Aproximei-me da mesa.
“O que posso trazer?”
“Café,” disse Leonardo sem a olhar. “Preto.”
“Para o rapaz?”
“Leite. E uma fatia de torta.”
A Mara voltou-se para o Noé. Ele fitava a vitrina das sobremesas, com as mãos pousadas sobre a mesa.
“Olá, querido,” disse ela suavemente.
A cabeça de Leonardo virou-se bruscamente na sua direção.
“Ele é surdo,” disse. “Não te ouve.”
O tom não era de explicação. Era um aviso.
A Mara sentiu calor a subir-lhe ao rosto, mas manteve a voz calma. “Percebi.”
Os olhos de Leonardo estreitaram-se.
A Mara deixou cair a sua caneta de anotações. Depois, ajoelhou-se ao lado do Noé, esperou até ele a notar e ergueu as mãos.
_Olá._
Noé fitou-a.
A Mara apontou para si própria e soletrou o seu nome lentamente com os dedos.
_M-A-R-A._
Depois, apontou para a vitrina das sobremesas, fez o sinal para torta e levantou as sobrancelhas.
_Cereja?_
A boca do Noé abriu-se.
As suas mãozinhas ergueram-se num movimento desajeitado, tomadas pela excitação.
_Sim. Cereja. Por favor._
O sinal para “por favor” era hesitante, mas a Mara entendeu-o. Entendeu ainda melhor a explosão de alívio no seu rosto.
Alguém tinha aberto uma porta.
A Mara sorriu. “É já já.”
Estendeu a mão e deu-lhe um aperto suave no ombro.
Foi então que a voz de Leonardo cortou o ruído da pastelaria.
“Tira a mão do meu filho.”
Agora, ajoelhada ao lado do Noé, com todas as armas daquela sala apontadas ao seu futuro, a Mara sabia que devia pedir desculpa.
Em vez disso, disse: “Estava a dizer olá. Da única maneira que ele consegue ouvir.”
Leonardo olhou para ela como se ela lhe tivesse tirado uma chave de dentro das costelas.
“Senta-te,” disse ele.
A Mara levantou-se lentamente. “Estou a trabalhar.”
“Senta.”
Os seus homens avançaram.
O Noé observava-os com confusão, a ler rostos, se não as palavras. A raiva da Mara venceu o seu medo. Deslizou para o banco ao lado do Noé, deixando espaço suficiente para não o assustar.
Leonardo inclinou-se para a frente.
“Quem te mandou?”
A Mara pestanejou. “Desculpe?”
“Não faças-te de parva. Quem te disse para aprender língua gestual? Quem te disse que o meu filho estaria aqui?”
“Ninguém me disse nada. Eu trabalho aqui.”
“As pessoas não sabem simplesmente, por acaso, como falar com o meu filho.”
Essa frase atingiu a Mara com mais força do que a sua ameaça.
“As pessoas não sabem por acaso?” repetiu ela. “Talvez não no seu mundo. No meu, as pessoas aprendem o que têm de aprender porque alguém de quem gostam precisa delas para isso.”
A expressão de Leonardo não se alterou, mas algo nos seus olhos mudou.
“A minha irmã era surda,” disse a Mara. “A Beatriz. Uma febre tirou-lhe a audição quando era pequena. Não tínhamos o seu tipo de dinheiro, por isso não trouxemos especialistas da Europa. Tínhamos um cartão da biblioteca e uma aula nas caves da igreja às quartas-feiras. Aprendi porque ela se sentia sozinha. Aprendi porque os médicos falavam por cima dela como se fosse mobília. Aprendi porque queria que a minha irmã soubesse que era importante.”
A mão de Leonardo afastou-se lentamente do casaco.
A Mara engoliu em seco e acrescentou: “O seu filho não precisa que toda a gente grite mais alto. Precisa que alguém pare de agir como se o seu silêncio fosse uma parede.”
Leonardo olhou para o Noé.
O seu filho estava a observar as mãos da Mara com uma fome que ele nunca tinha visto antes. Não por causa da torta. Não por brinquedos. Por ligação.
A empregada trouxe ao Noé a torta de cereja e um chocolate quente. Ela gesticulou cada palavra enquanto punha o prato na mesa. O Noé agradeceu-lhe com os olhos a brilhar.
Leonardo observou, e a inveja percorreu-o como um veneno.
O seu filho tinha dito obrigado a uma estranha.
O seu filho nunca lhe tinha dito obrigado.
Não porque o Noé fosse mal-agradecido. Porque Leonardo nunca tinha aprendido a recebê-lo.
A Mara reparou na sua expressão.
“Ele já sentiu música alguma vez?” perguntou.
Leonardo ergueu o olhar. “Ele não pode ouvir.”
“Eu não perguntei se ele podia ouvi-la.”
A Mara levantou-se e estendeu a mão ao Noé. Ele olhou para Leonardo, à procura de permissão.
Aquele pequeno olhar doeu mais do que qualquer bala que Leonardo alguma vez tivesse levado. O seu filho confiava nele para ter permissão, mas não para ter linguagem.
Leonardo acenou uma vez com a cabeça.
A Mara levou o Noé até à velha gira-discos no canto. Tirou uma moeda de vinte e cinco cêntimos do bolso do seu avental e escolheu um disco de blues com uma linha de baixo pesada. A máquina gemeu, fez um clique e ganhou vida.
O som encheu a pastelaria, baixo e rolante.
A Mara colocou as palmas das mãos do Noé contra o lado de madeira do gira-discos. O baixo vibrou através da estrutura.
Noé suspirou.
Os seus olhos arregalaram-se. Todo o seu corpo ficou imóvel e depois iluminou-se. A Mara bateu o ritmo contra as suas articulações. Ela gesticulou música, depois sente.
Noé começou a rir.
Era quase silencioso, ofegante e partido, mas abalou-lhe todo o corpo. Saltitou nas pontas dos pés, com as palmas das mãos pressionadas contra o gira-discos, a sorrir como se o mundo tivesse subitamente ganho outro sol.
Leonardo ficou sentado, imóvel.
Ele tinha gasto milhões a tentar dar som ao seu filho.
Uma empregada com uma moeda de vinte e cinco cêntimos tinha-lhe dado música.
O momento poderia ter mudado Leonardo para sempre se a violência não o tivesse encontrado primeiro.
Um SUV preto parou mesmo fora da pastelaria.
Os faróis apagaram-se.
Leonardo viu-o através da janela riscada pela chuva, um segundo antes do primeiro clarão da coronha.
“Para baixo!” rugiu ele.
A montra explodiu.
Tiros rasgaram a pastelaria. O vidro estilhaçou-se para dentro. As cafeteiras partiram-se. O gira-discos gritou quando as balas rasgaram o cromo e a madeira. Leonardo saltou do banco, com uma pistola na mão, enquanto os seus homens ripostavam.
“Noé!”
Rastejou por vidro partido, com o coração a martelar, os olhos a procurar o canto.
O espaço em frente ao gira-discos estava vazio.
Por um segundo impossível, o mundo de Leonardo terminou.
Depois, viu movimento atrás do balcão de carvalho.
A Mara tinha o Noé envolvido debaixo do seu corpo, protegendo-o com as suas costas. O seu ombro estava a sangrar muito, o uniforme azul ensopado de vermelho escuro. O pó cobria-lhe o cabelo e as faces. Os seus olhos mantiveram-se presos ao rosto do Noé.
As suas mãos moveram-se.
_Olha para mim. Respira. Seguro. Estou aqui._
Noé tremia, mas seguiu-lhe as mãos. Ele respirou com ela.
Leonardo deslizou para trás do balcão e puxou-os para perto de si enquanto os pneus gritavam lá fora. O SUV desapareceu na chuva.
Os seus homens gritaram que a rua estava limpa.
Leonardo não queria saber.
Ele tocou no rostoLeonardo acariciou o cabelo do filho, e pela primeira vez não sentiu a necessidade de dizer uma única palavra, pois tudo o que precisava ser dito estava nos seus olhos marejados e nas suas mãos tremulas que sussurravam “obrigado” no silêncio que agora os unia.





