Construíste a tua vida como uma torre de luxo, toda de ângulos e controlo, aço e silêncio. Cada manhã começa igual: o oceano lá fora no teu ático, o café expresso cronometrado ao minuto, a gravata que custa mais que a renda mensal de muitos. O teu nome, Rodrigo Albuquerque, percorre as salas de reuniões como uma chave-mestra, e as portas abrem-se antes mesmo de as tocares. Chamam-te disciplinado, visionário, imparável, como se o teu coração fosse uma folha de cálculo que nunca erra. Os escritórios da tua empresa erguem-se acima da costa, onde a luz do sol ricocheteia no mármore e ninguém sua a não ser de ambição. Estás habituado a que os problemas encolham no momento em que olhas para eles. Estás habituado a seres obedecido sem explicações. Por isso, quando a tua empregada de limpeza não aparece, a tua paciência parte-se como um fino canudo de vidro.
Começa com algo pequeno, quase insultuoso na sua simplicidade: um canto imaculado que não está imaculado. A Maria da Conceição Silva limpa o teu piso executivo há três anos, quieta como uma sombra, eficiente como uma máquina, grata da forma como as pessoas ficam quando precisam mais do emprego do que do seu orgulho. Depois falta um dia, depois outro, depois um terceiro, cada vez com a mesma frase transmitida através dos Recursos Humanos como um escudo. “Problemas familiares, senhor”, diz a mensagem, e saboreias a desculpa como se fosse açúcar falso. Escarneces porque no teu mundo, as emergências resolvem-se com dinheiro ou advogados, não com ausências. Ajustas os punhos da camisa e decides que a única forma de resolver um “problema de pessoal” é enfrentá-lo de frente. A tua assistente, a Patrícia, tenta suavizar o teu tom, lembrando-te que a Maria da Conceição nunca roubou tempo nem confiança. Mal a ouves porque a tua mente já rotulou a situação como desrespeito. No espelho, praticas a expressão fria que usas quando as pessoas te desiludem. Depois dizes a frase que sempre faz a sala calar-se: “Dá-me o endereço dela.”
O endereço aparece no teu ecrã como um desafio: Rua das Laranjeiras 847, Bairro da Mouraria. Quase consegues cheirar a distância entre aquele bairro e a tua vida de vidro e veludo. Imaginas um apartamento apertado com parentes barulhentos e lágrimas dramáticas, o tipo de caos que treinaste para evitar. Dizes a ti mesmo que o fazes por padrões, por disciplina, por uma questão de princípio. Não admites, nem em privado, que algo mais te puxa por baixo das costelas, um sentimento como um fio solto que te recusas a puxar. Tiveste uma irmã uma vez, a Sofia, e “família” nunca foi uma palavra que assentasse pacificamente na tua boca. Quinze anos podem passar e ainda deixar uma nódoa negra, especialmente quando a dor se embrulha em segredos e se enterra sob trabalho. Abanas a cabeça para afastar o pensamento porque as memórias são inconvenientes, e tu não gostas de inconveniências. A Patrícia pergunta se queres que a segurança te acompanhe, e rejeitas a ideia com um olhar severo. Não precisas de guarda-costas para visitar a casa de uma empregada, dizes a ti mesmo, porque apenas vais confirmar uma mentira.
O teu Mercedes preto desliza para fora do bairro rico como um tubarão a deixar um aquário limpo. A cidade muda em camadas à medida que conduzes, as montras perdem o brilho, as ruas estreitam-se, o ar em si fica mais pesado com calor e poeira. O pavimento transforma-se em alcatrão remendado, depois em buracos, depois em troços onde a estrada parece ter-se dado por vencida. Abrandas, não por respeito mas por necessidade, evitando poças que escondem betão partido como armadilhas. Miúdos atravessam a rua a correr com pés descalços e gargalhadas altas, e observas-os como se fossem uma espécie diferente. Cães vadios dormitam à sombra de árvores raquíticas, e velhos sentam-se em cadeiras de plástico como se o tempo aqui fosse barato. As pessoas olham para o teu carro como se fosse um rumor sobre rodas, e sentes o teu fato caro tornar-se um disfarce desconfortável. Manténs o queixo erguido, recusando-te a mostrar desconforto, porque a tua identidade é construída sobre nunca pareceres incerto. Quando chegas ao número 847, vês uma casa azul desbotada com madeira gretada e tinta a descascar, e quase te ris do desencontro. Depois sais do carro, e o silêncio do bairro junta-se brevemente à tua volta como uma curiosidade com dentes.
Bates com força, da forma como batês quando esperas complacência imediata. A princípio não há nada, depois um arrastar de pés, depois vozes abafadas, depois o choro inconfundível e fino de um bebé. A porta abre-se lentamente, como se a pessoa atrás dela esperasse que o mundo desaparecesse se se mexesse com cuidado suficiente. A Maria da Conceição está ali com um avental manchado, o cabelo apanhado num coque desalinhado, e olheiras que parecem esculpidas. Não é a trabalhadora polida e invisível que vês no teu escritório, e a diferença deixa-te irritado porque prova que ela é humana. A sua face perde a cor quando te reconhece, como se o medo lhe accionasse um interruptor. Sussurra, “Senhor Albuquerque?” como se dizer o teu nome pudesse accionar um alarme. Entregas a tua frase preparada com uma calma mais fria que o mármore do teu átrio. “Vim ver porque é que o meu escritório está sujo hoje”, dizes, e ouves o quão cruel soas, mas não o corriges. Ela move o corpo para bloquear a entrada, e o instinto protector no seu movimento irrita-te como um desafio.
Uma criança grita lá dentro, não um grito de birra mas um grito de dor, e atinge os teus nervos como uma sirene de emergência. Passas pela Maria da Conceição antes que ela te possa parar, porque estás habituado a que os espaços cedam a ti. A casa cheira a feijão, paredes húmidas, e algo metálico que te lembra febre. Os teus olhos ajustam-se à penumbra, e reparas na magreza de tudo: cortinas finas, móveis finos, margens de conforto estreitas. No canto, num colchão gasto, um rapazinho treme sob um cobertor que não parece suficientemente quente para contar. A sua face está ruborizada, os lábios secos, e a respiração vem em puxadas curtas e difíceis que apertam o teu peito sem permissão. Um bebé chora algures atrás de uma cortina, e ouves a voz da Maria da Conceição partir-se enquanto te implora que vás embora. Não respondes, porque a tua atenção é apanhada pelo que está em cima da pequena mesa de jantar como uma bomba plantada. Uma fotografia emoldurada está lá, e no momento em que a vês, o teu sangue parece gelar.
A foto é da Sofia, a tua irmã, a sorrir com aquela suavidade familiar que o trabalho nunca te ensinou. Ao lado está um pendente de ouro, aquele que a tua família chamava de herança de família, aquele que desapareceu no dia em que a enterraste. Por um segundo, não te podes mexer, porque a dor não pede permissão para regressar. A tua mão fecha-se à volta do pendente, e ele treme na tua mão como se te reconhecesse. “Onde é que arranjaste isto?” exiges, e o som da tua própria voz surpreende-te com a sua aspereza. A Maria da Conceição cai de joelhos como se a perguntaO teu mundo, tão perfeitamente construído sobre alicerces de controlo e silêncio, desmoronou-se naquele instante com o som abafado do teu próprio coração a bater contra as costelas, um som que ecoava o caos de uma verdade que nem todo o teu dinheiro poderia jamais arrumar.





