Uma Proposta Inesperada no Trabalho A mãe, hesitante, aceitou a proposta, mas apenas depois de negociar que seu primeiro “trabalho” seria um jantar longe daquela sala, para que ele realmente conhecesse a mulher por trás da funcionária.6 min de lectura

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Uma noite de Janeiro em Lisboa era tão fria que o ar parecia gelar assim que saía dos lábios. Carolina Silva estava de joelhos no chão, a esfregar a casa de banho do 12º andar de um prédio de escritórios, quando o telemóvel no bolso começou a vibrar. Olhou para as horas: 5 da manhã. Ninguém ligava àquela hora a não ser que algo estivesse errado. O coração apertou-lhe quando viu o número da creme no visor. A voz da educadora do outro lado era monocórdica e distante, como se lesse um comunicado. A Leonor tivera febre alta desde a meia-noite. A bebé não parava de tossir. A creche não podia aceitar uma criança com sinais de doença. Carolina tinha de a ir buscar imediatamente. Antes que conseguisse proferir uma palavra, a chamada terminou. Ela levantou-se de um salto, a cabeça a andar à roda. Leonor, a sua pequena filha de 8 meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.

Carolina saiu a correr do edifício sem dizer a ninguém, atirando-se à escuridão gélida. A chuva fina começara a cair, gotículas que lhe batiam no rosto como agulhas minúsculas. Correu três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi. Quando chegou à creche, os lábios estavam azuis e as pernas dormentes. Leonor estava ao colo da educadora, o rosto rubro de febre. Os seus gritos fracos soavam como os de um gatinho abandonado. Carolina puxou a filha para perto, sentindo o calor que irradiava do pequeno corpo através das roupas finas. A sua criança estava a arder em febre. Carregou a Leonor de volta para o quarto alugado e degradado num bairro social de Chelas. O quarto mal tinha 10 metros quadrados, as paredes manchadas de humidade, a janela tapada com fita-cola porque o vidro partira há muito. O aquecedor estava avariado há duas semanas.

Carolina deitou a Leonor na cama, envolveu-a em mantas, e abriu o armário dos medicamentos. Estava vazio. Usara o último xarope para a febre na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas escorreram-lhe pelas faces enquanto via a filha a contorcer-se com dores de febre. O telemóvel vibrou novamente. Desta vez era a empresa de limpeza. Carolina atendeu e a voz da sua supervisora surgiu, cortante e zangada. Onde estava ela? Porque tinha abandonado o turno? Carolina tentou explicar sobre a Leonor, sobre a febre, sobre precisar de um dia de folga. A supervisora cortou-lhe a palavra. Havia um trabalho especial hoje, um cliente VIP, uma mansão no Monte Estoril. Se não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.

Carolina quis gritar. Quis atirar o telefone contra a parede, mas não pôde porque, se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Leonor, nem para os remédios. Ela e a filha ficariam na rua naquele inverno brutal. E o Rui, o seu ex-marido violento que a perseguia pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca. Carolina olhou para a Leonor, que ora adormecia ora acordava de exaustão. Não tinha com quem deixar a sua criança. Tomou a única decisão que podia. Vestiu a Leonor com mais camadas de roupa, envolveu-a em três mantas, e colocou-a no carrinho de bebé abanadiço que comprara num *charity shop* por cinco euros. Enfiou um biberão, fraldas e xarope para a febre, emprestado por uma vizinha, na sua saca. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na tempestade.

O endereço na mensagem levou-a ao Monte Estoril. Carolina nunca lá pusera os pés antes. Sentiu-se como uma nódoa numa pintura perfeita. Quando parou em frente ao endereço indicado, o coração quase parou. Diante dela erguia-se uma mansão imponente, escura como a noite, com portões de ferro altíssimos entalhados com carrancas de leão. Carolina ficou parada diante do portão de ferro por um longo momento, sem se atrever a entrar. A Leonor resmungava no carrinho, os seus gritos fracos engolidos pelo vento e pela chuva. Carolina inspirou fundo e empurrou o portão pesado. Este abriu-se sem um som, como se estivesse perfeitamente oleado. Um caminho de pedra negra levou-a por um jardim desolado. Estátuas de pedra estavam dispersas de ambos os lados. Carolina estremeceu e puxou a manta para cobrir melhor o rosto da Leonor. A porta da frente da mansão era de carvalho maciço. Empurrou-a levemente, e a porta abriu-se como se a casa a estivesse à sua espera.

Lá dentro, o hall principal era vasto como uma catedral. O chão de mármore negro brilhava como um espelho, refletindo a sua pequena figura perdida. Carolina sentiu-se como uma formiga que vagueara para o palácio de demónios. Havia algo naquela casa que a aterrorizava até à medula. O ar era pesado e frio, transportando um aroma de solidão e dor. Uma fina camada de pó cobria tudo. A Leonor começou uma crise de tosse prolongada. Carolina precisava de encontrar calor imediatamente. Abriu a primeira porta no rés-do-chão—uma sala de estar, mas o aquecedor estava avariado. Entrou a correr na divisão seguinte—uma sala de jantar. O aquecedão também estava avariado. O pânico começou a subir-lhe no peito. Agarrou na Leonor ao colo e subiu a escadaria a correr. O quarto de hóspedes, a biblioteca, a sala de recreio—todos avariados. A Leonor começou a chorar mais alto. Depois, no fundo do corredor no terceiro andar, encontrou um escritório com um aquecedor que libertava ar quente.

Carolina quase chorou de alívio. Colocou a Leonor perto do aquecedor, removeu algumas camadas de roupa e deu-lhe o xarope. A Leonor acalmou lentamente, as suas pálpebras pesadas fecharam-se. Carolina meteu a *baby monitor* no bolso e decidiu começar a trabalhar enquanto a Leonor dormia. Não sabia que, enquanto ela esfregava a escada no primeiro andar, um carro negro e elegante parara lá fora e o dono da mansão entrava em sua casa. Carolina estava de joelhos no 12.º degrau quando ouviu o choro—o choro da Leonor, mas era um choro de medo. Carolina largou o esfregão e disparou escada acima. A *baby monitor* no seu bolso não emitia som; avariara. Correu pelo corredor. O choro da Leonor parou. O silêncio súbito era aterrador.

Abriu a porta do escritório à força e gelou. Um homem estava no centro da sala de costas para ela, alto, de ombros largos, vestindo um sobretudo preto longo. Nos seus braços estava a Leonor, encostada ao peito de um estranho. Carolina viu uma arma negra e elegante em cima da secretária de madeira. O homem balouçava-se suavemente, um som baixo de shhh a sair-lhe da boca. Depois, o homem virou-se. O seu rosto era talhado como granito, os olhos da cor de uma tempestade. No entanto, no fundo daqueles olhos, Carolina viu uma dor profunda.

“Quem é você?” A sua voz era baixa.
“Sou a Carolina. Carolina Silva. A mulher da limpeza. Não sabia que vinha hoje.”
Ele estudou-a. “Esta criança, é sua.”
Carolina acenou com a cabeçaEle estendeu a mão, e no seu olhar já não havia tempestade, apenas uma calma resignada, e disse: “Venha, vamos cuidar dela juntas.”

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