O Velho Guerreiro e a Fúria dos MotociclistasO rugido de quarenta e sete motores se ergueu como um trovão vingativo.6 min de lectura

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O punk deu uma chapada tão forte no veterano idoso que o seu aparelho auditivo voou pelo estacionamento, sem saber que 47 motociclistas observavam de dentro.

Estava a abastecer no Stop & Go na Estrada Nacional 2 quando ouvi a bofetada. Aquele som distinto da palma da mão a encontrar o rosto, seguido do barulho de algo de plástico a bater no alcatrão.

Quando me virei, vi Henrique Vaz—81 anos, veterano da Guerra Colonial, condecorado com a Medalha de Valor Militar—de joelhos no parque de estacionamento, com sangue a escorrer do nariz.

O jovem de pé sobre ele não teria mais de 25 anos. Boné virado para trás, tatuagens na cara, calças caídas abaixo da cintura, a filmar tudo com o telemóvel enquanto os seus dois amigos riam.

“Devias ter metido na tua vida, velhote,” disse o punk, a aproximar o zoom no rosto de Henrique. “Isto vai ter imensas visualizações. ‘Velhote leva porrada por falar demais.’ Vais ficar famoso, avozinho.”

O que o punk não sabia era que Henrique não estava a falar demais. Apenas tinha pedido que movessem o carro do lugar de deficiente para ele poder estacionar mais perto da porta o seu tanque de oxigénio.

O que o punk também não sabia era que o Stop & Go era a nossa paragem habitual, e que 47 membros dos Lobos da Estrada MC estavam lá dentro na nossa reunião mensal na sala das traseiras.

Sou Daniel “Tanque” Marques, 64 anos, presidente dos Lobos da Estrada. Estávamos a ter o nosso briefing de segurança quando ouvimos o alvoroço.

Pela janela, observei Henrique a lutar para se levantar, as mãos a tremer enquanto procurava o seu aparelho auditivo.

“Irmãos,” disse baixinho. “Temos uma situação.”

A coisa sobre Henrique Vaz—ele vai àquele Stop & Go todas as quintas-feiras às 14h para comprar um raspadinha e um café. Faz isso há quinze anos, desde que a sua mulher, Maria, faleceu. O dono, Silva, sempre tinha o café pronto—dois açúcares, sem leite. Henrique sentava-se ao balcão, contava histórias sobre a Guerra Colonial, raspava os bilhetes, e ia para casa.

Toda a gente na vila conhecia o Henrique. Fora mecânico na oficina da Renault durante quarenta anos. Arranjava carros de graça quando mães solteiras não podiam pagar. Ensinou a metade dos miúdos da vila a mudar o óleo na sua garagem. Nunca pediu nada em troca.

Agora ele estava de joelhos num parque de estacionamento enquanto três punks o filmavam para pontos na internet.

O punk pontapeou o aparelho auditivo de Henrique pelo alcatrão. “Que se passa, avozinho? Não consegues ouvir-me agora? Eu disse LEVANTA-TE!”

As mãos de Henrique estavam cortadas da queda. Aos 81 anos, a pele não volta ao sítio. Rasga-se. Sangue misturava-se com as nódoas de óleo no cimento enquanto ele tentava erguer-se.

“Por favor,” disse Henrique, a voz trémula sem o aparelho auditivo para calibrar o volume. “Eu só precisava de estacionar—”

“Ninguém quer saber do que precisas!” O amigo do punk juntou-se, os dois a filmar agora. “Velhote branco a achar que é dono do lugar. Isto agora é a geração nova.”

Foi então que dei o sinal.

Quarenta e sete motociclistas levantaram-se em uníssono. O som das cadeiras a raspar no cimento ecoou pela loja. Silva, que estivera a observar nervoso por detrás do balcão, recuou.

Não nos apressámos. Não corremos. Saímos da loja em formação, dois a dois, as nossas botas a criar um ritmo que fez toda a gente no estacionamento virar-se. O punk estava demasiado focado no seu vídeo para notar de início.

“Eh, diz qualquer coisa para a câmara, velhote. Pede desculpa por faltar ao respeito—”

Ele parou a meio da frase quando a minha sombra caiu sobre ele. Quando se virou, o telemóvel ainda a gravar, encontrou-se a olhar para o meu peito. Depois olhou para cima. E ainda mais para cima.

“Problema aqui?” perguntei calmamente.

O punk tentou fazer-se de durão. “Sim, este velhote racista tentou mandar-nos estacionar. Nós resolvemos.”

“Racista?” Olhei para Henrique, ainda no chão. “Henrique Vaz? O homem que pagou o funeral do Jorge Silva quando a família não teve dinheiro? O tipo que ensinou metade dos miúdos negros desta vila a arranjar carros de graça? Esse Henrique?”

A bravata do punk vacilou. Os seus amigos pararam de filmar, subitamente muito conscientes de que estavam cercados por uma muralha de couro e ganga.

“Ele… ele chamou-nos marginais.”

“Não,” disse Henrique do chão, “pedi-vos para saírem do lugar de deficiente. Tenho um cartão. O meu oxigénio—”

“Cala-te!” O punk levantou a mão para dar outra chapada a Henrique.

Apanhei o seu pulso a meio do movimento. Não com força. Apenas firme. “Chega.”

“Larga-me, homem! Isto é agressão! Estou a filmar isto!”

“Bom,” disse o Crusher, o meu sergeant-at-arms. “Certifica-te que gravas a cara de todos. A polícia vai querer saber quem testemunhou o teu assalto a um veterano deficiente de 81 anos.”

O punk puxou a mão para trás. “Nós vamos embora.”

“Não,” eu disse. “Não vais.”

“Não podes reter-nos aqui!”

“Não estou a reter-vos. Mas vais apanhar aquele aparelho auditivo, pedir desculpa ao Henrique, e depois esperar pela polícia.”

“Não peço desculpa de porra nenhuma!”

Foi então que Henrique falou, ainda no chão, a voz mais firme agora. “Deixa-os ir, Daniel. Estou bem.”

Olhei para Henrique—a sangrar, humilhado, aparelho auditivo partido algures no parque de estacionamento—e ele estava a pedir-me para os deixar ir.

“Tens a certeza?”

“A violência não resolve violência. A Maria dizia sempre isso.”

O punk riu-se. “Pois, ouve o teu avozinho, homem da mota. A violência não resolve—”

A bofetada veio tão rápido que ninguém a viu chegar. Não de mim. Da namorada do punk, que acabara de chegar no seu carro.

“Bruno, que raio estás a fazer?” Ela saiu do carro, a marchar na nossa direção no seu uniforme de enfermeira—parecia ser da saúde. “É o Sr. Vaz? É O SR. VAZ NO CHÃO?”

O punk—Bruno—ficou pálido. “Miúda, posso explicar—”

“Este é o homem que arranjou o carro da minha mãe de graça! Este é o homem que te deu emprego na oficina antes de seres despedido por roubar!” Ela deu-lhe outra chapada. “E tu deitaste-o no chão?”

“Ele faltou-nos ao respeito—”

“Como? Por existir? Por ser velho?” Ela passou por ele e ajoelhou-se ao lado de Henrique. “Sr. Vaz, peço imensa desculpa. Deixe-me ajudá-lo.”

“Carla?” Henrique apertou os olhos para a ver. “Pequena Carla Santos? És enfermeira agora?”

“Sim, senhor, graças à carta de recomendação que escreveu para a minha bolsa. Consegue levantar-se?”

Dois dos meus irmãos ajudaram Henrique a levantar-se enquanto Carla verificava os seus ferimentos. O punk tentou esgueirar-se para longe, mas o Crusher colocou-se à sua frente.

“A tua miúda tem razão,” disse o Crusher. “Premas o Bruno ficou parado, com os olhos fixos no chão, finalmente compreendendo o peso do que tinha feito.

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