tremiam no “PrestígioMed” seis meses atrás, parou diante da auxiliar e disse em voz alta, para que todos pudessem ouvir:

— Daiane, eu te chamei de auxiliar. Eu olhei através de você como se fosse um vazio. Eu, com minhas publicações e minha experiência. — Sua voz não tremia, mas as palavras saíam com esforço. — E você se revelou a única pessoa nesta casa que viu, que não desviou o olhar. Me perdoe. — Ele inclinou a cabeça grisalha, pesada. — Eu fui cego.

O saguão ficou extremamente silencioso. Alguém entre as enfermeiras olhou para baixo. Aquela que outrora tinha desprezogado Daiane não sabia mais onde colocar as mãos. Kirill se aproximou de Daiane, segurou sua mão firmemente, com toda a palma, como quem agarra algo que não pretende soltar.

— Vamos — ele disse. — Eu já visitei sua avó, a Zóia Ilyinichna. Parece que eu a impressionei. Ela mandou entrar para um chá.

O canto de seus lábios se moveu.

— Vamos embora, está frio aqui.

Daiane olhou para sua mão na dele, para os rostos reunidos, para a luz sem vida das lâmpadas sob as quais ela havia esfregado os pisos por seis meses, considerando-se um vazio.

— E o trabalho? — escapuliu a pergunta.

— Que trabalho, Daiane? — Ele sorriu para ela abertamente, diretamente. — Você tem que cuidar de sua avó e aprender. A Zóia Ilyinichna disse: “Você tem mãos certas, de enfermeira. É um pecado usar such mãos para um mop”.

Ela saiu com ele para a rua, onde estava quente e ensolarado, e onde o ruído das lâmpadas fluorescentes e o eco dos corredores vazios não chegavam. A porta do centro se fechou atrás deles. E o azulejo na sala de procedimentos continuou a brilhar. Limpo, refletindo a luz indiferente da lâmpada solitária. A torneira continuava a pingar. Mas agora, lavar aquele piso caberia a outra pessoa.

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