Uma Vida que Renasceu na Minha PortaUma vida que renasceu na minha porta, ele estendeu as mãos vazias, mas com um olhar que carregava o peso de uma década perdida e um único pedido de perdão.6 min de lectura

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O crepúsculo sobre o Vale Verde extinguia-se lentamente, como se a custo se despedisse da terra. Nuvens rasgadas, tingidas de púrpura, reflectiam-se nas águas escuras do rio Corgo, que parecia inundado não de água, mas de sangue espesso e frio. Na velha torre sineira, musgosa, do adro de São Nicolau, lá no alto, o sino badalou as horas com preguiça e rouquidão — uma, duas, três —, e o seu som espalhou-se sobre a paisagem silenciosa, sobre as casas de xisto escuro, sobre as casinhas de banho inclinadas, sobre a estrada esburacada que seguia na direção de Vilarinho. Naquela hora, toda a alma viva já se recolhia ao calor do lar, ao conforto do lar. Mas na aldeia do Vale Verde, naquela noite, ninguém acendeu o candeeiro a petróleo nem se sentou para o jantar. Por quintais, por cozinhas, por becos, sussurrava uma notícia tão inacreditável como neve no verão e tão inquietante como o toque de finados.

Pela estrada que vinha do caminho esburacado até à entrada da aldeia, caminhava um homem. Ia devagar, arrastando os pés calçados com botas rotas amarradas com corda. A sua sobretudo militar, branqueada pelo sol nos ombros e queimada em vários sítios, pendia-lhe como num cabide. Às costas, trazia uma sacola vazia — dentro dela, não havia nada além de uma crosta de pão seco, enrolada numa camisa limpa, e de uma caneca de lata com a asa partida. O rosto do viajante, sulcado por rugas profundas como barrancos, estava coberto por uma barba grisalha e espinhosa, há muito sem ver uma tesoura, e os olhos fundos sob as sobrancelhas espessas tinham um brilho oculto e assustador. Aqueles olhos tinham visto demasiado e já nada esperavam do mundo. Neles lia-se, alternadamente, súplica, depois uma calma gelada, e de repente uma mágoa tão mortal e profunda que os poucos transeuntes que o viam desviavam depressa o olhar.

João Almeida regressava a casa.

Tinham passado treze anos desde aquela manhã de janeiro de quarenta e dois, quando o seu comboio, antes de chegar à frente de batalha, foi bombardeado perto de Viseu e se transformou num monte de ferro retorcido. Treze anos desaparecidos no buraco negro do esquecimento — hospitais, cativeiro, campos de filtragem, longas andanças por terras alheias e inóspitas. Todos esses anos, constava como desaparecido em combate e, depois, foi completamente riscado da memória dos conterrâneos, como se risca um morto do registo da aldeia. Deixara de existir — para a família, para o Estado e, aparentemente, para si mesmo. Mas lá dentro, no fundo da sua alma semidestruída, sempre se manteve acesa uma pequena ideia, como um brasa nas cinzas: regressar. Chegar. Ver.

E agora estava ali, na entrada da aldeia, junto ao velho poço com o seu cipoial torto, sem conseguir dar os últimos passos. O coração batia rápido e descompassado, ameaçando partir-lhe as costelas. A visão turvava-se — de cansaço e fome, ou de comoção. Olhava para aquele sítio, além da cerca pobre, além das velhas lilases sem folhas, onde escurecia a casa. A sua casa. Ou, melhor, a casa que ele próprio construíra com as próprias mãos três anos antes da guerra, ainda jovem, cheio de força e esperanças.

A casa, à primeira vista, mal mudara. A mesma cumeeira alta, talhada pelo pai, as mesmas molduras rendadas que ele próprio fizera à luz da candeia, nas longas noites de inverno. Só ao observar melhor, João reparou nas mudanças. A entrada era nova, coberta com tábuas, com varanda boa. O portão não rangeva, mas estava direito, com gonzos novos ainda brilhantes de graxa. Da chaminé subia um fumo espesso e cheiroso — provavelmente, estavam a queimar lenha de pinho. Atrás da casa, adivinhavam-se os contornos de um estábulo, que antes não existia, e ouvia-se o som tranquilo do gado a ruminar.

A quinta vivia uma vida plena. Forte, satisfeita, indiferente a ele.

— Tiago — sussurrou João com os lábios dormentes, e o nome queimou-lhe a garganta mais que aguardente. — Meu filho.

Deu um passo em frente. Depois outro. As pernas não lhe obedeciam, enleando-se na lama espessa. O portão estava entreaberto e João, reunindo as últimas forças, puxou-o para si. A aldraba enferrujada gemeu e, no mesmo instante, fundo do quintal, surgiu um cão grande e peludo, a ladrar desalmadamente. João parou. O cão, rosnando com raiva, saltou na sua direção, mas de repente, como se tropeçasse numa barreira invisível, calou-se e recuou, farejando o ar com desconfiança.

Para a varanda correu uma rapariga de cerca de doze anos. Descalça, apesar do frio, vestindo um vestido de chita, com tranças loura desgrenhadas, parou a olhar para o homem estranho e, nos seus olhos surpreendidos e bem abertos, não havia medo, mas antes curiosidade.

— Quem é que o senhor quer, tio? — perguntou com voz clara, pondo as mãos nas ancas, como dona da casa.

A João faltou-lhe a respiração. Olhava para aquela rapariga e não conseguia dizer uma palavra. Aquela não era a sua filha. Ele tivera uma filha, outrora, mas tinha outro nome, e os olhos eram diferentes. Esta olhava para ele com uns olhos castanhos, estranhos, herdados da mãe, e nos seus traços não havia nada dos Almeida.

— Mãe! — gritou a rapariga, virando-se para o fundo do quintal. — Está aqui um senhor, tão assustador! O cão ladrou-lhe, mas agora já não ladra!

Da entrada ouviram-se passadas pesadas e seguras. Na soleira apareceu um homem. Encaracolado, de ombros largos, com uma barba escura e cerrada já entremeada de fios brancos. Vestia uma camisa limpa, embora remendada, e calças de bombazina enfiadas em botas. Saiu, limpando as mãos a um trapo, e parou, cravar o olhar no recém-chegado. Por um instante, ficaram um em frente do outro e o ar entre eles ficou tenso como a corda de um arco. O homem reconheceu João. E João reconheceu o homem.

— Então, Artur Lopes — a voz de João soou soturna, como se viesse debaixo da terra. — Não estava à espera?

Artur Simões — antigo capataz, que muitas vezes discutira com João nas reuniões da aldeia — não respondeu. Franziu os olhos, como se tentasse ver naquele morto-vivo o João de outrora, quente e forte. Depois, pesadamente, com todo o corpo, virou-se para a casa e gritou para a escuridão da entrada:

— Madalena! Lena! Anda cá.

E então apareceu ela.

Madalena saiu para a varanda, limpando as mãos ao avental. Estava um pouco mais cheia, mais redonda, nas têmporas — os primeiros cabelos brancos, precoces. Mas a mesma andar leve, um pouco flutuante, a mesma covinha na face direita, o mesmo olhar, um pouco de soslaio, com um sorriso oculto. Ao ver João, empalideceu de tal modo que até os lábios, gretados pelo vento, ficaram brancos como giz. Não gritou, nãoNão gritou, não se lançou para ele, não desmaiou; ficou parada a olhar, como se olha para um fantasma que saiu da cova.

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