O Pequeno Guerreiro e a Banda de MotociclistasEle levantou seus trocados com um coração cheio de esperança, sem saber que aqueles motociclistas, tocados por sua coragem, se tornariam seus maiores protetores na luta que estava por vir.6 min de lectura

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O motard em mim quase se riu quando aquele miúdo careca se aproximou com um maço de notas amachucadas.

Estávamos sentados no exterior de um café em Aveiro. Éramos cinco, acabados de chegar de uma jornada de doze horas. Tatuagens, *patches*, couro, cicatrizes. Parecíamos exactamente o que somos.

As pessoas normalmente atravessam a rua para nos evitar.

Este miúdo não.

Avançou directamente para a nossa mesa como se dono do lugar fosse e parou mesmo à minha frente. Não teria mais de cinco anos. Calças de ganga duas vezes maiores que o necessário. Uma pulseira de hospital no pulso.

Nada de cabelo. Nem sequer sobrancelhas.

Mostrou o dinheiro. “Quanto custa para bater em alguém?”, perguntou.

A mesa inteira ficou em silêncio. O Zé engasgou-se com o café. Inclinei-me para a frente, com os cotovelos sobre os joelhos, e tentei manter a postura.

“Depende de quem é, rapaz.”

Ele acenou com a cabeça, como se fosse uma resposta comercial justa. Depois, vasculhou o bolso e tirou mais dinheiro. Uma nota de cinco. Duas de um. Um punhado de moedas. Pousou tudo em cima da mesa à minha frente, como se estivesse a contratar um prestador de serviços.

“Tenho sete euros e quarenta cêntimos. Chega para bater no meu cancro?”

Ninguém se mexeu.

Olhei para a mãe dele, do outro lado da rua. Estava parada ao lado de um Corsa azul, a mão sobre a boca, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Não o chamou. Permaneceu ali, a deixar aquilo acontecer.

Abaixei-me até ficar à altura dos olhos do rapaz. Os meus joelhos odiaram-me por isso. Senti-me com noventa anos.

“Descreve-me esse cancro, amigo.”

Ele pensou por um instante. Depois, meteu a mão pelo colo da camisa e puxou de um papel dobrado num quadrado minúsculo. Desdobrou-o muito devagar e mostrou-mo. Era um desenho a lápis de cera.

Um corpo negro e rabuscado. Braços longos e finos. Olhos vermelhos. Dentes afiados. Sem boca. Apenas dentes, empilhados uns sobre os outros como uma armadilha.

Ao lado do monstro, desenhara uma pequena figura de paus. Um rapaz sem cabelo, uma cabeça redonda, uma linha recta por boca. O rapaz estava dentro da barriga do monstro.

“Este sou eu”, disse, apontando para a figura de paus. “E aquilo é o cancro. Está dentro do meu corpo. A minha mãe diz que me está a comer.”

Ouvia-se o silêncio como se fosse um trovão.

Conseguia sentir a presença dos homens atrás de mim. Nem um som de nenhum deles. Zé. Galo. Chico. Ronny. Cinco homens crescidos que andam com um clube chamado Fantasmas de Ferro. Homens que estiveram presos. Homens que enterraram mais irmãos do que alguma vez poderemos contar.

E nenhum de nós conseguia falar.

Eu tinha sido pai uma vez.

Tinha uma filha chamada Beatriz. Tinha sete anos e tinha leucemia e morreu numa terça-feira de Março, há oito anos. Deixei o emprego na semana seguinte. A minha mulher deixou-me no ano a seguir. Desde aí, ando nesta mota, de café em café, porque ficar parado mata-me.

Levo uma foto da Beatriz no bolso interior do meu colete. Ninguém sabe dela excepto os homens desta mesa.

Levantei a mão e limpei o rosto com as costas dela, na esperança de que ninguém visse.

“Como te chamas, amigo?”

“Bernardo.”

“Bernardo, posso ver esse desenho outra vez?”

Ele entregou-me o desenho a lápis de cera. Segurei-o como se fosse de vidro. Olhei para o monstro de olhos vermelhos a devorar um rapazinho sem cabelo e senti algo partir-se dentro de mim, que eu mantivera fechado desde 2017.

“Bernardo, vem sentar-te aqui comigo, está bem?”

Coloquei-o no banco ao meu lado. Ele não pesava nada. As pernas balançavam na ponta e os seus ténis nem de perto tocavam o chão.

“Preciso que ouças com muita atenção, está bem?”

Ele acenou.

“Não podemos entrar no teu corpo para bater no cancro. Não é assim que funciona. Somos grandes, mas não desse tipo de grande.”

O seu rosto desfez-se. Vi-o acontecer em tempo real. A esperança a drenar dele como se alguém tivesse puxado uma rolha.

“Mas.”

Ergui um dedo.

“Mas quero que olhes à volta desta mesa. Olha para todos os meus irmãos.”

Ele olhou. Zé. Galo. Chico. Ronny. Todos a olharem para ele com expressões que nunca os tinha visto ter.

“Vês estes tipos? Eles são mesmo maus quando é preciso. E sabes o que é que nós fazemos para viver?”

O Bernardo abanou a cabeça.

“Lutamos contra monstros. Esse é o nosso trabalho. Se alguém tem um monstro com o qual não consegue lutar sozinho, vem ter connosco. E nós aparecemos e ajudamos a combatê-lo.”

Os seus olhos ficaram muito arregalados.

“Agora, não podemos entrar no teu corpo. Mas olha, está bem? Não podes vencer o cancro sem um exército. E tu acabaste de contratar um. Aquele dinheiro, os sete euros e quarenta cêntimos? É a taxa de inscrição. Agora és um de nós.”

Ele olhou para o dinheiro em cima da mesa como se não acreditasse que tinha funcionado.

“E quando és um de nós, nunca desistimos de ti. Vamos a todas as consultas. Vamos a todas as visitas ao hospital. Somos os teus irmãos agora. E quando tiveres medo, ligas-nos. Nós aparecemos. Sempre. Sem excepção. Percebes?”

O Bernardo olhou para a mãe. Ela chorava tanto que apenas conseguiu anuir.

“É verdade?”, perguntou-lhe ele.

“Sim, meu amor”, disse ela. “Acho que é verdade.”

Descosi uma *patch* do forro interior do meu colete. Uma pequena, redonda, apenas uma caveira com asas. A Beatriz costumava brincar com ela. Tinha-a guardado no meu bolso interior durante oito anos.

Alfinetei-a no casaco do Homem-Aranha do Bernardo.

“Bem-vindo aos Fantasmas de Ferro, novato.”

O nome dela era Sónia. O pai dele tinha-se posto a andar há seis meses.

Ela contou-nos tudo no parque de estacionamento enquanto o Bernardo estava sentado no colo do Ronny a mostrar-lhe a pulseira do hospital. O diagnóstico em Setembro. Neuroblastoma em fase três. A primeira ronda de quimio em Outubro. A segunda em Janeiro. A terceira agora. O seguro que cobriu duas rondas e não a terceira. A segunda hipoteca. Os turnos de fim-de-semana no restaurante.

O marido que disse que já não aguentava mais e saiu numa manhã de terça-feira de Abril com um saco de desporto e um bilhete.

“Não sei porque vos estou a contar isto tudo”, disse ela. “Não vos conheço.”

“Está a contar-nos porque precisa de contar a alguém”, disse o Zé. “E nós somos as primeiras pessoas em muito tempo que não tinham outro lugar para estar.”

Ela chorou nos braços do Ronny durante uns dez minutos. O Ronny costumava traficar droga no Alentejo nos anos oitenta. Tem um metro e noventa e cinco e tem uma tatuagem de uma lágrima por baixo do olho esquerdo. Ele segurou aquela mulher como se fosse sua irmã e não disse uma palavra.

Pagámos-lhes o pequeno-almoço.

Dei-lhe um cartão com o meu número. O número do Galo. O número do Chico. O número do Zé. O número do Ronny.

“Ligue a qualquer um de nós. AQualquer altura. Se o Bernardo tiver medo. Se o carro não pegar. Se os cobradores ligarem. Se precisar de alguém na sala de espera do hospital. Nós aparecemos. É para valer.

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