Vinte e Um Anos Depois, a Bondade Retornou em uma MultidãoEla mal podia acreditar quando viu que aquele jovem, agora um homem forte e próspero, estava à frente do grupo, pronto para retribuir aquele único gesto de bondade que salvou sua vida naquela noite fria.6 min de lectura

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A cidade de Viseu paralisou sob o calor da manhã. O rugido começou como um trovão distante, ecoando pelos vales verdejantes da Beira Alta, até se transformar numa sinfonia de aço e potência. Noventa e sete motos em formação cerrada, avançando pela Rua Direita em direção à pequena pastelaria. Motociclistas de clubes fechados não apareciam assim no interior. Não deste modo. Não em número tão avassalador.

As mãos de Leonor tremeram ao trancar a caixa registadora. Vinte e um anos antes, alimentara um adolescente faminto, com um olho negro e uma camisa de cabedal que parecia roubada. Der-lhe-ia pão, não fizera perguntas e dissera-lhe que ele importava. Depois, ele desaparecera.

Agora, o líder descia da moto, tirando o capacete. Quando o rosto lhe ficou visível, cada um daqueles anos desfez-se em pó. O que fizera por um rapaz perdido estava prestes a mudar tudo.

O som começou baixo, como o prenúncio de uma tempestade a descer das serras. Depois, cresceu, tornou-se mais alto, mais próximo, um ruído que não pertencia a Viseu numa manhã de terça-feira. Leonor Silvestre, aos 64 anos, arrumava pastéis de nata na vitrine quando a Dona Amélia, sua cliente mais antiga e maior fonte de fofocas da vila, entrou na pastelaria com os olhos arregalados.

— Leonor, tens de ver isto.

A pasteleira limpou as mãos no avental, uma peça outrora branca, agora manchada por uma vida inteira dedicada à farinha e ao açúcar, e seguiu a cliente até à janela. O que viu gelou-lhe o sangue.

Motos. Dezenas. Não, mais. Contou três filas, cada uma a ocupar a extensão da Rua Direita. Noventa e sete Harley-Davidson a avançar em direção à sua pastelaria em perfeita formação. O cromo brilhava sob o sol. Os pilotos, vestidos de cabedal, sentavam-se erectos. Cada um usava o mesmo emblema nas costas: uma caveira alada, com um sorriso eterno, e as palavras “Anjos da Estrada MC” por cima.

Isto não acontecia em terrinhas como Viseu. População: 2.400 almas. Um semáforo, três igrejas, um coreto na praça principal. Um sítio onde todos se conheciam, onde a notícia do dia era normalmente quem ganhara o concurso de doces na festa da cidade.

As motos pararam em frente à “Doçuras da Leonor” e os motores calaram-se um a um. O silêncio súbito pareceu mais pesado e ameaçador do que o ruído. As mãos de Leonor agarraram a borda do balcão de madeira. A gaveta do caixa estava aberta; estava a meio da contagem das receitas do dia anterior.

Pela montra, viu o piloto da frente apear. Alto, talvez um metro e noventa, rosto marcado pelo tempo, à volta dos quarenta. Uma cicatriz descia da têmpora esquerda até ao queixo. Vestia cabedal preto da cabeça aos pés, o seu colete coberto de emblemas que ela não compreendia. Quando tirou o capacete, um cabelo escuro e comprido caiu-lhe sobre os ombros. Olhou directamente para a pastelaria, para ela, e começou a caminhar em direção à porta. Atrás dele, outros noventa e seis homens fizeram o mesmo.

A mente de Leonor disparou. O que teria feito? A quem teria ofendido? Morava naquela terra há 43 anos, gerira a pastelaria há 25. Pagava os seus impostos, ia à missa aos domingos, ajudava os vizinhos. Não era o tipo de pessoa que atraía este tipo de atenção.

Mas depois, algo cintilou no fundo da sua memória. Um Inverno diferente, 21 anos antes. Um rapaz com um olho negro e o estômago vazio. Uma camisa de cabedal roubada que parecia exactamente como as que aqueles homens usavam. Der-lhe-ia pão. Der-lhe-ia abrigo. Disse-lhe algo de que já não se lembrava bem, algo que o fizera chorar. Depois, ele desaparecera sem deixar rasto, e ela passara anos a interrogar-se se teria sobrevivido.

O líder alcançou a maçaneta. O coração de Leonor batia com força contra as costelas. Cada cliente na pastelaria calara-se. Dona Amélia agarrou a carteira como se se preparasse para fugir. O velho Senhor Artur, que lia o seu jornal no canto todas as manhãs de terça-feira nos últimos 30 anos, dobrou-o lentamente e pousou-o na mesa.

A porta abriu-se. O homem entrou. De perto, era ainda maior, mais largo. Mas os seus olhos… os seus olhos não eram duros. Eram penetrantes, a olharem para ela como se tentassem decifrar um enigma. Tirou os óculos de sol. A sua voz era profunda, rouca, mas não hostil.

— Leonor Silvestre?

Ela anuiu. A garganta fechara-se. Nenhuma palavra saía.

Ele olhou em redor da pastelaria lentamente, absorvendo cada detalhe. Os pastéis de nata a arrefecer em grades de arame. As fotografias na parede, imagens desbotadas da inauguração, do seu falecido marido Artur, de pé, orgulhoso, em frente à fachada. O menu no quadro, escrito com a sua caligrafia cuidada. As cortinas axadrezadas vermelhas e brancas que ela própria cosera. O cheiro a fermento, açúcar e café que definia aquele lugar há um quarto de século.

— Lembra-se de ter alimentado um rapaz em 2003? — Os seus olhos voltaram a fixar-se nela. — Dezassete anos, todo arrebentado. Sem ter para onde ir.

A mão de Leonor voou para o peito. A memória que cintilava tornou-se mais nítida, mais clara. O rapaz, a frente fria de Janeiro, a pancada na porta antes do amanhecer.

— Deu-lhe pão — continuou o homem, a voz a suavizar. — Deu-lhe um sítio para dormir. Disse-lhe algo que ele nunca esqueceu.

Atrás dele, mais homens entravam na pastelaria. Moviam-se em silêncio, respeitosamente, mas encheram o pequeno espaço até mal haver lugar para respirar. Cabedal e jeans, e o cheiro a pó da estrada. Tatuagens a cobrir braços, pescoços, mãos. Emblemas a declarar secções de cidades onde ela nunca estivera. Rostos que tinham visto uma vida dura, anos difíceis, escolhas difíceis. Mas nenhum deles parecia ameaçador. Pareciam homens à espera de algo importante.

As mãos de Leonor tremiam agora. Pressionou-as contra o balcão para parar o tremor.

— Lembro-me — sussurrou.

O rosto do homem mudou. Algo na sua expressão abriu-se.

— Bom — disse ele. — Porque aquele rapaz também nunca se esqueceu de si.

Vinte e um anos antes, Leonor Silvestre era uma mulher diferente. Mais nova, sim, 43 em vez de 64. Mas, mais do que isso, estava oca de luto, esfolada pela perda, mal se aguentando de pé com rotinas, responsabilidades e a teimosa recusa em desistir do sonho do seu falecido marido.

Artur Silvestre morrera em Novembro de 2002. Acidente de construção, o colapso de um andaime numa obra no Porto. Tinha 45 anos. Estavam casados há 22. Morrera instantaneamente, disseram os médicos. Não sofrera. Como se isso devesse tornar as coisas melhores.

A pastelaria fora ideia dele. Artur trabalhara na construção civil toda a sua vida adulta, mas falava sempre em abrir um negócio, algo que pudessem gerir juntos, algo que pudessem deixEla olhou para aquele homem, para os seus irmãos, para a nova vida que se estendia à sua frente, e compreendeu que o amor nunca é um acto solitário, mas uma semente que, uma vez lançada, floresce para sempre.

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