O Segredo Sombrio da FazendaDescobriu-se que a farsa do seu sumiço era uma cortina de fumaça para as terríveis atividades que ele realizava em segredo.6 min de lectura

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PARTE 1

Afonso Almeida, dono de uma das maiores destilarias de vinho do Porto, ajustou o casaco de grife e fitou as duas filhas com um sorriso que não chegava aos olhos. A imensa quinta de paredes de granito e traços tradicionais estava mergulhada no silêncio habitual das manhãs.

—Tenho de ir ao Porto por quatro dias —disse, acariciando o cabelo castanho de Beatriz, a mais nova, que tinha apenas oito anos—. Comportem-se bem com a Sónia e obedeçam à Senhora Celeste, está bem?

As duas meninas anuíram, abraçando-o com uma força invulgar, quase desesperada. Carolina, de dez anos, olhou de soslaio para Sónia, a elegante noiva do pai, que observava a cena com postura impecável e um sorriso perfeito desde a entrada do escritório.

—Não te preocupes, meu amor —sussurrou Sónia, aproximando-se para lhe dar um beijo casto na face—. Eu encarrego-me de que as tuas princesas fiquem perfeitamente cuidadas. Vai tranquilo. Os negócios são a prioridade.

Afonso anuiu, pegou na sua pasta de cabedal e dirigiu-se à imponente porta de carvalho. Entrou na sua viatura blindada e o motorista arrancou, sumindo-se na estrada de terra amarelada ladeada por intermináveis vinhas. Contudo, o que Sónia, as meninas e o resto do pessoal da quinta não sabiam, era que aquela viagem era uma mentira completa.

Apenas dois quilómetros adiante, Afonso ordenou ao motorista que parasse, desceu do veículo e regressou por um caminho oculto entre as videiras até chegar à parte traseira da propriedade. Com discrição, entrou pela porta de serviço que dava directo à sala de monitorização e segurança, onde o Senhor Artur, o chefe dos seguranças, o aguardava com a testa franzida.

—Patrão, as câmaras do interior estão todas activas neste ecrã —sussurrou o velho guarda, apontando para o monitor central.

Afonso sentiu o coração bater com fúria contra as costelas. Andava há semanas a notar coisas estranhas: o olhar esquivo das filhas, o nervosismo da Senhora Celeste, a ama de toda a vida, e certos movimentos irregulares nas contas bancárias da casa. Quisera confiar em Sónia, a mulher que o “resgatara” da depressão após a trágica morte da sua esposa Leonor há três anos, mas o seu instinto gritava que algo estava muito errado.

No ecrã, viu Sónia trocar a sua expressão angelical por uma máscara de frieza absoluta mal o veículo desapareceu de vista. Viu como agarrou Beatriz pelo braço com tanta força que a menina soltou um lamento, empurrando-a para as escadas. A Senhora Celeste, com o seu avental impecável, tentou intervir, mas Sónia apontou-lhe um dedo ameaçador, silenciando-a no acto.

Mas o que gelou o sangue a Afonso não foi só o mau trato. Foi ver que Sónia sacava do bolso da sua saia de designer uma antiga chave dourada. A chave do quarto de Leonor. Um aposento que estivera rigorosamente trancado durante três anos.

Sem pensar, Afonso saiu da sala de monitorização e atravessou os corredores de serviço a passos largos, com o sangue a zumbir-lhe nos ouvidos. Subiu pela escada traseira, decidido a não lhe dar nem um segundo de vantagem para fingir. Ao dobrar o corredor principal, viu-a. Sónia estava a introduzir a chave na fechadura, com a confiança de quem se sente dona absoluta de tudo.

—Não te atrevas a abrir essa porta —a voz de Afonso ressoou tão fria e profunda que pareceu gelar o ar em redor.

Sónia paralisou. E naquele instante, o silêncio da grande quinta tornou-se sufocante, denso, carregado de um perigo iminente. Era absolutamente impossível prever a tempestade que estava prestes a desencadear-se nos próximos segundos.

PARTE 2

Durante uma fracção de segundo, Sónia não se virou. Naquele brevíssimo lapso, Afonso compreendeu uma verdade aterradora: ela não estava surpresa por ele ter regressado, estava surpresa por ele ter chegado tão depressa àquela parte da casa.

Lentamente, a mulher voltou o rosto. Não houve gritos, nem hesitações. Com uma perícia que enojou Afonso, a sua expressão transformou-se na de um animal ferido, ofendido.

—Afonso, meu amor… eu…
—A chave —interrompeu ele, estendendo a mão aberta.
—Posso explicar-te, juro.
—A. Chave. —repetiu ele, dando um passo em frente que fez Sónia recuar.

Ela apertou a chave dourada dentro do punho.
—As tuas filhas estão fora de controlo. Essa criada, Celeste, manipula-as e enche-lhes a cabeça de ideias. Eu só queria garantir que não andavam a esconder coisas aqui dentro. É pelo bem da família.

Afonso não pestanejou.
—Esse quarto está trancado há três anos. Só existiam duas chaves em todo o mundo. Uma tenho eu no cofre do meu escritório. A outra desapareceu no dia do funeral da Leonor, minha esposa.

Pela primeira vez, a máscara de Sónia mostrou uma fissura. Os seus olhos pestanejaram rapidamente. Lá em baixo, no rés-do-chão, ouviu-se um soluço abafado. Carolina. Beatriz. Senhora Celeste. A quinta inteira parecia conter a respiração, à espera do desfecho.

—Afonso, estás a exagerar —disse Sónia, baixando o tom de voz para soar mais persuasiva—. Essa rapariga do campo pôs-te contra mim usando as meninas. Não vês o que ela faz? Quer destruir o que temos.
—O que vi nas câmaras foi mais que suficiente —sentenciou ele, olhando para ela como se fosse uma completa estranha.
—Então viste como a Celeste interfere na minha autoridade. Viste como…
—Vi uma menina de oito anos a tremer de terror quando tu a tocaste.

Sónia calou-se.
—Vi a Carolina a proteger a irmã mais nova como se tu fosses uma ameaça real. E vi como ameaçaste a Celeste usando o meu nome e o meu poder.

A mandíbula de Sónia endureceu. Já não tentou negar os factos, mudou a sua táctica para o ataque.
—Tu não percebes nada da vida real —cuspiu, perdendo toda a sua doçura—. As tuas filhas precisam de mão firme, disciplina. A Celeste está a transformá-las em pequenas inúteis e choronas. A Leonor fazia exactamente o mesmo. Por isso nunca soube gerir uma quinta como esta, era fraca.

Mencionar a sua falecida esposa foi o detonador. Afonso avançou, arrancou-lhe a chave dourada da mão com um puxão e empurrou a porta de madeira trabalhada.

—Não abras aí! —gritou Sónia, mas já não soava a sugestão. Soava a terror puro.

Ao abrir a porta, o cheio atingiu-o imediatamente. Não era cheiro a mofo, nem a humidade. Era um aroma a perfume caro, a maquilhagem recente. Alguém andara a frequentar aquele lugar. Afonso deu um passo para dentro e ficou petrificado.

Nada estava como ele deixara. A colcha bordada à mão da cama estava revirada. As gavetas da cômoda antiga da Leonor estavam escancaradas. As caixas de madeira de Viana, onde a esposa guardava cartas, documentos da família e joias de herança, estavam vazias no chão.

Mas o mais revelador estava em cima da cama: uma mala de cabEla estava cheia até à borda com pilhas de notas de euro, dossiês com o logótipo da destilaria e, no fundo, o diário pessoal de Leonor, que ela escondera antes do seu misterioso acidente de carro na serra do Marão.

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