Naquela Noite, o Rugido Quebrou o Silêncio.6 min de lectura

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Aquela noite, o silêncio foi rasgado por motores.

Não eram carros da aldeia. Em São Brás, os motores soam cansados, como se também tivessem fome. Aquele foi diferente: um rugido limpo, uniforme, de carrinhas novas, a aproximarem-se sem pudor pelo caminho de terra.

Apaguei de repente o candeeiro.

A minha casa ficou às escuras, apenas com o brilho vermelho da lareira. Lá fora, os cães começaram a ladrar como se vissem o diabo.

O homem — Ricardo do Monte, ou como quer que se chamasse — tentou endireitar-se, mas gemeu. Tinha marcas nos pulsos e no pescoço como se o tivessem amarrado com força.

— Não se mexa — sussurrei-lhe. — Se o trouxeram ao rio, foi para que não se voltasse a levantar.

Ele engoliu em seco, com os olhos cravados em mim.

— Se me encontrarem aqui… matam-na.

Não me surpreendeu. Aos meus setenta e seis anos, uma pessoa já não se assusta facilmente; cansa-se de ter medo.

— Então não te vão encontrar — respondi. — Porque esta casa é pobre, mas sabe guardar segredos.

Na parede, atrás de um saco de milho, havia uma portinha de madeira que quase ninguém notava. O meu falecido marido construiu-a nos anos do pós-guerra, quando esconder pessoas era uma questão de vida ou morte. Dava para um buraco sob o chão, um quarto frio onde antes guardávamos feijão e ferramentas… e onde, uma vez, se escondeu um rapaz perseguido por caciques.

O Ricardo olhou para mim sem entender.

— O que é isso?

— A tua segunda oportunidade — respondi.

Arrastei-o como pude, cerrei os dentes, senti os meus joelhos a ranger, mas não o larguei. Meti-o no esconderijo e deixei-lhe um cobertor, água e uma vela pequena.

— Não faças barulho — ordenei. — Se entras em pânico, morres tu… e matas-me a mim.

Ele anuiu, com a cara branca.

Fechei a portinha. Voltei para a lareira. Sentei-me como se nada fosse. Esperei.

Os motores pararam mesmo em frente da minha casa.

Batidas na porta.

— Abra! — gritou uma voz. — Guarda Nacional Republicana.

As minhas costas ficaram tensas. Em São Brás, a GNR não aparecia assim, de noite, sem avisar. Quando vinham, era por papéis, por uma discussão… não com a urgência de uma caçada.

Levantei-me devagar e abri a porta apenas uma fresta.

Três homens lá fora. Não traziam o cheiro dos agentes da terra: tabaco, café, estrada. Traziam perfume caro e pressa. Um deles tinha colete, sim… mas novo, limpo, como se o tivesse comprado nesse mesmo dia.

— Boas noites, senhora — disse o do meio, forçando simpatia. — Procuramos um homem. Pode ter caído no rio. A senhora viu alguma coisa?

Agarrei-me à ombreira da porta, curvada de propósito, dando-lhes a velha que esperavam ver.

— Eu? — tossi. — Eu já nem os santos vejo, filho. Só vim buscar água e voltei.

O tipo sorriu-me como se sorri quando não se acredita em nada.

— Deixa-nos entrar?

Não. Se entrassem, revistassem, encontrariam o esconderijo. E aí acabava-se tudo.

— Entrar? Para quê? — disse. — Esta casa é de uma só peça. Se procuram comida, não há. Se procuram dinheiro… menos ainda.

Um dos homens, o mais novo, olhou para a janela. Vi nos seus olhos o que era: não era polícia. Era caçador.

— Senhora, não nos faça perder tempo — disse, e a sua mão foi à cintura, onde se via a coronha de uma arma.

Respirei fundo. E então fiz algo que nunca pensei fazer à minha idade:

Soltei o grito mais forte da minha vida.

— SÃO BRÁS! A MIM!

A minha voz ecoou pela rua como uma pedra numa lata. Numa terra pequena, um grito assim não é drama: é alarme.

Os homens ficaram parados por um segundo.

— Cale-se, velha! — cuspiu o mais novo.

Mas já era tarde.

Acenderam-se luzes nas casas vizinhas. Abriram-se portas. Ladrados. Passos. Vozes.

— O que aconteceu, Amélia?
— Quem está aí?
— Eles trazem pistola!

O do meio praguejou baixinho. Notou-se que não esperavam testemunhas.

— Vamo-nos embora — rosnou.

— Não, revista — disse o mais novo, teimoso.

E o terceiro, silencioso, virou a cara… e aí reconheci-o finalmente.

Não pelo nome, mas pela sua maldade.

Era Fabião Aguiar, o filho do “senhor” Aguiar, dono de metade da região, aquele que sempre tinha o presidente da câmara de joelhos. Tinha-o visto de longe nas festas da câmara municipal, de fato, copo na mão e um sorriso de tubarão.

— Amélia — disse ele, como se fôssemos conhecidos. — Não grite. Ninguém quer problemas.

Mantive o seu olhar.

— Os problemas não chegam quando se grita, Fabião. Chegam quando se cala.

Os vizinhos já se amontoavam a uns metros, com paus, lanternas, pedras na mão. Ninguém era valente sozinho… mas todos juntos, a coisa mudava.

Fabião estalou a língua e recuou.

— Isto não fica assim — murmurou.

Subiram para as carrinhas e foram-se embora, levantando poeira.

Mas eu sabia uma coisa: iam voltar. Com mais gente. Com mais armas. Com menos paciência.

Entrei em casa, fechei a porta com a tranca e fui ao esconderijo.

O Ricardo estava pálido, a ouvir tudo de baixo.

— Quem eram? — sussurrou.

— Os que mandam sem farda — disse-lhe. — E agora já sabem que eu estou a atrapalhar.

O Ricardo cerrou a mandíbula. Notava-se que a vergonha o mordia.

— Não a devia ter envolvido nisto.

— Não me envolveste — cortei-lhe. — Fui eu que me meti no rio sozinha.

Ele ficou calado uns segundos.

— Amélia… eu não sou um santo. — Respirou fundo. — Ricardo do Monte está desaparecido porque o meu próprio sócio me vendeu. E porque eu… eu descobri algo que não devia.

— O quê?

Ele tirou algo das calças molhadas: uma pen USB, embrulhada em plástico e fita, como se a tivesse protegido com o corpo.

— Isto. — A sua voz quebrou. — Provas de uma fraude de mil milhões de euros. Não só em Portugal… também aqui. Com a água. Com a terra. Com a sua terra.

Senti um frio pior que o do rio.

— Como assim com a minha terra?

O Ricardo engoliu em seco.

— O projeto da “nova barragem”. Aquele que o presidente da câmara ostenta. Aquele que dizem que vai trazer trabalho. É mentira. É um branqueamento. Vão inflacionar contratos, desviar dinheiro e depois… vão secar este rio para ficar com a concessão. O seu povo vai ficar sem água e com dívidas.

Faltou-me o ar. Lembrei-me de reuniões na praça, promessas, fotos, bandeiras, discursos:

“São Brás vai crescer.”

E eu, parva, a pensar que crescer era ter uma caixa multibanco.

— E tu como é que sabes?

O Ricardo olhou-me diretamente.

— Porque eu financiei o início sem saber. Fui o “nome elegante” de que precisavam para o tornar legal. Quando percebi… quis sair e denunciar. Amarraram-me e atiraram-me ao rioOlhei para a chama da vela a tremer no seu abrigo, e percebi que a luta por aquela água era a luta por tudo.

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