A torre de champanhe brilhava sob o céu de Lisboa. Duzentos funcionários enchiam a sala de conferências no trigésimo andar, a rir, a dançar, a celebrar mais um ano de recordes.
Maria empurrava o carrinho da limpeza pela multidão, recolhendo as taças de champanhe para o seu cesto cinzento. Tinha feito aquilo todos os Natais há seis meses. Antes disso, durante trinta anos, como a mulher do fundador.
“Com licença”, disse suavemente, estendendo a mão para um copo na mesa da direção.
Marcos não se mexeu. O novo CEO estava esparramado na cadeira de cabedal, com o seu fato de marca que provavelmente valia mais do que Maria ganhava num mês. Pelo menos, era isso que todos pensavam que ela ganhava.
“Ainda aqui estás?” disse Marcos em voz alta. As conversas à volta deles silenciaram. “Pensei que tinha dito aos Recursos Humanos para resolver isto antes da festa.”
Maria endireitou-se. “Resolver o quê, senhor?”
“Estás despedida. Com efeito imediato.” Ele sorriu para as caras chocadas que os observavam. “Peso morto. Vamos cortar custos no novo ano, começando pelas posições desnecessárias.”
A Sara da contabilidade suspirou. “Marcos, é Véspera de Natal—”
“Isto chama-se negócios, Sara. Talvez sejas a próxima se não gostares.” Voltou-se para Maria. “Tens cinco minutos para sair. A segurança vai acompanhar-te.”
Maria pousou os seus utensílios de limpeza. As suas mãos não tremiam. “Posso perguntar por que razão sou desnecessária?”
“Porque posso contratar alguém com metade da tua idade por metade do custo. És lenta, és velha e, francamente”—fez um gesto na direção do seu uniforme—”és deprimente de se olhar.”
Alguém no fundo da sala começou a chorar. O Tomás do departamento jurídico avançou. “Isto é errado—”
“Senta-te, Tomás, a não ser que quejas ver o teu bónus revogado.” Marcos pegou no telemóvel. “Todos de volta à festa. O espetáculo acabou.”
Mas Maria não se mexeu. Meteu a mão no bolso do avental. Não para lenços. Para o seu iPhone.
“O que é isso?” riu-se Marcos. “Vais ligar para o teu sindicato? Não temos sindicato, querida.”
“Não.” A voz de Maria era firme agora. Mais clara. Diferente. “Vou mostrar-te uma coisa.”
Mostrou o telemóvel. No ecrã: um vídeo de Marcos no seu escritório há três semanas, a transferir fundos da empresa para a sua conta pessoal. O áudio era cristalino.
A cara de Marcos ficou branca. “Onde é que arranjaste isso?”
“Da câmara no detetor de fumo que nunca notaste.” Maria passou o dedo no ecrã. Outro vídeo. Marcos a prometer a uma vítima de assédio que seria despedida se o denunciasse. Passou o dedo. Marcos a instruir o diretor financeiro a falsificar relatórios trimestrais. Passou o dedo. Marcos a receber luvas de fornecedores.
A sala ficou em silêncio, à exceção dos vídeos a reproduzir.
“Vês, Marcos, tenho documentado tudo há seis meses.” Maria tirou o avental de limpeza. Por baixo: um fato preto taladrado. Pérolas no pescoço. “Desde que entraste nesta empresa e começaste a destruir o que o meu marido construiu.”
Os olhos do Tomás arregalaram-se. “Espera… Maria… como em Maria Silva?”
“Silva-Rodrigues, na verdade.” Ela pousou o avental na mesa. “O meu falecido marido, David Silva, fundou esta empresa há quarenta anos. Quando ele faleceu no ano passado, herdei as suas ações de controlo. Cinquenta e um por cento.”
Os suspiros percorreram a sala como uma onda.
Marcos levantou-se, empurrando a cadeira para trás. “Isso é impossível. O nome da viúva era—”
“Maria Silva. Voltei a usar o meu nome de solteira, Rodrigues, quando me candidatei à posição de limpeza. Queria ver como a empresa do meu marido estava realmente a funcionar.” Ela olhou à volta para os funcionários, muitos dos quais choravam agora. “Queria ver como todos vocês estavam a ser tratados.”
A Sara foi a primeira a começar a aplaudir. Depois o Tomás. Depois, a sala inteira irrompeu em aplausos.
Marcos tentou agarrar o telemóvel. “Não podes—essas gravações são ilegais—”
“Portugal é um país de consentimento de uma parte. Eu fui a parte que consentiu.” Maria puxou o telemóvel para trás. “Mas tens razão numa coisa. De facto, há alguém que quer falar contigo.”
Acenou com a cabeça na direção do fundo da sala.
Dois homens de fatos escuros avançaram, crachás já visíveis. “Marcos Breno? PJ. Está preso por fraude electrónica, desvio de fundos e fraude de valores mobiliários.”
Marcos recuou a tropeçar. “Isto é de loucos! Eu sou o CEO!”
“Já não é.” Maria pegou numa pasta em cima da mesa—uma que tinha colocado lá uma hora antes, disfarçada de papelada de limpeza. Abriu-a na carta de despedimento, já assinada pelo conselho de administração. “A reunião de emergência do conselho foi esta manhã. Eles votaram por unanimidade. Estás despedido, Marcos. Com efeito imediato.”
“Não podes fazer isto!” gritou Marcos enquanto os agentes o algemavam. “Vou processar-te! Eu—”
“Vais é para a prisão.” A voz de Maria era gelo. “A PJ tem tudo. As gravações, as transferências bancárias, os relatórios falsificados. O meu advogado entregou tudo na semana passada.”
Enquanto a segurança acompanhava Marcos para o elevador, toda a festa observava em silêncio. Depois, alguém começou a aplaudir lentamente. Transformou-se numa ovação estrondosa.
Maria virou-se para enfrentar os seus funcionários—os funcionários do seu marido. As pessoas com que ele se importava. As pessoas que ela tinha protegido.
“Peço desculpa por vos ter enganado a todos”, disse. “Mas eu precisava de ver a verdade. E precisava de provas que se sustentassem em tribunal.”
O Tomás enxugou os olhos. “Não tem nada por que se desculpar, Dona Maria. Salvou-nos.”
“O que acontece agora?” perguntou a Sara.
Maria sorriu—um sorriso verdadeiro, o primeiro em meses. “Agora? Vou promover a Joana Oliveira a CEO. Está connosco há vinte anos, é brilhante e realmente importa-se com esta empresa.” Olhou à volta. “E vou dar a todos nesta sala um aumento de dez por cento, com efeito a primeiro de janeiro. Mais os bónus completos. Os valores reais, não os que o Marcos cortou.”
A sala explodiu em vivas.
“Quanto a mim”, continuou Maria, “vou regressar ao conselho de administração, onde pertenço. E vou trabalhar de perto com a Joana para garantir que esta empresa honra o legado do meu marido. Salários justos. Práticas éticas. Respeito por cada pessoa que aqui trabalha, desde a direção até…” pegou no avental de limpeza, “…à equipa de limpeza.”
Dobrou o avental cuidadosamente. “Falando nisso, vamos contratar três novos auxiliares. A carga de trabalho era demasiado para uma pessoa. Eu sei, porque eu fiz isso.”
O riso foi quente, aliviado.
“Feliz Natal a todos”, disse Maria suavemente. “O David teria orgulho em todos vós. Eu sei que tenho.”
À medida que a festa recomeçava—mais alta agora, mais alegre—a Sara aproximou-se com uma taça de champanhe. “Dona Maria? Esta é para siEla sorriu, sentindo o peso de seis meses de trabalho árduo a levantar-se dos seus ombros, sabendo que a justiça, tal como o azeite, acaba sempre por vir ao de cima.





