Órfão de Fortuna: O Menino que Transformou uma Casa em Império Agrícola6 min de lectura

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O silêncio na velha casa nos arredores de Viseu não era um silêncio de paz, mas de abandono. Tinha um peso físico, uma densidade que grudava nas paredes descascadas e no assoalho de madeira que rangia sob o peso da incerteza. Tomás, com apenas 12 anos, mas com um olhar que carregava décadas de maturidade, permanecia em pé diante da janela quebrada da cozinha.

Observava o rastro de poeira deixado pelo carro velho de seu padrastro, Artur, na estrada de terra três dias antes. Não era a primeira vez que Artur saía para negócios, mas desta vez era diferente. Não restava um pão na despensa. A luz tinha sido cortada naquela manhã e, o mais revelador, o armário do quarto principal estava vazio.

Artur levara até os cabides, deixando para trás apenas Tomás e sua irmãzinha Beatriz, de 6 anos, numa construção que mal podia ser chamada de lar. “Quando é que ele volta, Tomás?”, perguntou uma vozinha no vão da porta. Beatriz abraçava um coelho de pelúcia com uma orelha faltando. Seus olhos grandes e úmidos buscavam no irmão mais velho a segurança que o mundo lhes negava.

Tomás sentiu um nó na garganta, uma pressão ardente que ameaçava virar lágrimas, mas a reprimiu com uma força de vontade impressionante. Naquele momento, entendeu que, se ele fraquejasse, tudo desmoronaria. “Logo, Bia. Enquanto isso, vamos brincar de um jogo”, mentiu ele, ajoelhando para ficar na sua altura. “Vamos ser os donos deste reino. Vê esta casa? É o nosso castelo, e ninguém entra sem a nossa permissão.”

A realidade era mais cruel que o jogo que Tomás tentava inventar. O castelo era uma propriedade em ruínas que Artur herdara de um tio distante, um terreno de 5 hectares coberto de mato, espinhos e escombros do que um dia fora uma próspera quinta vitivinícola. O telhado gotejava como rios durante as tempestades, e os ratos passeavam no porão com uma confiança insultuosa.

Naquela noite, enquanto Beatriz dormia num colchão velho coberto com os poucos casacos que tinham, Tomás não conseguiu fechar os olhos. Sua mente, dotada de uma capacidade analítica excepcional que seus professores sempre elogiaram, começou a trabalhar. Tomás não era apenas inteligente, era um prodígio da lógica. Ele lembrava de cada livro sobre agricultura que folheara na biblioteca da antiga escola. Visualizava esquemas, calculava tempos de colheita e pensava na química do solo. Saiu para o alpendre com uma lanterna quase sem pilhas. O terreno estava escuro, mas em sua mente, Tomás via algo mais. Via o potencial escondido sob o mato.

“Se nos deixou aqui para nos vermos perdidos, enganou-se”, sussurrou Tomás para o vento frio da noite. “Vou transformar este lixão num império.” A fome rugia no seu estômago, mas seu cérebro estava mais ativo que nunca. Começou a traçar um plano num caderno velho. Primeiro passo: garantir água. Segundo passo: limpar o terreno. Terceiro passo: conseguir sementes.

Não tinha dinheiro, mas tinha engenhosidade. Sabia que no mercado da vila jogavam fora frutas e legumes amassados. Sabia extrair sementes, fazer composto, criar um sistema de rega com os canos velhos que saíam da terra. Tomás olhou as estrelas e sentiu o medo virar determinação. O abandono do padrastro não seria seu fim, mas o começo de uma lenda.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, Tomás já estava no quintal com uma enxada enferrujada na mão e o mapa do seu futuro desenhado na alma. A transformação começara. O primeiro mês foi uma batalha de resistência física e agilidade mental. Enquanto outras crianças teriam sucumbido ao pânico, o cérebro de Tomás funcionava como uma máquina de cálculos.

Sua primeira ida à vila não foi para pedir esmola, mas para observar. Com Beatriz pela mão, caminhou os 5 km até o mercado municipal. Lá, enquanto os comerciantes jogavam fora caixas de tomates maduros e pimentos enrugados, Tomás viu ouro puro. “Senhor”, disse ele com uma cortesia rara para um criança, dirigindo-se ao dono de uma loja de frutas. “Se me deixar levar o que vai jogar fora, prometo limpar sua loja todas as manhãs antes de abrir.” O homem, um ancião de pele curtida chamado António, olhou-o com ceticismo. Mas ao ver a determinação nos olhos do rapaz e a palidez de Beatriz, concordou.

Naquela noite, sob a luz de velas resgatadas de uma gaveta, Tomás ensinou Beatriz a extrair sementes. “Olha, Bia, isto parece lixo, mas é vida adormecida”, explicou com voz suave. “Cada semente deste tomate é uma planta que nos dará mais cem.” O trabalho físico foi brutal. O terreno estava compactado por anos de negligência. Tomás não tinha trator, mas achou uma cama de ferro velha no porão que desmontou para usar como ferramenta de arado. Suas mãos, antes macias, logo ficaram calejadas.

Sua primeira grande inovação foi o sistema de irrigação. A casa ficava numa leve inclinação sobre um ribeiro. Tomás passou dias coletando garrafas de plástico e mangueiras velhas que os vizinhos jogavam fora. Usando a gravidade, criou um sistema que levava água direto às raízes, evitando o desperdício. Mas a fome continuava a ser uma ameaça. Beatriz começou a enfraquecer. Tomás precisava de proteína. Sem armadilhas profissionais, ele construiu dispositivos com caixas de madeira e cordas. No terceiro dia, capturou duas codornizes.

“Ele vai voltar para nos tirar isto?”, perguntou Beatriz, com o rosto manchado de fuligem. “Artur já não existe para nós, Bia”, respondeu Tomás, com uma frieza que até a si mesmo o assustou. “Esta terra pertence a quem a trabalha, e nós estamos a acordá-la.” No fim da quarta semana, aconteceu o milagre: pequenos pontos verdes romperam a terra seca. Eram os brotos de rabanetes e alfaces que Tomás plantara com tanta dedicação.

Mas nem tudo foram vitórias. Uma tarde, enquanto trabalhava no estábulo em ruínas, Tomás ouviu um motor se aproximando. Não era o carro de Artur. Era uma viatura dos serviços sociais. Tomás tinha menos de dois minutos para esconder Beatriz e convencer os visitantes de que tudo estava sob controle. “Bia, esconde-te debaixo da escada”, sussurrou ele. “Não faças barulho.”

Quando os oficiais bateram, Tomás saiu com um sorriso ensaiado e um livro de botânica debaixo do braço. “Boa tarde, o meu tio João foi à vila comprar materiais para a bomba de água”, mentiu ele. A assistente social, Dona Lurdes, olhou em volta. A casa ainda estava em más condições, mas Tomás escondera os piores sinais de abandono. “Disseram-nos que aqui viviam duas crianças sozinhas”, ela falou. “Ah, Artur foi embora há tempos”, respondeu Tomás sem pestanejar. “Mas o meu tio João ficou connosco. Ele é engenheiro agrónomo. Estamos a recuperar a quinta.”

Tomás levou-os ao pomar, falando com termos técnicos sobre nitrogE anos depois, quando as primeiras uvas da vinha que Tomás plantou com as próprias mãos viraram o melhor vinho da região, ele e Beatriz brindaram não só ao sucesso da quinta, mas à vida que construíram juntos, contra todas as adversidades.

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