Hoje, ao chegar a casa exausto do escritório, deparei-me com uma cena que me fez parar a seco. O milionário regressava cansado e mal podia acreditar no que a sua empregada, a Dona Margarida, fazia com os seus filhos. Estavam todos no jardim, os quatro rapazes, a correr descalços pela relva, encharcados, a gritar e a rir como há muito não via. Fiquei parado, incapaz de me mover, pois aquela imagem não se encaixava na realidade que eu conhecia.
Os meus filhos não riam daquela maneira, não corriam descalços, não gritavam de alegria como se o mundo lhes pertencesse, e muito menos permitiam que alguém se aproximasse sem se queixarem ou fugirem para dentro de casa. Desde que a Carolina partiu, desde que pegou nas malas e desapareceu sem olhar para trás, aquelas quatro crianças transformaram-se em fantasmas silenciosos que mal levantavam os olhos quando eu chegava, que comiam em silêncio, que dormiam cedo demais, que pareciam ter esquecido como era ser criança a sério. Eu tinha tentado de tudo. Contratei três amas diferentes nos últimos cinco meses. Comprei brinquedos caros, consolas de videojogos, bicicletas novas, tudo o que pudesse arrancar um sorriso àqueles rostinhos cansados. Mas nada resultava, nada mudava.
E no fundo, eu sabia que o problema não eram os brinquedos. O problema era que eu não sabia ser pai sozinho, não sabia como falar com eles, como abraçar, como estar verdadeiramente presente quando a minha cabeça estava sempre noutro lugar, sempre a pensar na empresa, nos contratos, nas reuniões intermináveis que sugavam cada pedaço de energia que me restava.
Mas agora, naquele preciso momento, enquanto segurava a pasta de cabedal com as mãos suadas e o corpo dorido de cansaço, os meus quatro filhos corriam em círculos no jardim, completamente encharcados, com as t-shirts coladas ao corpo, o cabelo a pingar água, os pés descalços a enterrarem-se na relva molhada, e riam-se, riam-se a valer, com aquele som agudo e solto que só uma criança feliz consegue fazer.
E a responsável por tudo aquilo era a mulher que eu contratara há apenas três dias. A empregada que chegara com um currículo simples, sem referências de peso, sem experiência em casas grandes, mas que me olhara com uma estranha firmeza e dissera que sabia cuidar de crianças porque criara os cinco irmãos mais novos sozinha depois de a mãe ter adoecido.
Chamava-se Margarida e, naquele momento, estava de costas para mim, a segurar a mangueira com as duas mãos, enquanto apontava a água para os miúdos que saltavam e desviavam e gritavam: “Mais água, outra vez!” E ela ria com eles. Com uma naturalidade que parecia impossível, como se conhecesse aquelas crianças há anos, como se soubesse exactamente do que precisavam sem ter de perguntar.
Senti algo estranho a subir pelo peito, algo que não conseguia nomear, uma mistura de alívio e culpa e uma tristeza enorme, porque eu nunca fora capaz de fazer aquilo, nunca conseguira tirar aquele peso dos ombros dos meus próprios filhos, nunca fora capaz de transformar a casa num sítio onde pudessem ser simplesmente crianças.
Deitei a pasta no chão devagar, sem fazer barulho, e fiquei ali parado, a observar tudo como se estivesse a assistir à vida de outra pessoa, como se aquela cena não pertencesse à minha realidade. E foi só quando o mais novo dos quatro, o Tomás, tropeçou e caiu de cu na relva molhada, que senti o ar voltar aos pulmões.
Porque em vez de chorar, em vez de gritar ou fazer o escândalo que eu esperava, o Tomás levantou a cara, olhou para a Margarida e começou a rir ainda mais alto, como se cair fosse a coisa mais engraçada do mundo. A Margarida largou a mangueira na relva e correu para ele de braços abertos, agachou-se à frente do miúdo e perguntou: “Magoa-te, Tomás?” E ele abanou a cabeça toda molhada, ainda a rir, e ela estendeu a mão para o ajudar a levantar.
Mas em vez de aceitar a mão, o Tomás puxou-lhe o braço com força e a Margarida perdeu o equilíbrio e caiu sentada na relva ao lado dele. E os outros três viram aquilo e começaram a gritar de alegria e correram na direção deles e atiraram-se para cima dela como se fosse uma brincadeira combinada. E de repente, ali estava a Margarida no meio do relvado encharcado, com quatro crianças em cima dela, todas a rir, todas coladas a ela, como se ela fosse a pessoa mais importante do mundo.
E eu senti os olhos a arder, senti aquela coisa apertada na garganta que eu sempre engolia, mas desta vez não consegui segurar, porque pela primeira vez em meses via os meus filhos verdadeiramente felizes. E eu não tinha nada a ver com aquilo. Não era o responsável por aqueles sorrisos. Não era o pai de que precisavam.
Era uma estranha que entrara nas suas vidas há três dias e que conseguira fazer em minutos o que eu não conseguira em meses. Dei um passo atrás, querendo desaparecer antes que alguém me visse. Mas já era tarde, porque o Guilherme, o segundo mais velho, levantou a cabeça toda molhada e viu-me ali parado, de fato amarrotado e gravata torta.
E o sorriso dele desapareceu na hora, como se a minha presença tivesse partido qualquer coisa, como se a alegria só pudesse existir quando o pai não estava por perto. A Margarida percebeu a mudança, virou a cabeça e viu-me ali parado. E levantou-se depressa, limpando as mãos no avental molhado, com o rosto um pouco corado.
E eu vi nos olhos dela aquela preocupação de quem acha que fez algo errado, de quem pensa que vai ser despedida por ter saído da linha, por ter feito algo que não estava combinado. Ela abriu a boca para falar, mas eu levantei a mão devagar e abanei a cabeça e disse com a voz mais baixa do que pretendia: “Não pares.”
E a Margarida fechou a boca e ficou ali parada, sem perceber bem. E eu repeti, desta vez um pouco mais firme: “Não pares, por favor, continua com eles.” E vi o rosto dela relaxar, vi os ombros dela descerem e ela acenou com a cabeça lentamente e voltou a sorrir, e virou-se para as crianças e perguntou: “Quem quer mais água?” E os quatro miúdos gritaram que sim ao mesmo tempo, até o Guilherme, que ficara sério por um segundo, e a Margarida pegou de novo na mangueira e voltou a molhá-los.
E eu fiquei ali mais uns segundos a observar, sentindo aquele vazio enorme no peito, aquele peso de saber que tinha falhado como pai, que deixara as minhas próprias tristezas engolirem a infância dos meus filhos, e que agora uma mulher que eu mal conhecia estava a consertar tudo sozinha, sem sequer se aperceber.
Apanhei a pasta do chão e entrei pela porta lateral da casa, subi directamente para o quarto, sem olhar para nada, sem falar com ninguém, tranquei a porta e sentei-me na beira da cama com a cabeça entre as mãos e fiquei ali em silêncio, a tentar perceber como tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto, como me tornara tão distante dos meus próprios filhos que só conseguiam ser felizes quando eu não estava por perto.
Pensei na Carolina, pensei em como ela saíra desta casa a gritar que eu nunca estava presente, que só sabia trabalhar, que os miúdos nem conheciam o próprio pai. E eu achara que ela exagerava, que era injusta, porque eu trabalhava precisamente para lEle ouviu as gargalhadas que ainda ecoavam do jardim e, pela primeira vez, sentiu não ciúmes, mas uma imensa gratidão por aquela mulher simples que lhe estava a ensinar a linguagem mais importante: a do coração.





