Há muito tempo, numa manhã próxima das onze horas, a Clara regressou a casa após uma ausência de quatro meses por motivo de trabalho.
Não telefonou a avisar o marido nem o filho. Na sua sacola, trazia alguns legumes, um pedaço de carne e outras comidas que ambos apreciavam; a Clara desejava apenas preparar-lhes uma refeição quente, como um pequeno-almoço tardio.
Ao subir as escadas do prédio, um silêncio invulgar deixou-a paralisada. Não se ouvia música, nem televisão, absolutamente nada. Bateu à porta uma vez. Depois, bateu com mais força. Ninguém atendeu.
A Clara franziu a testa.
“Estes dois…”
Aproximou-se da porta e tornou a bater:
“Toc, toc, toc…”
Era estranho ninguém vir abrir, sendo já quase meio-dia. Esperou alguns instantes, mas não viu o marido nem o filho saírem para atender.
Então, a Clara procurou nas suas coisas a chave de casa. Como não a usava há algum tempo, demorou pouco a encontrá-la. A Clara abriu a porta.
A primeira coisa que a surpreendeu foi a casa estar estranhamente arrumada e limpa, muito diferente do que imaginara, de um local desarrumado pela ausência de uma presença feminina.
A Clara avançou, colocando suavemente as sacolas em cima da mesa. Foi então que os viu.
Um par de sapatos femininos, delicados e de salto baixo, encostados à parede.
Ela ficou imóvel. Não eram os seus. Sabia-o com uma certeza firme, quase física. Nunca usara sapatos de salto tão baixo. Um pensamento cruzou-lhe a mente:
“Terão os dois planeado comprar-me uma surpresa?”
A Clara aproximou-se e pegou nos sapatos para os examinar. Pareciam ter sido usados… e, sobretudo, eram muito diferentes do estilo que ela preferia. Mais chamativos, mais estranhos.
A Clara engoliu em seco.
De quem seriam…?
O seu coração começou a bater mais depressa que o normal. Caminhou pelo corredor, cada passo mais curto que o anterior, como se o chão pudesse desabar a qualquer instante.
A porta do quarto principal estava entreaberta.
Aproximou-se e empurrou a porta, exclamando em voz alta:
“O que é…?”
Parou.
A luz da manhã filtrava-se pela janela, lançando sombras irregulares sobre a cama. Os lençóis estavam amarrotados. Havia duas pessoas. Ou, pelo menos, foi o que pareceu à primeira vista. A Clara não compreendeu logo o que via.
Havia qualquer coisa que não estava bem.
Deu mais um passo.
O silêncio deixou de ser silêncio. Era outra coisa. Mais densa. Mais pesada.
“Quem está aí…?”
Ninguém respondeu.
Então, um detalhe. Pequeno. Significativo. Mas suficiente.
A Clara sentiu as mãos a tremer. Deu mais um passo, quase sem dar por isso. De repente, sentiu que lhe faltava o ar.
E, naquele momento, compreendeu o que estava prestes a descobrir…
Não ia ser algo pequeno.
A Clara moveu-se até à beira da cama. Não gritou. Ainda. Havia qualquer coisa no seu peito que a impedia, como se o ar estivesse preso.
Estendeu a mão.
Hesitou.
Recuou.
Depois, quase com raiva de si mesma, agarrou no canto do lençol e puxou-o bruscamente.
Uma madeixa de cabelo. Longo. Escuro. Não era o seu.
Era tudo.
Não precisava de ver mais.
O seu corpo enrijeceu, como se alguém lhe tivesse substituído o sangue por vidro. Por um segundo, dois, três… nada. Nenhum pensamento. Nenhuma lógica. Apenas uma sensação crua, direta, quase animal.
Então, viu.
Uma onda.
Quente. Violeta.
A Clara largou o lençol como se estivesse a arder. Deu um passo atrás, depois outro. A sua respiração tornou-se ofegante. Não chorava. Não gritava. Era pior. Era aquele tipo de silêncio que precede o momento de se partir algo.
Virou-se.
Saiu do quarto.
Dirigiu-se à sala sem olhar para trás. Cada passo mais firme, mais pesado. A casa, tão arrumada minutos antes, parecia-lhe agora uma mentira bem organizada.
Olhou em redor.
Os seus olhos fixaram-se na vassoura, apoiada na parede.
Foi direita a ela.
Agarrou-a.
Não a levantou imediatamente. Segurou-a durante alguns segundos, como se aquele objeto simples precisasse de se transformar em algo mais, numa extensão do que sentia.
“Claro… claro…” murmurou, quase sem voz.
As ideias amontoavam-se. Imagens, suspeitas, memórias que agora pareciam suspeitas. Há quanto tempo? Desde quando? Quem era aquela mulher? Na sua cama? Na sua casa?
Apertou a vassoura com mais força.
A madeixa rangeu sob a sua mão.
Voltou ao corredor.
Cada passo era diferente agora. Já não eram curtos. Eram decididos. Firmes. Como se cada passada fosse uma resposta.
Parou em frente à porta.
A sua respiração era pesada.
Ergueu a vassoura.
E, nesse preciso instante—
Uma porta abriu-se atrás dela.
“Clara?”
A voz.
Conhecia-a demasiado bem.
Virou-se.
O seu marido estava ali, a sair do quarto do filho, com o cabelo despenteado, o rosto ainda marcado pelo sono.
Ele demorou menos de um segundo a compreender o que viu.
A Clara, com a vassoura erguida.
A porta do quarto aberta.
Silêncio.
“Clara, espera!”
Lançou-se para ela.
Demasiado rápido.
Ele agarrou-lhe o braço no momento em que ela começava a baixar a vassoura.
“Larga-me!” gritou a Clara, agora com a voz quebrada e carregada de emoção.
Ele não a largou.
“Ouve-me, por favor!”
“Ouvir-te?! O que é que tenho de ouvir?!”
Ela tentou libertar-se, mas ele segurou-a com mais força, sem a magoar, mas sem ceder.
“Mateus!” gritou ele na direção do outro quarto. “Acorda! Já!”
Um movimento dentro do quarto.
Rumores de lençóis.
Uma voz sonolenta.
“O que foi…?”
A Clara parou de lutar por um segundo.
Esse segundo foi suficiente.
O Mateus apareceu à porta, despenteado, confuso, ainda meio adormecido.
E atrás dele—
A mulher.
A mesma.
O seu cabelo escuro caía sobre os ombros, os olhos repentinamente abertos, desorientados.
A Clara sentiu que algo dentro dela voltava a partir-se.
Mas de forma diferente.
Já não era a mesma fúria de há segundos.
Era… algo mais complicado.
Mais desconfortável.
Mais difícil de suportar.
“Mãe…?” disse o Mateus, a voz ainda presa entre o sono e a surpresa.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Ninguém sabia por onde começar.
A Clara deixou de lutar.
A vassoura baixou-se lentamente.
O seu marido libertou-lhe cuidadosamente o braço, como se temesse que qualquer movimento brusco fizesse tudo voltar a começar.
“Vamos…” disse ele, com a voz mais baixa agora. “Vamos para a sala. Todos.”
A Clara não respondeu.
Mas caminhou.
Sentou-se na cadeira, rígida, sem olhar para ninguém.
O Mateus e a rapariga sentaram-se juntos, quase a tocarem-se, como se o espaço entre eles os pudesse proteger de algo.
O marido da Clara ficou de pé durante alguns instantes, depois sentou-se também, mas à borda, quieto.
O ar era pesado.
Pesado.
“Clara…” ele começou.
Ela ergueu a mão.
“Não.” A voz saiu seca. “Primeiro… alguém me diz quem é ela.”
Breve silêncio.
O Mateus engoliu em seco.
“Eé a minha namorada.





